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23.12.2008 - 08:16

Mais uma (péssima) oportunidade para ser sócio da indústria automobilística

Do Jornal do Commercio (www.jc.com.br), de dezembro de 1988:

Neste anúncio, o presidente da indústria automobilística Gurgel Motores S.A, convocava clientes para adquirirem o mais novo veículo da empresa junto com um lote de ações. Na época, a Gurgel se gabava de ter produzido mais de 20 mil veículos.

“O Gurgel BR 800, resultado do Projeto CENA (Carro Econômico Nacional), é um carro de design avançado e tecnologicamente revolucionário. Seu motor de 800cm³, 2 cilindros opostos, refrigerado a água, é único no mundo.”

“Num país onde o preço do combustível sobe todo mês, onde cada vez mais sobra menos espaço nas ruas das grande cidades e o preço dos automóveis é proibitivo para a maioria das pessoas, não é difícil imaginar a demanda que este carro terá assim que chegar ao mercado.”

“Adquirindo um lote de 750 ações da Gurgel Motores, você se torna um dos donos da fábrica que irá produzi-lo. Uma indústria altamente rentável, instalada numa área construída de 380.000m², com 22.0000m² de área já construída e com um patrimônio inicial de 25 bilhões de cruzados.”

Claro que, passados tantos anos, está claro que o negócio foi frustrado. Mas correríamos o risco, seja no Brasil ou nos EUA atual, de injetar dinheiro dos impostos – daqueles que andam de carro e dos que mal tem dinheiro para comprar uma sandália – para salvar empresa automobilística falida. Não há purgante melhor para má administração do que a Lei de Recuperação Judicial (que, no Brasil, substituiu a concordata) ou o Chapter 11 do United States Bankruptcy Code. Ou existem regras para todos ou estas são negociadas ad-hoc, abrindo-se um balcão de favores, seja em Brasília ou Washington. Nessas horas, existe sempre a grita sobre a importância do setor, a força política, o valor da marca… Mas o resultado é que esses pacotes de salvamento tornam o povo sócio não voluntário de empresas que estavam quebrando. E que terão como saldo, depois de aprovado o pacote, um grande débito – político!

Também olhando em retrocesso, dá para ver como a GOL errou em entrar na barca furada de levar a Varig – ao que muitos dizem, após acerto político. A marca perdeu valor, a malha área não se integrou bem e mesmo os vôos internacionais – grande ativo da antiga companhia brasileira – foram perdidos. Teria sido poupado dinheiro deixando a empresa falir.

Ah, mas uma coisa deve ser registrada. O exemplo da Gurgel é de notável empreendedorismo. Aqueles carrinhos eram muito mais bonitos e úteis do que os russos da Lada – empresa que contou com muitos anos de subsídio e mercado cativo. Errar mais do que os russos era difícil…

(Renato Lima)

Um comentário

  1. Luis Oliveira Comentou em 26.12.2008 às 15:09

    Pois é, a chamada acaba nao condizendo com o final do texto. Capitalismo é risco e os que investiram na GURGEL se submeteram ao risco (coisa bem diferente das circunstancias atuais). Mostrar o carro de 88 da a impressao que era um pessimo negocio mesmo (o que acabou se tornando por motivos alheios ao proprio gerenciamento da empresa). O design era adequado para a epoca – qd tinhamos carroças a motor.
    Mas obter favores do governo é bem tipico da industria automobilistica. Sao eles q mais facilmente conseguem incentivos fiscais, reducao de IPI, terreno de graça, influenciam a construcao de estradas e avenidas (em detrimento do transporte de massa).
    Enfim, ja somos socios a muito tempo destas empresas, sem saber.

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