Café Colombo

Artigos

24.07.2007 - 18:19

UM OLHAR SOBRE O ABISMO

A estrutura abismal – mise en abyme – nas artes plásticas, no cinema e na literatura

Eduardo Cesar Maia

Uma obra dentro da obra, a ficção dentro da ficção: a célebre cena do drama shakespeareano em que Hamlet pede para que uma companhia teatral encene diante da corte o assassinato do seu pai, o Rei Hamlet, a fim de desmascarar os culpados, observando a reação deles à peça, é um exemplo clássico e bastante citado de mise en abyme.

 

“Relato interno”, “duplicação interior”, “composição em abismo”, “construção em abismo”, “estrutura em abismo”, “narração em primeiro e segundo graus”. Todas essas denominações se referem, em português, a uma técnica narrativa, inspirada originalmente em procedimentos encontrados nas artes plásticas (pintura) e que, posteriormente e com as adaptações necessárias à especificidade de cada forma de arte, chegou à literatura e ao cinema. Tal técnica consiste em colocar uma história dentro da história, como um enclave — uma narração secundária que de algum modo se desenvolve a partir da ficção original.

No ano de 1891, escritor e ensaísta francês André Gide utilizou e teorizou sobre o termo mise en abyme em seus Diários. Era a primeira vez que, em literatura, a nomenclatura era empregada — anteriormente tinha sido utilizada no estudo dos brasões (heráldica); o abyme (abismo) era uma reprodução em miniatura, no centro do escudo, da sua própria forma total, o que dava uma sensação de repetição infinita do mesmo. Os escritores do Nouveau Roman utilizaram com freqüência o procedimento, que se tornou quase uma marca do movimento.

Os jogos de espelhos dentro da narrativa, para o leitor ou espectador mais atento, permitem alternar os momentos de realidade da vida com os da realidade da obra de arte: uma recriação da experiência da vida real imiscuída à experiência criativa e estética. É importante ter em mente que o reflexo do fragmento incluído não possui sempre o mesmo grau de analogia com a obra que o inclui, variando de acordo com a interação que o artista quer estabelecer entre os níveis da narrativa.

Para Lucien Dällenbach, principal teórico deste conceito, mise en abyme é “todo fragmento textual que mantém uma relação de semelhança com a obra que o contém”, funcionando como um reflexo, um espelho da obra que o inclui. Autores como Shakespeare, Borges, Kafka ou o próprio Gide utilizaram dessa estrutura para colocar em xeque o próprio conceito de Ficção e, por conseguinte, a própria definição de Real. Alguns estudiosos acreditam que essa forma metanarrativa gera uma sensação de maior ficção (como se o leitor fosse ainda mais atraído para o jogo da criação), porém, outros autores pensam que o recurso alerta o público que leitor para a “irrealidade” da trama.

Pintura

Um dos exemplos mais famosos e característicos da mise en abyme nas artes plásticas é o quadro L’atelier (1672), do holandês Vermeer. Anteriormente, o seu patrício Jan Van Eyk havia introduzido um espelho dentro da pintura que refletia o próprio quadro em seu O matrimônio dos Arnolfini (1434).

Talvez o pintor que levou essa construção a seu ponto mais interessante e radical tenha sido o espanhol Diego Velásquez. A mise en abyme verificada numa pintura como Las Meninas, por exemplo, diferencia-se dos exemplos anteriores porque, de certa forma, radicaliza o jogo de perspectivas dentro de uma só tela. Isso não era comum na pintura (holanda) porque os espelhos costumam duplicar o que já aparece. No caso de Las Meninas, usando as palavras de Foucault, “de todas as representações que o quadro representa, ele é a única visível; mas ninguém o olha”. Assim, para o filósofo, modelo e espectador invertem seu papel infinitamente, como num espetáculo de “jogos de olhares”, quer dizer, de referencias e perspectivas. Está aí a estrutura abismal da obra, no sentido de que nosso olhar é posto em uma cadeia infinita de reflexos, levando-nos a questionar a realidade ou ilusão daquilo que presenciamos.

Literatura

Dällenbach, a partir das idéias de Gide e, particularmente, do romance Les Faux-Monnayeurs (Os Falsos Moedeiros), analisou as formas que o recurso da mise en abyme toma nas narrativas literárias. O teórico tipificou três categorias de composição em abismo: duplicação simples, quando um fragmento da obra reflete a totalidade da estrutura original; duplicação ao infinito, quando o fragmento inclui outro fragmento, que inclui outro… Dando a sensação de infinitude e indeterminação; duplicação aporística, quando o fragmento inclui a própria obra que o inclui, numa espécie de círculo vicioso que trava a progressão para outros níveis.

O próprio André Gide atesta a manifestação da mise en abyme em obras anteriores a sua, como o Hamlet, de Shakespeare, A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, no Wilhelm Meister, de Goethe e nas várias narrativas das Mil e Uma Noites, em que Scheherazade, para escapar da morte (narrativa principal), utiliza-se da artimanha de inventar histórias todas as noites (narrativas secundárias), sempre deixando o final delas para o outro dia, com o intuito de que o rei Shahryar adie mais uma vez a sua execução.

Cervantes é outro que nos oferece um exemplo muito claro. Dom Quixote e Sancho Pança, seres ficcionais, reconhecem-se como tal: são conscientes de sua própria condição de personagens literários. A riqueza do Quixote está, entre outras coisas, na construção de um universo em que ficção e realidade não estão muito bem demarcados: o jogo constante entre os narradores, os manuscritos com versões diferentes sobre a história narrada, os relatos paralelos e as discussões de crítica e teoria intercalados. Essa espécie de autoconsciência ficcional ou narrativa é uma das formas da mise en abyme em literatura, e se dá, como no exemplo do Quixote, quando a ficção se volta e pensa sobre si mesma.

Uma outra forma de composição em abismo, a duplicação ao infinito, pode ser observada em Contraponto, de Aldous Huxley: um personagem, Philip Quarles, que é escritor, imagina um romance no qual um homem (também escritor) escreve um romance no qual um homem também escreve… E assim indefinidamente.

O interessante é que essa estrutura abismal acaba permitindo que os próprios leitores, percebendo com mais nitidez a natureza do ficcional no jogo de relações entre os personagens da obra central e os da narrativa secundária, gozem de forma mais consciente de tal experiência estética. Essa forma de composição possibilita também a captação simultânea dos elementos que entram em atividade na narração, sua inter-relação e o modo de seu funcionamento.

Cinema          

Os diretores de cinema descobriram na mise en abyme um elemento bastante interessante para a construção de roteiros. As possibilidades técnicas do cinema o tornam talvez o meio em que a construção em abismo pode ser mais amplamente explorada. O procedimento, bastante usado, já pode ser considerado comum na história da cinematografia.

Realização perfeita da mise en abyme no cinema, A noite Americana, de Françoise Truffaut consegue mostrar, no mesmo filme, três níveis distintos de narrativa: a rodagem dele mesmo, com os atores reais; a projeção das cenas rodadas numa saleta para o próprio elenco; e o filme dentro de A Noite AmericanaJe Vous Présent Pámela.

Outro caso de interessante realização cinematográfica é o filme Pedro Almodóvar, Tudo Sobre a Minha Mãe, sua obra-prima. Em meio aos acontecimentos dramáticos da narrativa principal, os personagens, que também são atores na ficção, encenam num teatro a obra de Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo. Dessa forma, o diretor, que foi também o roteirista, consegue estabelecer tantas conexões entre as ficções que a história criada por ele e a famosa peça de Williams parecem se confundir, tanto na forma quanto no conteúdo. Como diria um crítico pós-moderno: Almodóvar ‘releu’ a obra do dramaturgo americano.

Filmes cultuados como 8 e Meio, de Federico Fellini; A Mulher do Tenente Francês, de  Karel Reisz; Dirigindo no Escuro, de Woody Allen; Quero Ser John Malkovich, entre outros, também se utilizam da mise en abyme de diferentes maneiras.

*     *     *

Há, ainda hoje, muitas discussões sobre a utilização do termo mise en abyme. Não existe uma definição rigorosa para o termo e por isso muitas vezes ele é tomado de forma simplista e aplicado a qualquer forma metanarrativa: “quando a ficção vive na ficção”, na definição de Borges. Contudo, na acepção de Gide, é necessário que a estrutura em abismo guarde a característica de refletividade, quer dizer, o fragmento colocado deve manter uma relação especular com original, refletindo por semelhança ou mesmo por contraste.

2 Comentários

  1. watch replica Comentou em 15.10.2007 às 12:49

    Our watch replica price is cheaper than other website, and the watch replica is the good watch. you can choose any watch replica to placed order, Once we receive your payment, we will handle the watch replica shipment.

Deixe um comentário


Anuncie no Café Colombo

Café Colombo - Seu programa de livros e idéias
Conteúdo publicado sob Licença Creative Commons

Wenetus