16.01.2008 - 17:55
Uma visão econômica e sociológica do Calypso
O professor de economia da USP Ricardo Abramovay reúne trabalhos interessantes e artigos que valem uma conferida em seu site. Um dos papers “As estruturas sociais de um mercado aberto: o caso da música brega do Pará”, que mistura Escola de Frankfurt, Creative Commons e economia neoclássica, chama a atenção:
“A organização do mercado de música brega paraense – baseada em direitos de propriedade abertos – pode ser tão ou mais eficiente do que um modelo em que seguiria os moldes tradicionais? Este mercado específico torna possível enfrentar esta pergunta, pois um traço marcante da música brega paraense reside no fato de que ela se expandiu justamente através de uma estrutura de mercado organizada de forma bastante particular. Sem se basear nas regras formais do direito de propriedade e nos padrões de funcionamento dominantes, estabelecidos pelas grandes empresas da indústria cultural, esse mercado segue outras normas e estruturas: um sistema de distribuição descentralizado, uma produção de custo reduzido e um modelo de negócios no qual o baixo preço é um incentivo aos vendedores para divulgar as músicas e atrair público para os shows. Estas características dão origem a um produto barato e acessível a um volume expressivo de consumidores.
A ocorrência de tais traços no mercado de música brega no Pará representa na verdade um contraponto a duas consagradas teorias. De um lado, ao pensamento identificado com a Escola de Frankfurt, para quem toda expressão cultural está submetida a uma lógica mais geral, regida pela grande indústria cultural e coerente com a ideologia dominante do sistema capitalista. De outro, representa também uma contestação às presunções contidas no pensamento econômico neoclássico, segundo a qual todo mercado seria regido por uma única regra geral, que se define pela busca dos maiores retornos financeiros possíveis a partir de uma unidade qualquer investida. Por esses dois pressupostos, o mercado de bens culturais tenderia à homogeneização e à massificação do consumo concentrado em grandes agentes comerciais.
Diferente destas duas visões consagradas, este trabalho parte do referencial construído no âmbito da sociologia econômica dos mercados. Ele pretende demonstrar que a informalidade no controle dos direitos de propriedade intelectual, presente na hipótese dos modelos de negócio aberto, é algo que depende da configuração das estruturas sociais destes mercados. Nestes termos, é verdade que o barateamento da tecnologia associada à presença de direitos de propriedade abertos contribuem para criar um novo mercado, e que, nesse sentido, apresenta um potencial inclusivo, tanto em termos de maiores possibilidades de realização artística para músicos e compositores como em termos de ampliação das possibilidades de consumo destes bens culturais. Porém, como em todo mercado, este novo segmento se estrutura de forma igualmente hierárquica.”
O trabalho foi feito em conjunto com os professores Arilson Favareto e Reginaldo Magalhães e pode ser lido aqui
(Renato Lima)