Café Colombo

Blog do Café

24.04.2009 - 22:20

Quem paga tanta notícia?

Parece até ironia alguém do Café Colombo meter a colher no caldeirão de problemas mercadológicos de outros produtos culturais, mas quando se trata de algo especial e produzido por um ente público, cabe aqui abrirmos uma discussão.

Projeto vitorioso da Companhia Editora de Pernambuco-CEPE e nascido ainda no governo de Jarbas Vasconcelos, a revista Continente Multicultural já adentrou em uma nova gestão e chega, neste mês de abril, à edição de número 100. Em sua história, a revista sobreviveu a algumas alterações na redação e permaneceu quase ilesa até mesmo durante o triste ano de 2007, quando a CEPE amargou um assombroso prejuízo de 6 milhões (leia mais aqui).

Na edição comemorativa de número 100, a Continente ganhou novo projeto gráfico e editorial e aproveitou para tratar, de forma muito convincente, sobre os rumos do jornalismo cultural. A matéria de capa não abordou os detalhes da equação financeira necessária para manter qualquer produto cultural na praça, mas a revista, por meio da seção Peleja, incitou um debate sobre o papel do Estado no incentivo às manifestações culturais. E é aqui que entro, mas antes vale um elogio à redação pela coragem de abordar a questão, até mesmo por ser a Continente mantida por uma empresa do Estado.

A edição comemorativa tem 104 páginas. Contando com segunda, terceira e quarta capas e excluindo os anúncios da própria CEPE, temos ao todo 15 páginas de anúncios vendidas. Para quem?

a)      uma para CHESF;

b)      uma para SUAPE ;

c)      uma para Prefeitura de Olinda;

d)      uma para Stampa Outdoor;

e)      uma para Jornal do Commercio;

f)        uma para Aporte Comunicação;

g)      uma para Tecpel / Papier – homenagem dos fornecedores de papel da revista;

h)      uma para revista Algomais;

i)        duas para produtoras de eventos culturais (CinePE e Abril pro Rock) que também receberam patrocínios do Governo de Pernambuco;

j)        duas para Ministério da Educação e

k)      três para o próprio Governo de Pernambuco.

Não há como questionar a qualidade da Continente como revista, tampouco sua legitimidade junto aos leitores pernambucanos (será um desgaste para o governante que tentar acabar com a publicação), e até mesmo em virtude disso, o que preocupa é a falta de anúncios da iniciativa privada. Percebam que são apenas sete páginas compradas pelo setor privado e olhe que ainda pode ter havido casos de permuta, dada, inclusive, a presença de outros veículos de comunicação na lista.

Sou leitor também da revista Piauí. Já ouvi falar que a publicação não tem vida econômica fácil. Todavia, ao analisar a edição de abril da revista – de circulação nacional é verdade, há um conjunto muito maior de anúncios de empresas privadas (bancos, editoras, restaurantes, empresas de telefonia, cartão de crédito, distribuidoras de combustíveis etc).

Feliz ou não, a comparação sugere outras questões. Temos problemas no mercado de Pernambuco?  As empresas locais não acreditam em marketing cultural ou não percebem o valor dos produtos culturais? Ou a essência do problema está na falta de estrutura/planejamento comercial da Continente para buscar anunciantes?

Acredito que os custos da edição comemorativa #100 da Continente tenham sido devidamente cobertos pelas páginas e edições vendidas, bem como pela arrecadação das assinaturas, mas até quando dependerá de tanto apoio público uma revista notável que já é feita por uma empresa pública?

Até porque se os prejuízos da CEPE persistirem, poderá chegar uma triste hora em que os contribuintes, em especial os que não lêem ou não podem comprar a revista, reduzirão o desgaste trabalho do governante e pedirão para não mais arcar com a publicação.

(Marcelo Sandes)

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