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23.11.2008 - 09:25

Saudades do que nunca funcionou

Artigo publicado neste domingo sobre a tal crença numa refundação da estrutura financeira mundial, baseando-se em Bretton Woods.

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» TROCANDO EM MIÚDOS
Saudades do que nunca funcionou
Publicado em 23.11.2008
Renato Lima

A atual crise econômica enseja uma variedade de análises e sugestões. Uma das mais recorrentes é a pregação de que o mundo deve fazer um novo Bretton Woods, histórico encontro de julho de 1944 que definiu a estrutura econômica do pós-guerra e criou instituições como o Banco Mundial e o FMI. Acontece que o sistema de Bretton Woods foi pensado pelas maiores mentes do seu tempo, foi preparado por dois anos, uniu os países no período de pós-guerra e… resultou num grande fracasso.

A Conferência de Bretton Woods contou com a participação de 44 países e teve objetivo nem um pouco humilde. Mas o momento histórico assim pedia, depois da sangrenta guerra e a depressão econômica dos anos 30. A delegação brasileira possuía figuras notáveis como os economistas Eugênio Gudin e Roberto Campos. A maior delegação era a americana, com nomes como Henri Morgenthau e Dexter White. A britânica foi encabeçada por John Maynard Keynes e contava ainda com Lionel Robbins.

Com objetivo de fomentar o desenvolvimento, surgiu o Banco Mundial, em 1945. Para evitar crises de balança de pagamento, foi criado o FMI em março de 1947. De modo geral, o Banco Mundial não conseguiu cumprir esse objetivo, como atestam os milhões jogados fora em programas como o Promata em Pernambuco e o FMI começou a perder sua razão de ser desde 1971, quando a paridade dólar e ouro foi rompida.

O clima histórico atual é bem diferente, pois essa crise eclode depois de um dos mais longos períodos de crescimento econômico mundial, que o Brasil só não aproveitou mais pela péssima combinação de tibieza governamental em fazer reformas e volúpia em arrecadar. Na década atual, o crescimento econômico estava tão forte que até a fechada e populista América Latina começou a se beneficiar com o aumento do preço de produtos básicos.

Mas esse crescimento sustentado mais na valorização de preço externo do que em real competitividade chegou ao fim. Quando os ventos da liquidez internacional começaram a mudar de direção, a canoa brasileira não mostra força para remar com força própria. Os problemas do Brasil têm mais raízes próprias do que contaminação externa. Para se ter uma idéia, os Estados Unidos, em forte crise, apresentaram índice de desemprego de 6,5% em outubro, o maior dos últimos 14 anos. Já o Brasil, segundo o IBGE, registrou no mesmo mês desemprego de 7,5% – segundo melhor resultado da série histórica iniciada em 2002. O pior deles é o nosso melhor.

Nem o que ficou de Bretton Woods foi exemplo nem o histórico recente brasileiro permite se colocar como referência mundial em novas discussões. Sem falar que quem já teve Gudin e Campos como representantes teria que amargar Guido Mantega e Samuel Pinheiro Guimarães. É muita pretensão para quem não tem sua casa arrumada achar que pode dar pitaco relevante em consertar o mundo.
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Ainda sobre as mudanças de abordagem e falhas do Banco Mundial, recomendo ouvir a palestra do ex-economista do Banco Mundial (e hoje na New York University), William Easterly, em evento do Cato chamado “Hayekian Insights on Economic Development“.

(Renato Lima)

2 Comentários

  1. Rafael Ferreira Comentou em 23.11.2008 às 12:56

    Muito bom o artigo, Renato.

    Agora há pouco, passei por uma banca de jornal e vi uma revista que tinha como reportagem de capa: “Essa crise não é nossa”, em referência ao Brasil.

    Mas quando o Brasil crescia impulsionado por preços internacionais das commidities elevados, esses jornalistas não diziam que “esse crescimento não é nosso”.

    Abçs.
    Rafael

  2. aécio prado Comentou em 27.11.2008 às 08:33

    Esse artigo ficou muito bom.

    O melhor foi quando eu estava lendo o texto no Jornal -sem ver o nome do autor e pensando: pô, muito bom! agora…quem escreveu ?

    -> Renato Lima: Aaaaah tá. Perdeu a graça hahaha

    Abraços !

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