06.05.2009 - 09:23
Seguindo o consenso errado
Amigos,
Do meu artigo quinzenal para o Ordem Livre:
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por Renato Lima
Muito já se falou em Consenso de Washington, embora pouco dos que o atacam consigam caracterizar fielmente o seu sentido. Mas, passados estes 100 dias de governo Obama e observando a reação dos demais países com a crise, já podemos falar em um novo consenso. Este sim, de alcance global, adesão quase irrestrita e possíveis efeitos danosos.
Para início de conversa, cabe lembrar o que seria o Consenso de Washington original, expressão que depois foi descaracterizada e serviu para muitos palanques e pouca reflexão séria. O rótulo teve origem num artigo publicado em 1989 por John Williamson, economista americano mas com fortes laços com o Brasil, inclusive professor visitante da PUC-RJ. As ideias seriam as consensuais entre as instituições multilaterais (como FMI e Banco Mundial, sediadas em Washington). E aí não tinha nada de absurdo, muito pelo contrário. Estavam na lista disciplina fiscal (evitar a gastança e o financiamento inflacionário), melhor priorização dos gastos públicos (defesa dos investimentos em saúde e educação), reforma fiscal (incluindo o aumento da base de arrecadação), unificação da taxa de câmbio em nível que estimule exportações (alguém se lembra do câmbio comercial, turismo, black?), estímulo ao investimento direto externo e garantia do direito de propriedade, entre outros pontos.
Quem tiver mais interesse pode conferir o paper original ou um breve texto preparado por Fábio Giambiagi e Maurício Mesquita Moreira em abril de 2000, publicado pelo BNDES chamado “Políticas Neoliberais? Mas o que é o neoliberalismo?”.
Basta uma rápida análise para perceber quão distantes desses objetivos estiveram os países na América Latina. Para pegar um exemplo, a Argentina, que de fato realizou muitas privatizações na era Menem, tinha câmbio fixo, quando Williamson via como ideal um câmbio unificado (para evitar favorecimentos a grupos de pressão) com taxa competitiva (estímulo a exportação). Além disso, não houve disciplina fiscal, com uma gastança que não tinha limites nas províncias. E ainda assim, esse país é apresentado como aluno exemplar do Consenso de Washington, o que está distante da realidade. A América Latina comemora a queda do que nunca subiu por aqui.
Mas agora, especialmente após a reunião do G-20 em Londres, vivemos sim um certo consenso de Washington. E é o consenso intervencionista, que já havia começado no governo Bush II e continua no de Obama.
Nesse novo consenso, empresas ineficientes ganham cartão verde para se financiar com dinheiro do contribuinte e não de suas vendas, como acontece com os pacotes salvadores das montadoras de veículos. Uma crise econômica causada, em grande parte, por erros de política monetária (com a manutenção por muito tempo de juros irrisórios estimulando um consumo desenfreado) é “sanada” com mais do mesmo: mais juros baixos e mais gastos do governo. E notem bem: um pacote de salvamento de mais de US$ 700 bilhões foi aprovado ainda no governo Bush, que também concordou em salvar a AIG, financiadoras imobiliárias e empresas automotivas. Change? O intervencionismo une Bush e Obama, passando pelo trabalhista Gordon Brown, praticando um déficit fiscal anual próximo aos 10% do PIB. A despeito de mudanças na política externa, a política econômica de Obama tem a mesma característica da de Bush: estímulo monetário (juros quase a zero) e estímulo fiscal. O que varia, na parte fiscal, são os setores escolhidos (e os lobistas) para receber a ajuda. A essência é a mesma.
Felizmente, ainda há líderes sérios que apontam para os riscos do gasto excessivo e a deterioração do ambiente econômico pelo intervencionismo estatal, especialmente quando mau conduzido. Um deles é David Cameron, parlamentar inglês líder do Partido Conservador. Ele já lidera em muitas pesquisas as intenções de votos contra Gordon Brown e o partido Trabalhista. Não ouviu ainda falar de Cameron? Escute-o para fugir desse consenso, o que pode ser feito todas as quartas-feiras nos debates do Parlamento Inglês ou nesta apresentação em aúdio na London School of Economics.
Então tá combinado. O que dá certo é o consenso de Washington. O que não dá é o consenso errado.
Lembrei dos comunistas de hoje. Eles alegam que a União Soviética foi uma distorção do comunismo. Não valeu. Querem uma segunda chance.
Quando foi mesmo que Obama prometeu mudança concreta na economia?
Nos EUA tem candidato a presidente que propõe mudança de verdade na economia. Aliás, tem candidato pra propor de tudo. Tem pra mais de 100 candidatos a cada eleição. Alguém sabe dizer o nome de três candidatos a presidente dos EUA em 2008? Não vale os democratas e republicanos derrotados nas primárias.
Se Obama ameaçasse um tantinho assim as grandes corporações que governam os EUA, nós, no máximo, lembraríamos dele como um Jesse Jackson da vida… Aliás, se não me engano, Bill Clinton tentou colocar essa pecha nele ainda no início da disputa com Hillary.
Os ingleses releram o consenso de Washington e viram que o bom mesmo são os conservadores?
Depois de longos e amargos anos na oposição, o que fizeram os trabalhistas ingleses, senão aderir a todos os consensos econômicos possíveis para agradar ao status quo inglês e voltar ao poder?
Podem voltar à oposição? Claro. Qual governo, em um regime democrático, resiste a uma crise econômica? Crise, desemprego, falta de dinheiro no bolso significa dor de cabeça pra qualquer governo e oportunidade para a oposição.
Quem tem a cara da crise, Blair/Brown ou os conservadores? Quem tem a cara da era Bush? Quem é o poodle de Bush? Change. Não será surpresa se o mesmo mantra que embalou um liberal americano servir a um conservador inglês.
Caso se concretize, a vitória da oposição na Inglaterra, pelos mesmos motivos que levaram um liberal à vitória nos EUA, fará a delícia dos conservadores do mundo inteiro. How interesting!
Cada um faz a leitura da realidade que convém.
Na verdade, depois de algum tempo de pregação, fica difícil assumir erros, defeitos ou simplesmente dizer: “Eita, que merda! Peguei o caminho errado”.
Ótima indicação do texto do Giambiagi e do Mesquita Moreira, Renato!
Eu não estava tão inteirada arespeito do Cameron. Obrigada pelo toque!
Abraço