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24.10.2006 - 14:24

Além do Mito

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

A poética de García Lorca na interação e integração do passado com o presente

Este ano de 2006 é o ano de comemoração do 70º aniversário da morte do poeta e dramaturgo Federico García Lorca. As circunstâncias dramáticas e as motivações políticas que envolveram sua trágica morte durante a Guerra Civil Espanhola contribuíram para a formação e uma certa mitologia em torno da figura do poeta. Mas a permanência e pertinência das criações artísticas de García Lorca o fazem superar essa condição de “fetiche cultural” e asseguram seu lugar privilegiado entre os grandes nomes da poesia do século 20. Seus livros, peças dramáticas, conferências, desenhos e seus arranjos musicais continuam sendo amplamente lidos e estudados e seguem despertando o interesse crítico – sua fortuna crítica já reúne milhares de artigos, livros, teses, monografias e ensaios.

A tendência musical foi a primeira que se desenvolveu no artista. Seu pai lhe deu de presente um piano de cauda e ele executava música clássica com o mesmo entusiasmo com que tocava temas populares. As primeiras composições poéticas de Lorca estão carregadas de musicalidade. Vê-se nelas uma visão muito plástica e pictórica do mundo, ordenadas por um ideal de harmonia fruto de sua vocação musical. Essas raízes artísticas, aliadas às impressões recolhidas de suas memórias de infância em Andaluzia foram seu primeiro manancial poético, além, obviamente, do conhecimento que tinha da tradição poética clássica. O cenário rural de sua infância em Fuentevaqueros foi aos poucos sendo substituído em sua poesia pelo fascinante ambiente urbano de Granada.

A tradição da lírica espanhola está fortemente presente na poesia lorquiana e sua voz poética assume uma ressonância coletiva, que nele não parece ser um propósito conscientemente buscado, mas uma característica natural da sua maneira de ser e sentir o mundo.

Apesar de ter atingindo um grande reconhecimento por sua obra muito cedo, García Lorca nunca deixou de buscar novas formas e temas para sua poesia. Muitos contemporâneos se referiam a ele com um poeta natural e espontâneo, “poeta pela graça e Deus”, mas ele sempre enfatizou, em oposição, que era “poeta pela graça da técnica e do esforço e de me dar conta absolutamente daquilo que é um poema”. A concepção poética de Lorca está presente em vários textos ensaísticos e de conferências suas.

Na sua conferência “A imagem poética de Góngora”, ele escreveu: “um poeta tem que ser um professor dos cincos sentidos corporais: visão, tato, audição, olfato e paladar. Para ser dono das mais belas imagens, tem que abrir portas de comunicação em todos eles (…). Todas as imagens se abrem no campo visual. O tato mostra a qualidade de suas matérias líricas, sua qualidade quase pictórica e as imagens que os demais sentidos constroem estão subordinadas aos primeiros”. Assim, para o poeta, as imagens são transposições sensitivas – um jogo entre os sentidos -, e a metáfora seria a “união de dois mundos antagônicos por meio de um salto eqüestre que a imaginação dá”.

Federico García Lorca deixa como herança aos poetas do nosso tempo, além de sua grande obra, uma concepção de poesia profundamente marcada pela valorização da técnica e do trabalho rigoroso com as palavras – uma consciência do esforço que implica a realização plena da poesia.

Faz-se necessária, portanto, uma releitura do poeta centrada nesse aspecto mais técnico e conceitual de sua obra. Federico García Lorca foi um renovador crítico da tradição e não um daqueles poetas de certa tendência “modernista” que desejavam simplesmente esquecer todo o passado, como muitos poetas atuais, que escrevem sem pensar no que foi feito anteriormente e mesmo sem pensar no que acontece no presente. As condições trágicas de sua morte, o fato de ter pertencido a uma minoria sexual e os motivos folclórico e populares de sua obra são apenas um detalhe dentro da vastidão da sua criação artística.

Um comentário

  1. Everardo Norões Comentou em 08.01.2007 às 07:29

    Fundamental a lembrança de um dos maiores poetas do século. Também fundamental que vocês façam uma crítica da péssima tradução da obra completa do poeta, editada pela editora da…Universidade de Brasília.
    Parabéns pelo blog e sucesso no trabalho do Café Colombo, uma das coisas mais interessantes da vida cultural do Recife.

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