10.04.2008 - 19:45
Não resisto…
De antemão, peço desculpas aos companheiros do Café Colombo. Eu mesmo propus que este blog tratasse tão somente de temas relativos à Cultura, ainda que de maneira indireta. Porém, não resisto a replicar aqui o editorial de hoje da Folha de São Paulo: uma “micro-aula” de clareza e de pertinência. O tema é economia política. Aí vai:
| EDITORIAL |
| Folha de S. Paulo |
| 10/4/2008 |
| O PROBLEMA com o populismo econômico é que, embora seus feitiços possam funcionar por certo tempo, as políticas adotadas acabam criando dificuldades ainda maiores que as originais, as quais pretendiam superar. É o que se vê agora na Venezuela. O presidente Hugo Chávez, a fim de satisfazer e ampliar sua base de apoio, vem há anos aumentando os gastos em toda sorte de programas sociais. O risco dessa política é que, se ela não for bem dosada -e não foi-, converte-se em fonte de pressão inflacionária. Para debelá-las, Chávez, bem a seu estilo, optou pela solução mais tonitruante: o controle de preços. Foi seu segundo erro. A Venezuela padece de grave desabastecimento e acumula inflação alta, de 7,1% no primeiro trimestre. Em 2007 a carestia foi de 22,5%, a maior do continente. Nenhum empresário de bom senso faz novos investimentos num ambiente em que é o governo, e não o mercado, que fixa os preços. Já chegam a 400 os produtos e serviços com valor tabelado. A situação deve piorar, pois a resposta de Chávez às dificuldades crescentes tem sido a estatização de cadeias produtivas. Só em 2008, ele nacionalizou duas gigantes do setor de alimentos e agora fala em encampar as três empresas que produzem cimento, as quais acusa de sabotar seu programa de construção de habitações populares. O presidente, entretanto, não se contenta em nacionalizar. Também costuma fazer populismo tarifário com as companhias recém-adquiridas. Foi assim com as telefônicas, encampadas em 2007. Sua primeira medida foi baixar o valor das tarifas. A popularidade de Chávez está caindo -perdeu o referendo de dezembro, que lhe daria mais poderes. Por isso, é provável que intensifique suas mágicas econômicas, agravando ainda mais os problemas dos venezuelanos. |
Esse tipo de texto é o que deveria ser estudado no dia-a-dia das faculdades de jornalismo e não somente a cartilha do marxismo vulga aplicado às “teorias da comunicação”. Um pouco de mundo real, pra variar…
(Eduardo Cesar Maia)
Eduardo!
Está perdoado! :)
Será que na Universo ainda estão lendo a cartilha do marxismo? Depois que muro caiu e o capitalismo está sendo bombado por Lula com o choque de crédito beneficiando ricos e pobres creio que deveriamos deixar a Venezuela de lado (que cresce a 9% e ignorararmos a briga entre o sargento /chaves e o estúpido Bush.
Alguém presumir que das páginas e editoriais da Folha de São Paulo poderá se extrair alguma percepção do mundo real é mesmo que atentar para a esdrúxula hipótese de que Ali Kamel e o Diogo Mainardi um dia poderão produzir um jornalismo sério, honesto, crítico e analítico.
Acredita em duende quem quer. Agora pegar um editorial, recheado de premeditações ideológicas pervertidas, alinhavadas por uma retórica populista de direita para encantar corações e mentes da classe média incauta que sonha com Miami, e pressupor que aquilo possa servir de instrumento para a formação de jornalista é o mesmo que acreditar na máxima de Lair Ribeiro: que querer é poder.
Ou seja: o E. César Maia acima na realidade tem é medo do espectro que ronda e assombra o mercado decantado: MARX.
Medo de Marx? Se as previsões desse Nostradamus da era moderna fossem corretas, o mundo já estaria no comunismo faz tempo. E teria começado pela Inglaterra. Mas é impressionante como ainda se dá valor a um pensador datado, que viu um mundo em 1800 e pouco, interpretou errado e tirou conclusões igualmente errôneas. Deu tudo diferente do que ele previu. Medo?
Alguém que pressupõe que Marx fez previsões e o compara a Nostradumus, na realidade confessa, parodiando Eric Hobsbawm, que nunca foi além da primeira página do Manifesto Comunista. Mas, caso em algum momento tivesse se dado ao encargo de ler o velho e novíssimo Marx, teria percebido que sua obra se fundamenta em uma análise e crítica da formação e desenvolvimento do capitalismo, utilizando como método à contra-prova histórica. Portando, Marx nunca recorreu à retórica e aos sofismas, tão próprios daqueles, que encarcerados em sua visão de mundo e conceitos preconcebidos, de uma forma desenfreada, lutam para fazer da realidade que lhe é externa um clone do seu pensar, do seu agir e do seu ser. Ou seja, isto é que é delírio.
Um abraço Sr. Rentato Lima, advogado e/ou procurador do Sr. E. César Maia
Opa, Luís, tudo bem?
Senti saudade agora do clima de debate que vivi na universidade alguns anos atrás… O problema é que você – assim como faziam os alunos ligados ao movimento estudantil – não apresenta nenhum argumento, somente deblatera. Marx não previu a “ditadura do proletariado”? Não previu a “pauperização progressiva do proletariado”, não falou da inevitabilidade histórica do comunismo (tese arrasada por Pareto e Popper, entre outros)? A própria teoria do valor marxista, até hoje devendida pelo que chamei no post de “marxismo vulgar” já está descartada da teoria econômica moderna há bastante tempo. Portanto, caro amigo e leitor do Café Colombo (e espero que continue assim não obstantes as divergências), não que o pensamento de Marx não tenha sua importância histórica garantida (até pelo que causou e influenciou), mas tratá-lo como um “intocável”, um “guru” ou como “a maior autoridade sobre economia contemporânea”, é, no mínimo, ingenuidade…
Um abraço!
ps.: Mas o seu maior engano foi chamar Renato Lima de meu advogado/procurador… Na verdade ele é o diretor do Café Colombo e eu sou apenas o produtor. Ou seja: ele é o maldito patrão que explora impunemente minha força de trabalho através da mais-valia.
Olá, E. César Maia, como vai?
Acho você deve ter conhecimento do que é produtividade e das formas como se fazem para elevá-la ou das condições em que ela pode ser retraída. Pois bem, qualquer empresário sabe que para elevar a produtividade precisa gastar o menos possível ou conter num patamar que ache aceitável o valor a ser pago com a força de trabalho e obter dela o máximo possível de trabalho, obtendo, dessa forma, um excedente de trabalho que não foi pago. Ou seja, segundo Delfim Neto, que não é marxista, será ampliada a taxa de mais-valia que poderá ser convertida na aquisição de mais máquinas, matérias-primas, insumos e mais força de trabalho. Coitado, do empresário que quiser ignorar esta lógica, ele estará perdido no mundo do onipresente mercado. Será engolido por outros empresários que não ignoram a lógica da produção do valor no capitalismo. A velha teoria do valor marxista.
Quanto à ditadura do proletariado, não vamos simplificar. O conceito está relacionado a uma fase de dominação direta do proletariado sobre a burguesia, com o uso dos instrumentos de Estado contra essa ex-classe dominante quando ela tentasse subverter o processo de transformação da sociedade. Já quanto à previsão de “pauperização progressiva do proletariado”, parece que Marx acertou em cheio, pois o que temos hoje é mais de 1 bilhão de pessoas vivendo em favelas, segundo dados da UM-Habitat da ONU, pelo mundo afora (13 milhões só nos EUA), nas quais falta tudo, menos a teimosia de querer viver e exigir bens e direitos. Ou então, outra indicador alarmante da pauperização, cerca de um terço da população mundial vive com menos de 1800 calorias diária, segundo a FAO, quando George W. Bush gasta alguns trilhões no Iraque para fazer a festa e a farra de alguns empresários. Ou, ainda, é bom lembrar que nos EUA, paraíso do capitalismo, mais da metade da população não tem direito a assistência média, e, segundo Lucas Mendes, num dos momentos em que foi lúcido, que não tem seguro de saúde lá vive em situação pior que o cara que quebra o braço e é atendido em um Hospital da Restauração. Aqui ele é atendido, bem ou mal. Já nos EUA, só Deus sabe!
Quanto a Popper e Pareto, os seus paradigmas teóricos são muito úteis para os que se contentam em saber como as coisas acontecem e como alocar instrumentos e instrumentalizar os indivíduos para que possa gerar eficiência e eficácia capazes de atender a demanda por dividendos requerida pelo o sistema dominante, o capitalista.
Por fim, caso você já tenha lido Marx vai notar que ele sempre utilizou a palavra crítica. Isto é: para ele nada era intocável, tudo deveria ser submetido a uma investigação, análise e crítica. O conhecimento deveria ser sempre objeto de compreensão, análise e crítica, criando condições indispensáveis para o fomento de outras investigações e condições de transformação da realidade. Era o que ele chamava de práxis.
Um abraço.
Primeiro P.S.: Fiquei contente que o teu patrão tenha vindo em tua defesa e devo presumir que ele não é como era o Roberto Marinho, que defendia os seus comunistas, desde espessassem corretamente a opinião do dono do jornal e não incomodassem os donos do poder, ou como Henry Ford, que defendia seus operários caso os mesmos se mantivessem afastados dos sindicatos e dedurassem os comunistas, anarquistas e agitadores infiltrados entre seu empregados.
Segundo P.S.: Alguns anos atrás, os alunos das universidades receberiam de bom grado o ProUni. Hoje??????
Último P.S.: Adoro divergências, polêmicas e embates discordantes, eles são salutares para não ficarmos burros.