05.10.2008 - 22:14
Que capitalismo é este?
Amigos,
Matéria de minha autoria, publicada no Jornal do Commercio deste domingo, sobre a crise financeira e as visões opostas entre liberais e keynesianos sobre o ocorrido e o que fazer daqui para frente. Segue o texto corrido abaixo e a versão em PDF pode ser baixada neste link.

——————————————-
Que capitalismo é este?
Publicado em 05.10.2008
Socorro do Estado a empresas quebradas traz à tona debate sobre a essência do sistema
Renato Lima
Depois de um longo período de bonança, veio a ressaca e a quebradeira. Para evitar um caos generalizado nos mercados internacionais, governos ao redor do mundo estão resgatando instituições financeiras falidas. Até os Estados Unidos, símbolo maior da economia de mercado, apelou para a mão visível do Estado. Ressurgiu, então, a velha discussão: será que o lucro era privado e o prejuízo é de todos?
Essa crise tem uma face bem nítida – as hipotecas para clientes com mau histórico de pagamento nos Estados Unidos (os subprime) – mas é bem maior do que isso. De 2003 até poucas semanas atrás, o mundo viveu um período fabuloso de alta liquidez internacional (muito dinheiro circulando), proporcionada por taxas de juros muito baixas em países desenvolvidos. Isso fez com que vários investidores aproveitassem o baixo custo do capital para fazer dívidas e investir em diversos setores. Até quem não tinha crédito, como no caso dos subprime, teve acesso.
Pensando em termos do Brasil, é como se consumidores sujos no SPC adquirissem até crédito imobiliário. Os empréstimos se expandiram além da conta porque o custo de capital era baixo e os bancos de investimento acharam que tinham fórmulas que diminuiriam o risco.
Essa farra chegou ao fim. Prestações começaram a atrasar, atingindo fortemente o balanço dos bancos que haviam comprado títulos lastreados nessas operações (sim, os bancos criaram opções de investimento que derivavam dos subprime). No ano passado, o lucro desses bancos minguou. Depois, com o agravamento da situação, esses títulos passaram a micar (ninguém se interessou mais). De valor duvidoso, perderam a liquidez. Com dificuldades de levantar capital, os bancos param de emprestar e a roda da economia corre o risco de parar.
Nessa situação, o poderoso mercado financeiro foi procurar ajuda no dinheiro do contribuinte – não apenas nos Estados Unidos. A Inglaterra nacionalizou dois bancos. A Holanda comprou todos os ativos do Fortis. A Espanha enfrenta também uma bolha imobiliária e abriu o cofre público. A pequena Islândia comprou 75% do Glitnir Bank por US$ 859 milhões, o que, calculado per capita, equivale a um plano de salvamento de US$ 850 bilhões lembrou o economista americano Paul Krungman. Isso porque a Islândia tem a população semelhante a de Caruaru, cerca de 300 mil habitantes.
Os Estados Unidos também prepararam um pacote, inicialmente de US$ 700 bilhões, para comprar os títulos podres dos bancos e normalizar a liquidez do sistema. Num primeiro momento, os deputados americanos rejeitaram o pacote. Não queriam salvar investidores de Wall Street com dinheiro dos trabalhadores. Depois, valeu a pressão da Casa Branca e o Congresso dos EUA aprovou o chamado bailout (termo técnico da operação de salvamento).
Stephen Dubner, co-autor do famoso livro Freaknomics, afirmou que a rejeição inicial dos deputados ao plano foi ocasionada por um senso de justiça, uma repugnância em utilizar recursos do cidadão comum para grandes firmas financeiras. É como na conta de Luiz Gonzaga na música Uma pra mim, outra pra tu. Na hora de embolsar o prejuízo, o setor financeiro pede salvamento do governo e gosta mesmo é da seguinte divisão: “Uma pra mim, uma pra mim, uma pra tu, outra pra mim.”
A reação dos mercados foi imediata. No dia da rejeição, 29 de setembro, a Bolsa de Nova Iorque caiu 6,98%, acendendo um sinal vermelho entre governo e parlamentares. Ao contrário do Brasil, onde a Bolsa ainda é um investimento de poucos, os recursos da aposentadoria do cidadão médio americano estão em ações, o que criou uma nova pressão, dessa vez no sentido de aprovar o pacote.
Dessa forma, os defensores do salvamento modificaram o pacote inicial, dando mais transparência e benefícios para a classe média americana com redução de impostos, e conseguiram aprovar no Senado por 74 votos contra 25 e, na sexta-feira, na Câmara. E só passou porque grupos de pressão convenceram parlamentares que a falta de um programa poderia afetar diretamente o cidadão mais pobre, que sofreria com falta de crédito e aumento do desemprego.
Será que tem que ser assim? Quando há problemas no setor financeiro o governo tem que intervir? Quais as conseqüências disso para o capitalismo, sistema de propriedade privada e que pressupõe retorno porporcional ao risco? Os economistas se dividem.
Do lado de quem defende o salvamento, aponta-se o risco de crise sistêmica. Se algum grande banco falir, prejudica toda a economia. Por isso, para evitar uma falência generalizada, seria hora de repassar mais recursos para o sistema financeiro, que já é acompanhado de perto pelo governo. Outros, da linha keynesiana, referência ao inglês John Manynard Keynes (1883-1946), apontam que a crise indica uma maior necessidade de regulação estatal na economia.
Para o professor de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e presidente da Associação Keynesiana Brasileira, Fernando Ferrari Filho, as intervenções são inevitáveis. Para evitar uma crise de demanda efetiva, consumo abaixo do potencial, é necessário o governo intervir e sinalizar a quantidade de gastos futuros, evitando uma crise maior.
O contrário é defendido pelo economista da linha austríaca, a mais liberal, Alfredo Peringer. Para ele, foi a intervenção estatal, em primeiro lugar, que criou a crise. “As crises não existiriam, ao menos na acepção dada a elas, uma queda acentuada da atividade econômica por longo tempo, se não fossem criadas moeda ou crédito em excesso pelo governo. A crise americana não foge a essa regra. Foi provocada pelas facilidades de crédito governamentais.” Peringer e Ferrari Filho concederam entrevistas ao JC (leia abaixo) e falam, justamente, sobre quem explica melhor esta crise: se Keynes ou o austríaco Friedrich Hayek, maior adversário intelectual do keynesianismo.
Um dos argumentos contrários aos pacotes de intervenção é o chamado risco moral. Se a tomada de risco em excesso não é punida com a falência, os agentes econômicos poderão, numa próxima oportunidade, repetirem o mesmo erro, pois sabem que, em caso de crise, vão ser salvos pelo governo. Dessa forma, em vez de sinalizar uma estabilidade, a ação do governo poderá aprofundar a série de crises. Ferrari Filho defende uma presença mais ativa do governo na economia e não atuações pontuais em momentos de crise.
Agora, é preciso distinguir uma nuance. Grandes economistas, ainda que a favor do livre comércio, divergem quando o assunto é liberalização do mercado financeiro. O indiano Jagdish Bhagwati, autor de Em defesa da Globalização, é contra, pois mesmo países com políticas econômicas sadias podem ser vítimas de um efeito manada em épocas de crise. Já o professor da Universidade de Chicago e co-autor de Salvando o capitalismo dos capitalistas, Luigi Zingales, defende que mercados financeiros integrados levam a um maior financiamento de novos empreendedores e menor concentração de capital.
É de Zingales um dos maiores apelos pela não aprovação do pacote proposto pelo Tesouro. Para ele, o pacotão vai cobrar de muitos (através dos impostos) e beneficiar poucos. “Nós queremos viver num sistema em que os lucros são privados e as perdas socializadas? Onde o dinheiro do contribuinte é usado para salvar firmas falidas? Ou queremos viver num sistema em que as pessoas assumem suas responsabilidades, onde o comportamento imprudente é penalizado e o criterioso é premiado? Para alguém como eu, que acredita fortemente nos livre mercados, o maior risco da situação atual é que o interesse de alguns poucos financistas arruinará as bases funcionais do capitalismo. Chegou a hora de salvar o capitalismo dos capitalistas”, escreveu em recente artigo.
ENTREVISTAS
A visão liberal >> Alfredo Peringer
O socorro agrava as crises
JC – Quem é o maior conselheiro para resolver/entender esta crise: Hayek ou Keynes?
ALFREDO PERINGER – Hayek, com certeza. A teoria dos ciclos de Hayek está fundamentada cientificamente. As crises são causadas pelas variações exageradas de moeda ou de crédito, desequilibrando a estrutura de capital da economia (incha preços, estoques de insumos, matérias-primas e capital de determinados segmentos, em detrimento de outros). Para Hayek, a crise é notada quando o sistema de preços começa a ajustar essa situação em direção ao equilíbrio. A crise se dá, então, no boom e não na queda da atividade econômica… Para Keynes ocorre o inverso.
JC – Um pacote de ajuda salva ou agrava a crise?
PERINGER – Os pensadores austríacos (principalmente Ludwig von Mises, Murray Rothbard e Hayek) nos mostraram que a ajuda agrava as crises, em vez de remediá-las. A “doença” foi provocada justamente pelos exageros do crédito e das injeções monetárias. Como se vai curá-la com novas injeções de crédito e de moeda? O novo dinheiro na forma monetária ou creditícia só vai desorganizar ainda mais a estrutura de produção.
Keynes não morreu >> Fernando Ferrari Filho
Por um Bretton Woods II
JC - Quais lições de Keynes podem ser tiradas desta crise?
FERNANDO FERRARI FILHO – Keynes, assim como os pós keynesianos, nunca estiveram tão vivos e tão atuais. O legado é tentar mostrar que economias monetárias são inerentemente instáveis e essas instabilidades advém da questão financeira.
JC – Essa é uma intervenção específica. Não é cedo para dizer que Keynes está de volta?
FERRARI FILHO – Estado e mercado são duas instituições que se complementam. Não dá para hora brincar de mercado e hora aceitar o socorro do Estado. As ações intervencionistas precisam ser cotidianas, não podem ser para remediar. Nesse particular hoje é um casuísmo, é um componente ad hoc quando deveria ser endógeno do processo.
JC – O acordo de Basiléia II (que regula os bancos) bastaria?
FERRARI FILHO – É preciso muito mais do que isso. É necessária uma reestruturação do sistema monetário internacional que vá na linha do que Keynes preconizava em Bretton Woods, que seja capaz de assegurar a liquidez necessária para expandir a economia, coibir os capitais essencialmente especulativos e sinalize políticas monetárias e cambiais estáveis. Um Bretton Woods II.
(Renato Lima)
Lima:
Sei que o debate central da matéria é outro, mas só gostaria de registrar que é a alavancagem que move o mundo. Há uma parcela de irresponsabilidade nas ações dos bancos de investimento que emprestaram além dos limites permitidos, mas não é correto, simplesmente, tratá-los como apostadores de um “casino”.
Penso que o caminho não é de oposição de idéias: Keynes X Hayek. A realidade é complexa demais para ser captada apenas por um referencial. É mais o caso de perceber o que é válido nas idéias para explicar a realidade e descartar o que não adere. Também, as bolsas estavam se transformando em cassino SIM, era mais emoção que razão e muitos negócios das bolsas (aos poucos vai se ver) eram só alegorias que não passariam numa análise econômica séria. Conseguiam preço para o que não tinha valor.
Há um erro de diagnóstico no enfoque da questão. Para os autores da escola austríaca o que os keynesianos denominam de recessão não é a doença, mas a cura. A doença encontra-se no boom (ou bolha!), cujo vírus do contágio — o excesso monetário ou creditício! — é causado por um feiticeiro, o governo. Um novo vírus, a ajuda financeira ou creditícia, freará o processo de cura, agravando a doença…
Renato,
Sou primo de Francisco Lopes do nectar.org.br. Estudo jornalismo em Salvador/BA. A partir da segunda quinzenda de dezembro volto ao Recife terra da qual Amo. Estou transferindo para Univ. Católica de Pernambuco. É um prazer conhecê-lo.
antonionelsonlp@hotmail.com
Antonio Lopes