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19.06.2008 - 10:43

Especial Harold Bloom – Parte 5 (Final): “Leitura, sabedoria e prazer”

Harold Bloom

Leitura, sabedoria e prazer

(Este é o quinto – e último! – de uma série de posts sobre o crítico norte-americano publicados neste Blog)

A degeneração diagnosticada por Harold Bloom nos estudos literários se deveria a que as “questões de gosto e juízo agora parecem descansar completamente sobre a informação e não sobre o que poderia ser chamado de aprendizagem ou sabedoria”. Sabedoria, para Bloom, é aquilo que podemos aprender em contato com os demais e, na falta dessa presença, aquilo que aprendemos com os livros:

Uma das razões principais para lermos é porque não poderíamos possivelmente conhecer gente suficiente e conhecê-los suficientemente bem. Dado que não podemos conhecer gente o bastante e nos custa tanto trabalho simplesmente conhecermos a nós mesmos, é Shakespeare, é Cervantes, é Dickens, é Jane Austen, é Virginia Woolf, é Tolstoy, é Dostoyevsky quem nos ajudarão a nos encontrar-nos, a aceitar-nos, ou dar-nos conta de que não nos somos aceitáveis e que talvez devêssemos fazer algo a respeito” (Onde Encontrar a Sabedoria?).

A sabedoria só diria respeito à relação que cada um estabelece entre o que uma pessoa aprende e o que essa mesma pessoa realmente faz com isso. Enquanto informação e conhecimento podem ser compartilhados, a sabedoria é restrita a uma subjetividade particular. Daí se depreende que não existe uma sabedoria universal, mas sabedorias — visões sábias do mundo e de si mesmo.

A dimensão política da leitura passa a segundo (ou terceiro) plano: o critério principal passa a ser o prazer próprio. A dimensão estética, no Harold Bloom dos últimos anos, ganha a autonomia dos tempos da crítica humanista. A leitura, afirma Bloom, deve ser uma atividade terapêutica, “o mais curativo dos prazeres”. Como deixou registrado no seu Cânone Ocidental:

Sinto-me bastante só estes dias ao defender a autonomia do estético, mas sua melhor defesa é a experiência de ler o Rei Lear e despois ver uma boa encenação da obra. O Rei Lear não deriva de uma crise na filosofia, nem seu poder pode ser reduzido a uma mistificação promovida de alguma maneira por instituições burguesas. É uma marca da degeneração do estudo literário que se considere alguém excêntrico por defender que a literatura não depende do filosófico, e que o estético é irredutível a uma ideologia ou metafísica. A crítica estética nos regressa à autonomía da literatura imaginativa e à soberania da alma solitária; o leitor não como uma pessoa em sociedade mas como o ‘eu’ profundo, nossa interioridade última”.

É isso, pessoal… A leitura de Harold Bloom, ainda que vocês não concordem com suas posturas um tanto elitistas, sempre é uma experiência forte, porque você se sente diante de alguém que realmente ama a leitura e que aprendeu algo com a literatura que ninguém pode tirar dele, algo que só tem um valor abstrato, mas incomensurável.

(Eduardo Cesar Maia)

ps. Pretendo, nos próximos dias, postar alguns comentários sobre a crítica do grande liberal brasileiro José Guilherme Merquior, que anda meio esquecido pela academia.

5 Comentários

  1. André Amâncio Comentou em 20.06.2008 às 00:42

    Eduardo Cesar, seriam os ignorantes mais felizes?

  2. Eduardo Maia Comentou em 20.06.2008 às 10:22

    Não sei.

  3. André Amâncio Comentou em 21.06.2008 às 09:19

    Não sabe do ponto de vista filosófico ou por não ser um deles?

  4. Eduardo Maia Comentou em 21.06.2008 às 10:07

    Caro André,

    Acho a pergunta demasiadamente abstrata… Se você perguntasse sobre algo concreto como, por exemplo, se, para um sujeito que tem câncer e só viverá 3 meses, é melhor a ignorância ou conhecimento sobre seu estado ainda assim eu diria: “depende”…

    Felicidade é um estado que só pode ser avaliado a partir da própria vivência individual (e intransferível) da realidade. Não se trata de algo quantificável ou aferível através de alguma escala para que pudéssemos fazer comparações.

    Esse nosso diálogo, um tanto insólito na minha opinião, me lembra um fragmento de Kafka chamado “Das parábolas”. Vou publicá-lo no blog, para que você conheça se lh interessar…

    Abs,

  5. Maxwell Sarmento de Carvalho Comentou em 14.05.2009 às 07:58

    Caro Eduardo,
    Ia (vou) escrever sobre o Bloom, no meu blog, e encontrei seus artigos. Acho o Bloom pouquíssimo divulgado e para a nossa atual cultura de ensino de literatura, um tanto arcano. Hamlet ou Quixote? Dá-lhe José de Alencar e memórias suburbanas ou militantes. O que acha de um paralelo entre o Bloom, o Calvino de “Por que ler os clássicos” e o Pound e seu Paideuma?

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