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05.04.2008 - 00:13

Dois poemas de Mário Faustino

Artur Ataíde envia dois poemas de Mário Faustino para “ilustrar” suas palavras na entrevista da semana passada. Segundo ele, o primeiro é mais discursivo; o outro, mais experimental.
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Estava lá Aquiles, que abraçava…
Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.
(In: Mário Faustino. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das letras, 2002.)
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo —
ária de pranto, advento de borrasca,
o mar sem remo tolda os horizontes,
Bóreas tem asco deste canto e vai-se —
a este, o meio. O mar, alto e bifronte,
o mastro verga ao peso de seus astros,
tudo perdura e passa, Vasco e pano,
a hora atordoada, a ponte, o gado —
estado, tempo insone, maremoto,
o peixe em seu sepulcro, o céu doloso,
piso estelado, fulcro de tormentos,
nasce de baixo um feixe, um arco, um pasto —
inviolável ave, procelária,
próxima de seu cume, vela e prumo,
alemar, terraquem, céu soto e supra,
solto esqueleto alado, escuma e sulco,
protelado corcel e corolário
do mar e dor do ar e surto e fumo,
esquálido estilete, flecha e rumo —
esquálido estilete, flecha e rumo.
(In: Mário Faustino. O homem e sua hora e outros poemas. São Paulo: Companhia das letras, 2002.)

Um comentário

  1. Gaio Comentou em 06.04.2008 às 16:31

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