30.06.2008 - 09:48
80 anos de Gilvan Lemos
Nesta terça-feira (01/07), o escritor pernambucano de São Bento do Una, Gilvan Lemos, completará 80 anos. João Luís, da Nossa Livraria, já preparou uma festa no estabelecimento, mesmo que o aniversariante não compareça (é tímido que dá dó). Escritor avesso a badalações, divulgações e até noite de autógrafos, Lemos tem uma obra de destaque, que merece ser lida e acompanhada. Abaixo, um texto do próprio, para a revista da Livraria Cultura, descrevendo seu gosto pela leitura e formação de escritor.
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Desde criança a leitura tem sido o que existe de mais importante na minha vida. Primeiro me apaixonei pelos gibis. Me interessava também pelos livros infantis de Monteiro Lobato, que os mais velhos indicavam para que eu me instruísse, embora eu não os lesse com esse intuito, e sim por me divertir principalmente com as presepadas da Emília. Depois passei a ler romances. O primeiro que li, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, me conquistou definitivamente. A ficção continua a ser minha leitura predileta. Não sei como uma pessoa passa pela vida sem ler, sem se interessar pela literatura.
Daí nasceu o escritor, modéstia à parte, eu. Como dizia Osman Lins, quem convive com mágicos termina tirando coelhos do bolso. Foi o que aconteceu comigo. Aliás, se não fossem as influências, a arte em geral não teria prosseguido. É nos emocionando por alguém que nos propomos a imitá-lo.
O ato de escrever passou a ser a minha finalidade na vida. Quando estou escrevendo, não me interesso mais por coisa alguma. Me entristeço, me alegro, me emociono… Não sei como há escritores que “sofrem” para escrever. Rachel de Queiróz chegou a dizer que escrever, para ela, era o maior sacrifício. Se era assim, por que escrevia?
Me iniciei na época em que predominavam autores brasileiros como Erico Verissimo, José Lins do Rego, Jorge Amado, Lúcio Cardoso… Amei-os e imitei-os desordenadamente. Claro que hoje faço minhas restrições. De José Lins do Rego, salvo dois ou três romances, de Erico Verissimo, idem. De Lúcio Cardoso, nenhum; de Jorge Amado… restou a saudade. Foi quando “conheci” Graciliano Ramos. Ah, este ainda me agrada. Me identifico com todos os seus livros.
Comecei a escrever de teimoso que era. Em minha cidade – São Bento do Una, agreste meridional de Pernambuco –, não havia a menor possibilidade de prosseguir. Cidade atrasada, sem colégios, sem biblioteca, sem pessoas ligadas à literatura. Contava apenas com minha irmã mais velha, que, sem o curso secundário, como eu, era duma inteligência superior, lia muito e me orientava. Foi com sua ajuda que escrevi meu primeiro conto publicado na revista Alterosa, editada em Belo Horizonte. Quando publiquei o segundo, em 1948, já me considerava um escritor.
Mudei-me para o Recife em 1949. Com 21 anos incompletos, me julgando velho para iniciar o curso ginasial, passei a ler com o interesse de me ilustrar. Em 1951, obtive um prêmio instituído pelo Estado para romances inéditos com meu livro de estréia, Noturno sem música, publicado cinco anos depois em edição particular. Que passou completamente despercebido pela crítica local. Isso me decepcionou sobremaneira. O fato é que eu desejava apenas publicar um romance. Achava que, o publicando, estaria realizado. Mas o diabo é que passei a desejar ser famoso. Apesar de estar convicto de que fracassara, não deixei de escrever. Só para mim. Doze anos mais tarde arrisquei-me a remeter um novo romance à Editora Civilização Brasileira, principal editora de literatura na época. O livro – Emissários do diabo – foi aceito e publicado em 1968. A partir daí, as portas do paraíso se abriram para mim, e meus primeiros romances foram publicados no Rio, em São Paulo e Porto Alegre (no tempo da famosa Editora Globo). O povo da minha terra passou então a me conhecer.
Hoje tenho 21 livros publicados: 11 romances, 3 de novelas e 7 de contos, alguns premiados nacionalmente, outros já na 3ª edição. No momento, estou com dois livros em compasso de espera. Ambos em São Paulo. O primeiro, A era dos besouros, está programado para o fim do ano. Constitui-se de três novelas curtas: Ritual de danação, uma paráfrase de Jó, atual, com final surpreendente; Alugam-se quartos, dramas íntimos de vários moradores dum pardieiro desses “cai-mas-não-cai”; e, finalmente, a que dá título ao livro, história duma família, mulher e filho, que vive os momentos duvidosos da era da ditadura. O segundo, Na rua Padre Silva, é composto de contos “entrelaçados”, quase um romance, sobre pessoas humildes duma rua de pobres.
Os livros, só romances, que eu indico para os leitores do Cultura News, são aqueles de que mais gosto, como, por exemplo, os de Graciliano Ramos; Menino de engenho e Bangüe, de José Lins do Rego; Grande sertão: Veredas e Corpo de baile, de Guimarães Rosa, só para ficar nos do século passado, brasileiros. Não tenho lido autores novos. Estrangeiros, indicaria Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez; A casa verde, de Vargas Llosa; O ajudante, de Bernard Malamud; todos os do Coelho, de John Updike e outros que não me ocorrem no momento.
O “pessoal do Sul” acha que sou “regionalista”. Regionalista parelho aos escritores que se tornaram conhecidos a partir de 1930, sei que não sou. Ocorre que escrevo sobre o meio em que vivo. Retrato as pessoas com que convivo, recordo momentos da minha vida no interior… Em suma, escrevo sobre o que conheço, o que sei, o que me emociona. Para mim, o bom romance é o que nos provoca emoções. Detesto romances experimentais, enredos misteriosos, incompreensíveis, jogos de palavras… Acho que isso é coisa de quem não tem o que dizer. Para mim, romance é romance. Não se restringe a escolas, tempo, época. Quando o romance é bom, não tem idade.