03.11.2008 - 21:02
Perspectivismo em Friedrich Nietzsche
(Este texto é a continuação de Anatol Rosenfeld e o perspectivismo filosófico, publicado neste mesmo blog)

Por Eduardo Cesar Maia
Não obstante as diferentes utilizações e significações atribuídas ao Perspectivismo por diversos autores como Nietzsche ou Ortega y Gasset, em filosofia o termo se refere originalmente a uma teoria que se contrapões ao objetivismo, afirmando que toda tese relativa ao mundo — todo conhecimento — está influenciada pelas peculiaridades do sujeito cognoscente.
A defesa de Nietzsche do Perspectivismo, já esboçada anteriormente por Schopenhauer em seu O Mundo como Vontade e Representação, enfatiza que toda representação do mundo é a representação feita por um sujeito e que a idéia de que podemos prescindir da situação vital de um indivíduo, de suas características físicas, psicológicas, históricas ou biográficas, para alcançar um conhecimento do mundo tal como este realmente possa ser (a antiga idéia da possibilidade de um conhecimento objetivo) é um absurdo. Nietzsche considera impossível o conhecimento da realidade em si mesma, pois toda afirmação, toda crença, toda teoria do mundo depende do ponto de vista subjetivo.
“Abstrair o sujeito equivale a pretender representar o mundo sem sujeito; é uma contradição: representar sem representação! Talvez existam cem mil representações subjetivas. Se se abstrai a nossa, a humana, fica então a da formiga; e se se abstrai toda vida menos a formiga, realmente esta seria o fio do qual dependeria a existência? Sim, o valor da existência depende do fio representado pelos entes dotados de sensibilidade” (Nietzsche, 1985, pág.196).
Não existe nenhum dado, nenhuma experiência, que não esteja contaminada por um ponto de vista, por uma interpretação. Assim, então, não existem fatos que nos sejam dados imediatamente; só possuímos e lidamos com interpretações. Não é possível um critério de verdade (por exemplo, o critério cartesiano da claridade e da distinção); não existem os dados puros a partir dos quais podemos construir um saber objetivo. E não podemos encontrar dados ou verdades primeiras nem no nosso conhecimento do mundo exterior, o mundo que chamamos ‘físico’, nem tampouco no mundo interior. A posição de Nietzsche é tão radicalmente contrária à possibilidade de encontrar uma verdade absoluta que nem sequer crê ser possível o que poderia parecer a verdade mais evidente, o ‘cogito’ cartesiano: tampouco o mundo da mente nos é mostrado em sua pureza, nosso conhecimento da própria mente é tão influenciado por preconceitos como o nosso conhecimento do mundo exterior.
Sabe-se que, à sua época, o pensamento nietzscheano, tendo sido pouco recepcionado nos meios estritamente filosóficos, encontrou uma ressonância importante e peculiar no âmbito literário. A idéia de perspectivismo, principalmente no campo da ficção, teve manifestações importantes e que contribuíram inclusive para que o a filosofia de Nietzsche se alçasse como uma das principais influências do pensamento moderno. Alguns escritores (principalmente os que levaram ao extremo as possibilidades de utilização da linguagem, como Joyce, Kafka ou Musil) ‘encarnaram’, cada uma a sua maneira, estas idéias em suas próprias buscas artísticas. Ao encontrar essas novas ‘formas’ para a ficção, puderam expressar melhor as crises expressivas e filosóficas que estavam manifestas em sua época.
Existem vários pontos de conexão entre estes escritores ‘vanguardistas’ e o pensamento do filósofo: a noção de perda do centro e sua repercussão na idéia de sujeito; o modo de construção da realidade e a constante fuga da mesma; o problema da temporalidade na constituição do ‘eu’; a relação eu-propriedade, entre outros temas.
A busca de noções últimas, fundamentos, conceitos universais ou a criação de sistemas fechados de pensamentos — a pretensão mistificadora do ‘conhecimento puro’— é, na verdade, uma redução dos fenômenos vitais à pura e insípida abstração. Frente à tentativa tirânica da filosofia, a proposta nietzscheana será a do Perspectivismo, a possibilidade de assumir a multiplicidade a partir da idéia de construção de diversas perspectivas em oposição à sistematização baseada em um fundamento, anuladora de toda a complexidade e pluralidade do real.
Um ‘eu’ sem essência fixa é o que, na construção da realidade, pode se dar conta de que a mesma se apóia, peremptoriamente, no nada. A busca de uma ‘última realidade’ carece de sentido e, portanto, deve ser evitado tudo aquilo que signifique um ‘ponto final’ para o pensamento. O homem moderno — e isso é fundamental — descobre que está sem o fundamento último que lhe confere uma legitimidade fora de sua própria existência e se vê obrigado a construir a realidade a partir de múltiplas perspectivas. A forma narrativa do romance, no século XX, é o lugar por excelência onde estas idéias vão tomar corpo e serão melhor expostas.
BIBLIOGRAFIA
BERLIN, Isaiah (1992). Contra la corriente: ensayos sobre historia de las ideas.. Madrid: Fondo de Cultura Económica.
LEFEBVRE, Henri (1972). La vida cotidiana em el mundo moderno. Madrid: Alianza.
NIETZSCHE, Friedrich (1985). Estética y teoría de las artes. Madrid: Tecnos.
ORTEGA Y GASSET, José (1998). Meditaciones del Quijote. Madrid: Ediciones Cátedra.
_______________________ (1987). El tema de nuestro tiempo. Madrid: Espasa-Calpe.
ROSENFELD, Anatol. Textos/Contexto. 2º ed. São Paulo: Perspectiva, 1973.
HORRIVÈL ………
MARAVILHOSO!!!!!!