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09.02.2009 - 11:46

Aquece ou esfria? Erros de jornalismo e ciência no debate sobre aquecimento global

Vocês viram que Londres teve a pior nevasca dos últimos 18 anos? Que a França está congelando? Que russos estão convivendo com -40º? Qualquer um se perguntaria como isso é possível já que se lê em todos os lugares que o mundo está aquecendo.

Essa é a motivação de matéria feita por Claudio Angelo, editor de ciência da Folha de São Paulo. Primeiro leiam o material que depois comento:

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Caos climático tende a piorar no futuro

Eventos como supernevasca na Inglaterra e calor intenso na Austrália serão mais freqüentes com aquecimento global

Alteração causada pelo aumento do efeito-estufa não é a causa direta dos extremos meteorológicos, mas favorece instabilidade

CLAUDIO ANGELO

EDITOR DE CIÊNCIA

A nevasca sem paralelo nos últimos 18 anos que mergulhou o Reino Unido no caos na última semana tem a mesma origem das chuvas que causaram a tragédia em Santa Catarina e da onda de calor que sufoca os australianos. E, embora não seja possível pôr a culpa no aquecimento global, instabilidades desse tipo tendem a ficar mais frequentes no futuro.

Previsto para ser um dos cinco anos mais quentes já registrados, 2009 começou gelado para os europeus e boa parte dos norte-americanos.

“O frio foi excepcional. Temperaturas negativas por vários dias seguidos são incomuns em Paris”, disse o músico brasileiro Guilherme Carvalho, que mora há oito anos na capital francesa. “No canal de La Villette, vi uma placa: “Perigo – não ande no gelo”, coisa que nunca tinha visto antes.”

“Estamos há uma semana sem energia aqui e com temperaturas abaixo de zero. Há muita gente desabrigada”, escreveu de Louisville (Kentucky, EUA) o linguista Daniel Everett. O Estado registrou 27 mortes pela nevasca e foi decretado área de calamidade pública pelo presidente Barack Obama.

O frio levou comentaristas da direita americana ao inevitável questionamento do aquecimento global. Afinal, se o mundo está esquentando, por que o inverno setentrional de 2009 chegou dessa forma?

Nada com o que se espantar, dizem os meteorologistas. Na média, 2009 ainda deve ser quente. “O ano ainda não acabou”, diz José Marengo, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Segundo Pedro Leite da Silva Dias, diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica, os extremos do final de 2008 e do começo deste ano podem ser explicados por duas causas imediatas.

A primeira é o fenômeno La Niña, nome dado ao resfriamento anormal das águas do oceano Pacífico. Como sua cara-metade, o El Niño, (o aquecimento anormal do Pacífico), o La Niña é sazonal e, quando se instala, é uma das forças dominantes nas condições climáticas do planeta. Há um La Niña instalado desde 2008, e ele não deve sumir antes de abril.

Pedra na água

A outra causa são chuvas intensas sobre a região da Indonésia desde o fim de 2008. “Onde chove, ocorre liberação de muita energia para a atmosfera, como se fosse jogada uma pedra na água”, afirma Dias. “A energia é propagada na atmosfera, como ondas na água, e forma padrões de ondas que atingem zonas remotas.”

Parte dessas ondas se propaga pelo hemisfério Norte, da América para a Europa. Parte se dissemina pelo hemisfério Sul. “Portanto, as anomalias na Austrália e as anomalias na América do Sul, como as chuvas de novembro em Santa Catarina e depois em Minas, Rio e Espírito Santo, estão todas correlacionadas”, afirma o cientista.

A relação disso tudo com o aquecimento global é mais sutil. Segundo Michel Jarraud, da Organização Meteorológica Mundial, as pessoas tendem a confundir tempo (condições específicas da atmosfera num dado momento) e clima (condições gerais, no longo prazo).

“Todo ano você tem padrões excepcionais de tempo e lugares onde recordes são quebrados”, disse Jarraud numa entrevista coletiva no fim do ano passado. “Se você tem ar mais frio em algum lugar, você tem de ter ar mais quente em algum outro lugar. A temperatura média da Terra é a mesma.”

O aquecimento global não significa que não haverá mais invernos frios, mas sim que eles serão menos frequentes. “Não é algo que você espera que seja mais quente e mais quente”, afirma Marengo, do Inpe. O que existe é uma elevação contínua da temperatura média.

Marengo lembra ainda que o aquecimento global é composto por dois tipos de influência, ou “sinal”: as antropogênicas, ou seja, causadas por atividades humanas, e as naturais. Há um cabo-de-guerra entre ambas.

“Nos dois últimos anos, tivemos temperaturas mais baixas do que no final do século 20. Pode ser que a variabilidade normal do clima esteja mais forte que o sinal antropogênico agora, mas no longo prazo o sinal dos gases-estufa é mais forte”, diz o climatologista.

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Vamos para algumas considerações preliminares:

1) Não existe clima único na terra. O clima sempre está mudando. Qualquer criança sabe disso. Sabe porque, no mínimo, como eu vi com o meu sobrinho de quatro anos, há um filme da Disney chamado “A era do gelo”. Tampouco existe um nível absoluto dos oceanos. O homem já era homem com sua formação física atual e não existia Canal da Mancha: Inglaterra e França era uma única faixa de terra. E o homem também migrou para a América, provavelmente, pelo Estreito de Bering.

Portanto, não existe um clima “certo” e os desvios são erros, a serem causados por algum fenômeno de óbvia causa humana.

2) Para existir uma tendência de médio ou longo prazo (no prazo da vida humana, bem menor do que o da Terra) de aquecimento ou esfriamento global, é preciso ser capaz de detectar essa variação climática em vários pontos. Pode a minha cidade, o Recife, ficar mais quente pela eliminação de várias árvores, o asfaltamento de todas as ruas e a construção de inúmeros prédios que isso não significa aquecimento global. O microclima certamente fica mais quente (em média, a urbanização aumenta em 2º a temperatura), mas não contribui com o derretimento de um cubo de gelo no ártico. O aquecimento para ser global tem que ser medido como o cálculo da inflação: aumento generalizado de preços. Para a inflação, é preciso pesquisar uma cesta de consumo (vários itens) e em vários locais. Se só o chuchu vendido no Bompreço subiu de preço e outros itens ficaram estáveis ou caíram no Comprebem, Pão de Açúcar, Extra e Carrefour, não temos inflação (podemos ter, até, deflação). Então, a sensação pessoal de “mais o Recife está mais quente” não indica um testemunho de aquecimento global.

3) Há uma teoria que associa o aumento de carbono na atmosfera a aumento da temperatura. Há uma subcorrente de cientistas que trabalham com essa teoria que defende que as atividades humanas são fortemente responsáveis pelo aumento de carbono na atmosfera e, consequentemente, por uma tendência de aquecimento acima do que seria esperado. É uma teoria ainda a ser provada. Tudo o que se ouve falar como “conseqüências do aquecimento global” são projeções em modelos de computador tomando certas variáveis como verdadeiras. Mas esta é a teoria mais conhecida e popular.

Passada essas considerações, vamos ao que aponta a matéria. O fato mais óbvio é que a reportagem tem toda a dificuldade de associar o suposto aquecimento global com as nevascas da Inglaterra e chuvas de Santa Catarina. A passagem “embora não seja possível pôr a culpa no aquecimento global” deixa isso muito claro. Admite-se o óbvio na matéria: há fatores que alteram o clima que ainda não são compreendidos, ou “sinais” naturais.

A grande informação do texto é que há dois anos as temperaturas médias baixaram em vez de aumentar! “Nos dois últimos anos, tivemos temperaturas mais baixas do que no final do século 20”, admite o climatologista do Inpe. E informação mais quente e diferente não é colocada no pé da matéria, mas no lead. Um lead que tenha “embora…” é obviamente mais fraco do que um com informação precisa.

Não são apenas os últimos dois anos que foram mais frios. O economista inglês Tim Harford mantém, na BBC em parceria com a Open University, um instigante programa chamado “More or less”. O programa vai atrás de estatísticas e analisa os números divulgados. A função é dar luz às estatísticas e fazer o ouvinte entender os números que nos rodeiam e não ser enganado facilmente.

Em 28 de abril de 2008, o More or Less dedicou o programa a analisar a pergunta: “Está o planeta ainda se tornando mais quente?”. A análise dos dados mostra que a temperatura mundial não bateu o recorde de 1998 – são, portanto, 11 anos mais frios (texto e áudio disponível aqui).

Para o diretor do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luiz Carlos Baldicero Molion, o mundo está é esfriando em vez de aquecer. Os indícios já podem ser verificados nas temperaturas médias do Oceano Pacífico, que ocupa 35% do globo terrestre, defende o doutor pelo MIT. Conservacionista que é, Molion diz que aqueça ou esfrie, o homem deve manter um ar limpo, rios não poluídos e floresta em pé. “Mas isso não se mistura com a discussão do clima global”, disse em entrevista.

Mas, para Claudio Angelo, o Editor de Ciência da Folha de São Paulo, só “comentaristas da direita americana” se interrogaram sobre qual a tendência do clima. Como ele escreveu: “O frio levou comentaristas da direita americana ao inevitável questionamento do aquecimento global.” Ora, os fatos tão distantes da popular teoria fazem com que o questionamento seja inevitável ou restrito à “direita americana”?

Não se trata de negar o “aquecimento global”, mas de afirmar o método científico. Aquele que tem dúvida, formula-se uma hipótese, busca-se dados e comprovação. Não se pode ir da hipótese à comprovação saltando os dados. Isso seria pura picaretagem.

E também o jornalismo tem suas regras. Não é possível hoje, dizer com certeza a tendência do clima global, mas há indícios de sobra para pôr em dúvida a teoria mais popular. Esse desafio ao senso comum e a busca por outros ângulos caracteriza o bom jornalismo. O que se vê é que, nessa discussão de aquecimento global, a qualidade do jornalismo está derretendo. Pior ainda em saber que não é produto de foca (morreu por causa do degelo?), mas de editor.

(Renato Lima)

5 Comentários

  1. Rimet Comentou em 11.02.2009 às 00:16

    Renato Lima

    Estou achando que você chegou tarde com essa retórica pseudo-científica. Bush não é mais presidente, agora é o Obama. Você não vai conseguir emprego nem tão cedo como consultor de coisa alguma que não vale apenas.

  2. Renato Lima Comentou em 11.02.2009 às 07:14

    Caríssimo Rimet (?),

    Não estou buscando emprego de assessor de presidente. Mas apenas uma análise, sem a parcialidade que até no jornalismo se observa, sobre o tema. Seu comentário é um sintoma disso, de que se deixou de debater fatos para virar um tema de crença inquestionável. Em lógica é o que se chama de falácia ad hominem – quando no debate de um tema se ataca um argumento com uma crítica a quem o anuncia, e não ao argumento em si. Onde fui “pseudo-científico”? Terei o maior prazer em corrigir se você apontar.

    Saudações calorosas antropogênicas!,
    Renato Lima

  3. luiz Comentou em 09.11.2009 às 17:05

    Renato,

    Nao desencoraje o sujeito (Rimet?). Ele acabara de aprender os termos retorica e pseudo-cientifica, portanto ainda nao sabe usa-los com precisao. Esta indo por tentativa e erro, na proxima ele acerta. Alias, embora vc va ter dificuldade de trabalhar pro governo Obama, a julgar pela robustez argumentativa dele, ja tem vaga nos quadros da nossa republicda.

  4. Pedro Paulo Comentou em 14.11.2009 às 10:43

    Caro Renato,

    Sei que a notícia é velha, mas a li agora e realmente gostei. Gosto muito de ver este outro lado de tudo, acho que nos ajuda a entender com mais clareza as coisas, quando se vê só por um lado pode-se perder a vista dos olhos da garota, ou dos glúteos! =D

    Porém houve uma parte do texto que vc acabou por ser parcial, quando vc aponta: [i]“A grande informação do texto é que há dois anos as temperaturas médias baixaram em vez de aumentar! “Nos dois últimos anos, tivemos temperaturas mais baixas do que no final do século 20”, admite o climatologista do Inpe.”[/i] O texto não diz que as temperaturas médias baixaram, ele diz que “tivemos temperaturas mais baixas” e você mesmo passou grande parte do texto explicando que média é diferente de temperaturas isoladas… Desta forma acho que vc caiu em erro em generalizar uma afirmação específica….

    Fraterno amplexo,
    Pedro Paulo Madeira

  5. Renato Lima Comentou em 14.11.2009 às 12:54

    Caríssimo Pedro,
    Muito obrigado. Você fez uma leitura muito acurada do texto. O correto seria mesmo “as temperaturas médias estão mais baixas em vez de mais altas”. Por sinal, esse debate “esquentou” (haha!) com a publicação do “Super Freakonomics: Global Cooling, Patriotic Prostitutes and Why Suicide Bombers Should Buy Life Insurance” de Steven Levitt e Stephen J. Dubner.

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