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01.08.2007 - 14:34

Nossa leitura – O Capital de Marx: uma biografia

Por Eduardo Cesar Maia

A Jorge Zahar Editor vem lançando uma série muito interessante, Livros que mudaram o mundo. São biografias diferentes: não contam a história de vida de uma personalidade importante, contam a história da realização e das reverberações sociais de grandes obras da história do pensamento. Li os três primeiros volumes (A Origem das Espécies, de Darwin; Os Direitos dos Homens, de Thomas Paine; e O Capital, de Karl Marx), e gostaria de comentar este último. O jornalista Francis Wheen narra de maneira instigante como se deu a gestação da obra-prima de Marx – um livro que, para o bem e para o mal, mudou o rumo da História e influenciou (e segue influenciando) várias gerações, tanto de intelectuais como de pessoas comuns.

A origem das idéias e do estilo literário empregados por Marx em O Capital é investigada e colocada junto aos fatos do seu tempo e de sua vida pessoal (mais do que conturbada devido a disputas políticas, situação financeira e dramas familiares do pensador alemão).

A obra se divide em 4 partes. Na introdução, que é muito interessante, Wheen fala da admiração de Marx por um conto de Balzac chamado A obra-prima ignorada, que conta a história de um pintor que após passar anos aperfeiçoando um único quadro, no qual pretende obter “a mais completa representação da realidade”. No entanto as pessoas só vêem no quadro brumas e formas aleatórias. Isso deixa claro de onde vem a admiração de Marx pela pequena narrativa balzaquiana. Ele se enxergava, de certa maneira, no personagem do pintor que buscava apreender o real em toda sua complexidade. Perfeccionista e obsessivo, Marx via no seu O Capital uma verdadeira obra de arte, e dedicou muitos anos a ela.

Os 3 capítulos principais do livro são denominados Gestação, Nascimento e Vida Póstuma. Por isso pode-se dizer que se trata, realmente, da biografia de uma obra. Acompanhamos, assim a relação obsessiva de Marx com a sua cria, a sua obra máxima – que o próprio considerava mais do que um tratado de economia: considerava uma verdadeira obra de arte que conseguiria, como nenhum livro anterior, fornecer um reflexo tão complexo do que seria a realidade daquele momento histórico.

Com a leitura, percebemos que Francis Wheen insiste em defender sempre o que ele chama de “valor literário” do Capital, já que, nos dias de hoje, o valor de ciência daquela obra já não convence. O próprio Marx tinha realmente ambições literárias e tinha um notório conhecimento do assunto. Obviamente, Francis Wheen também enfatiza o valor histórico da obra e a capacidade de influência que ela teve e tem.

Outro ponto delicado dessa obra de Wheen é que se percebe na entrelinhas uma tentativa de relativização forçosa de algumas afirmações que estão presentes em O Capital. Ou seja, a simpatia de Wheen por Marx faz com que ele, por vezes, pise na bola. Em relação a isso, posso citar a questão levantada por Marx da pauperização progressiva do proletariado (que acabou não se confirmando), a inevitabilidade histórica do comunismo (tese arrasada por Pareto e Popper, entre outros) e a própria teoria do valor marxista, já descartada da teoria econômica moderna.

O caráter de obra híbrida, que utiliza várias formas de conhecimento e mistura várias áreas de conhecimento, é um dos pontos de força da obra ao mesmo tempo em que é uma fonte de erros. A amplitude da ambição teórica e, digamos, artística de Marx, acabou colocando o Capital na mira de especialista em várias áreas, desde economistas a filósofos e psicólogos.

Um elemento pouco explorado neste texto de Marx, segundo o grande ensaísta Edmund Wilson em Rumo a Estação Finlândia, é a ironia. Ele considera O Capital uma paródia da economia clássica e seu autor “um mestre da sátira, como Swift”.

A importância dessa obra já tão exaltada por uns e vilipendiada por outros, assegura Wheen, está também garantida em suas formulações pioneiras e ainda válidas de alguma forma, como a que fez sobre a globalização, o mal-estar da modernidade, o declínio da alta cultura, o progresso técnico, a monopolização, a corrupção política e a desigualdade.

Um comentário

  1. [...] A Jorge Zahar Editor colocou no mercado uma interessante coleção chamada “Livros que mudaram o mundo”, com biografias de obras importantes. Estão lá, por exemplo, “O Corão” (analisado por Bruce Lawrence), “Os direitos do homem de Thomas Paine” (Christopher HItchens), “A Bíblia” (Karen Armstrong), “O Capital de Marx” (Francis Wheen) e “A riqueza das nações de Adam Smith” (P.J. O’Rourke). Acabo de ler este último livro (e Eduardo Maia já me prometeu emprestar o de Francis Wheen, que reputo um bom escritor, autor do interessante “Como a picaretagem conquistou o mundo”). [...]

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