30.12.2007 - 19:21
Continuando com Carlos Rangel. Agora sobre reforma agrária
Ainda sobre o livro ”Do bom selvagem ao bom revolucionário” de Carlos Rangel (publicado no Brasil pela Editora da UNB, em 1981).
Muitos ainda defendem que os males da AL seriam frutos da estrutura de distribuição de terra. Mas, onde foram tentadas reformas agrárias, o resultado foi pífio. O que parece indicar que a sociedade latino-americana sofre de males mais complexos e difíceis de remediar. E essa observação foi feita bem antes do Brasil gastar bilhões, fomentando uma fracassada reforma agrária que só fez engordar os bolsos de líderes do MST e de fazendeiros que lucraram com avaliações exageradas do valor de suas terras. A descrição feita abaixa por Rangel cai como uma luva ao homem da Zona da Mata pernambucana, por exemplo, que vive da cultura temporária da cana-de-açúcar e, nos outros meses, de programas governamentais (como o atual Chapéu de Palha, lançado pelo ex-governador Miguel Arraes e reeditado pelo seu neto, Eduardo Campos, atualmente governador de Pernambuco).
“O latifúndio é um lastro quase mortal, ou mortal quando tem sua origem numa sociedade escravagista, como sucedeu no Império Espanhol da América, pelas conseqüências que isso tem na formação de atitudes e comportamentos tanto nos amos como nos escravos e, em seus descendentes. O camponês sucessor, sobre a terra, de avós escravos, herda o hábito de ser objeto de decisões de outros, e não vai mudar magicamente por receber uma parcela de propriedade. Continua esperando ser objeto de um controle paternalista, e se antes foi peão de um senhor feudal, agora será peão (e eleitor) de um partido político, ou do governo, representado no município por um cacique. O espírito feudal segue vigente, as formas de produção continuam sendo primitivas, os resultados decepcionantes. E de vez que já não há fazendeiro a culpar, o fracasso da reforma agrária (frase escutada constantemente desde que cessa a euforia inicial causada pela repartição de terras) se critica os maus governos, os maus ministros da agricultura, a insuficiência de ajuda, de créditos, de entrega de sementes, de compra oportuna das colheitas; quer dizer, a tudo menos o essencial: que a estrutura social criada no século XVI continua pesando na sociedade latino-americana no século XX; que o camponês continua tendo espírito de servo, continua esperando ser objeto de decisões de outros (dos quais, quando mais, supõe que serão mais benévolos que o fazendeiro e menos exigentes).”
(Renato Lima)