28.10.2008 - 06:21
A verdadeira crise brasileira
A verdadeira crise brasileira
Por Bruno Bezerra*
Não se pode negar que a economia mundial vive um inferno astral daqueles bem nutridos. Contudo, um ponto precisa ficar bem esclarecido: a atual crise é americana, mesmo fazendo um grande estrago mundo afora, mesmo ganhando a patente de crise mundial, a famigerada crise é norte-americana.
No Brasil – o país das desigualdades – a crise americana chegou e já foi logo ajudando a incrementar a já extensa coleção de desigualdades brasileiras. Agora temos a desigualdade no conforto ofertado as empresas.
Para justificar a Medida Provisória do governo federal autorizando a Caixa Econômica Federal, e o Banco do Brasil, a comprarem bancos privados em dificuldade, o ministro da Fazenda Guido Mantega disse:
“Quero deixar claro que não há banco quebrando. O sistema financeiro brasileiro é um dos mais sólidos do mundo, justamente porque é menos alavancado, mais prudente e mais rentável. Só que isso não o isenta de ter problemas de liquidez. Estamos apenas criando alternativas e irrigando o sistema para que o país não tenha problemas e estamos dando conta disso”. Segundo o ministro Mantega, a medida busca proporcionar mais “conforto” para o sistema financeiro.
O Anuário do Trabalho na Micro e Pequena Empresa 2008 feito pelo SEBRAE e Dieese mostra que mais de 97% dos estabelecimentos formais no Brasil são micro e pequenas empresas.
Pergunta básica: por que bancos privados merecem mais conforto para funcionar em momentos de crise e as micro e pequenas empresas não?
Em momentos de crise o pequeno empreendedor brasileiro sacrifica até o conforto da própria família para que o empreendimento sobreviva, e assim ajuda e muito a estrutura econômica do país. Quando tem dois carros, vende um; se usa ar-condicionado em casa passa a usar ventilador, tira o filho do curso de inglês, corta itens do cardápio e do lazer e diversão dos familiares entre outras ações de corte de gastos.
No caso dos bancos privados – até quando quebram – o que se observa são as empresas (pessoa jurídica) falidas, e os banqueiros (pessoa física) milionários. Já no caso do governo não existe corte de gastos.
A atual crise mundial é americana, mas a verdadeira crise brasileira é a que deixa milhões de micro e pequenos empreendedores reféns de uma estrutura perversa de tributos, de uma burocracia estúpida, de uma legislação trabalhista angustiante e da escassez de linhas de créditos verdadeiramente justas e produtivas.
E o governo federal preocupado apenas em ofertar conforto a meia-dúzia de banqueiros milionários. Esse é o Brasil de todos, onde a conta é de muitos, e o conforto… de poucos.
* Bruno Bezerra é administrador de empresas, na internet mantém o blog Atitude Empreendedora e o site www.brunobezerra.com