12.06.2008 - 19:31
Especial Harold Bloom – Parte 1: A defesa do Cânone
(Este é o primeiro de uma série de posts sobre o crítico norte-americano que irei publicar neste Blog)
A defesa do cânone
Considerado por muitos o crítico literário americano mais importante e influente da atualidade, Harold Bloom, paradoxalmente, nunca esteve ao lado do, digamos, “pensamento hegemônico” da crítica literária produzida nas principais universidades do seu país. Pelo contrário, Bloom tem sido um dos mais ferozes críticos da atual situação das chamadas humanidades nos Estados Unidos.
Para Harold Bloom, o discurso politicamente correto, hegemônico, segundo ele, no universo acadêmico norte-americano, representa “uma traição aos intelectuais”. Bloom acredita que existe numa espécie de conspiração contra a literatura clássica e o cânone ocidentais e defende o retorno universitário ao currículo humanista tradicional.
“Eu diria que não há futuro para o estudo literário como tal nos Estados Unidos. Cada vez mais, estes estudos estão sendo invadidos pelo surpreendente lixo chamado crítica cultural. Em NY, estou rodeado de professores de hip-hop. Em Yale, estou rodeado de professores mais interessados em vários artígos desse monte de esterco chamado cultura popular do que em Proust ou Shakespeare ou Tolstoi” (Bloom, 494, 1994).
Contudo, considero uma impropriedade classificar Harold Bloom como conservador, no sentido político do termo (seu voto é abertamente anti-republicano). As suas divergências com os membros do que ele chama de Escola do Ressentimento, os partidários da political correctness, não são de natureza política, mas estética (ou, para usar um termo do seu agrado, espiritual). Segundo Bloom, a educação que se recebe dos grandes textos – Dante, Cervantes, Chaucer, Homero ou a Bíblia – deve ser independente de nossa posição política.
Essa autonomia do estético, após todas as correntes de Teorias da Literatura desde o formalismo russo, é uma posição bastante difícil de ser defendida. Bloom se coloca nessa trincheira e utiliza-se de sua notável erudição e retórica (complementados com uma boa dose de esnobismo) para metralhar seus adversários ideológicos.
O objetivo dasta série de “posts” no Blog do Café é mostrar de que maneira Harold Bloom argumenta em suas críticas e que modelo de valorização do texto literário ele propõe como legítimo. Também tentarei estabelecer certas relações que aproximam Bloom a algumas concepções do filósofo pragmatista Richard Rorty, falecido recentemente.
(Eduardo Cesar Maia)
Boa iniciativa Eduardo. Qual vai ser a periodicidade dos seus posts nesta série?
A cada dois dias, mais ou menos…
Não tenho como descrever a felicidade que senti ao ler o primeiro post. Harold Bloom é a personalidade literária mais importante do mundo atual e todos os aficcionados por literatura precisam conhecê-lo melhor. Parabéns!
Harold Bloom certamente resgata o cerne e o âmago da autêntica literatura ao insistir com tamanha ousadia na revalorização e sobretudo na atualização para a presente geração( tão tristemente massacrada pelo ruim e pelo odioso da indústria “cultural”) do espírito e gênio dos verdadeiros mestres da humanidade. Como aprender, como tornar-se melhor senão pelas lições, principalmente pelo impulso de semelhantes mestres que arrancam nossas vidas e almas da terrivel inércia que abate nossa vontade e emperra nossa coragem? O homem necessita de estímulos (de ordem elevada) externos para poder dar o melhor de si. A alta expressão estética, moral e metafísica presente na obra dos maiores se constituí nessa mola propulsora. Portanto, um brinde e longa vida a Harold Bloom!