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14.06.2009 - 19:54

Lúcia Guimarães entrevista Philip Roth

Do Estadão:

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Um senhor americano

Com uma escrita voraz e urgente, Philip Roth diz não pertencer a uma tradição cultural judaica e lança agora no Brasil o seu belo e feroz Indignação

Lucia Guimarães, NOVA YORKTamanho do texto? A A A A

O recepcionista da agência literária hesita por alguns segundos. É compreensível. Num momento ele atende mensageiros ciclistas com roupas berrantes de lycra e, em seguida, ouve de uma mulher com sotaque: “Vim encontrar Philip Roth.” “Oh…”, ele reage, enquanto recupera o ritmo. “Por favor, acomode-se no sofá, posso trazer café, água?”

De repente, começo a preferir a companhia do suave recepcionista. Como relaxar a caminho do aperto de mão do maior romancista da língua inglesa, sabendo que ele considera um tratamento de canal mais atraente do que a próxima meia hora? A associação ortodôntica acaba se confirmando por outro motivo durante a conversa.

Troquei de roupa uma segunda vez, antes de sair para a entrevista. Uma camisa de linho preto, abotoada para sinalizar modéstia e severidade, colocaria a repórter a uma distância apropriada de Portnoy-Zuckerman-Sabbath-Roth.

Que os céus o livrem de sorrir. Philip Roth sabe calibrar com precisão científica o limite entre a polidez e temperatura controlada de sua expressão. Ele me cumprimenta pela rapidez com que rearranjo a decoração da mesa de centro que nos separa, empilhando objetos numa tentativa infrutífera de capturar seu sussurro. Porque ele vai continuar recostado, longe do microfone e vai continuar sussurrando. Enquanto saco um segundo gravador para tentar remediar o desastre potencial e ele, de novo, comenta o gesto, penso: grande começo. Philip Roth, cuja obra é a antítese do desperdício verbal, vai me nocautear com “small talk”.

“Sobre que livro nós estamos mesmo falando hoje?”, ele pergunta. “Indignação acaba de sair no Brasil”, respondo, resignada com o teatro que vai se seguir. A pergunta é para destacar o fato de que ele já terminou outros dois romances, The Humbling e Nemesis, com data de publicação nos EUA em 2009 e 2010.

Entrevistar Philip Roth é testemunhar o poder do controle. Ele é um interlocutor formidável não porque se engaja na conversa, mas porque ele vai, metodicamente, desarmando qualquer tentativa de ancorar sua ficção ou sua pessoa num contexto. Ele nega pertencer a uma tradição cultural judaica, enquanto admite que a maioria de seus personagens são judeus. Menciona o reconhecimento e as inúmeras honrarias que recebeu com distância quase sarcástica – o Nobel amplamente merecido continua elusivo. Mas, em seguida, quando comenta a importância da cidade na sua criação, coloca-se em companhia de William Faulkner e Saul Bellow.

A expressão que ouvi durante uma pescaria na década de 80 voltou à memória ao ler o breve, belíssimo e feroz Indignação. Enquanto não pescávamos nada, um escritor americano, amigo próximo de Willem De Kooning, me revelou os sinais de demência do grande pintor, então mantidos em segredo pela família do artista. “Mas o fato é que, a esta altura, ele continua pintando como um filho da mãe”, disse o escritor. Philip Roth, no domínio inconteste de suas faculdades, aos 76 anos, continua escrevendo como Willem De Kooning pintava. Com a voracidade e a urgência de quem joga xadrez com o tempo. “É difícil acreditar em depois”, diz ele. Ao contrário de grandes autores que não recuperam o vigor criativo depois de um momento de hesitação, Roth, a partir dos 60 anos, reemergiu como a voz narrativa dominante da vida americana. Seus alter egos enfrentam doença, impotência sexual e morte, enquanto o escritor olha o passado como fonte da próxima obra, a melancolia é problema do leitor. A aversão de Roth à perda de tempo é de tal ordem que, em 1998, ele respondeu ao ataque recebido nas memórias da ex-mulher, a grande atriz Claire Bloom, com o romance Casei Com Um Comunista, uma denúncia brilhante do macarthismo, repleta de bile contra a personagem mal disfarçada de Eve Frame. Pergunto se algum romance seu que lhe seja mais caro deveria ser reconsiderado, ele é sucinto. “Nem eu nem os livros podemos esperar.”

“Quando era jovem, eu não tinha consciência do contexto histórico à minha volta. Passaram-se décadas para que eu pudesse dizer, ah, foi isto que aconteceu então”, comenta Roth, quando pergunto sobre o peso da história na nova literatura. Além de não se interessar por jovens, Roth quer dar a impressão de que não lê novos escritores. Se é fato, não importa. Estou diante de um grande artista decidido a não deixar o homem atrapalhar a conversa. Só quando começo a empacotar o equipamento, Philip Roth reverte ao mundano e pergunta, curioso, qual o restaurante brasileiro que recomendaria na cidade de Newark, berço de Nathan Zuckerman e do personagem à minha frente.

Um olhar ficcional e crítico sobre os EUA

CONSAGRAÇÃO: Nascido em New Jersey, em 1933, Philip Milton Roth é o único escritor vivo a ter toda a sua produção publicada pela Library America. Além de receber por três vezes o PEN/Faulkner, ele conquistou a Gold Medal for Fiction, a mais alta distinção da American Academy of Arts and Letters. Considerado um dos mais importantes ficcionistas americanos da segunda metade do século 20 e tendo origem judaica, recebeu em 2007 o prêmio Pulitzer por Pastoral Americana, que forma com Casei Com Um Comunista e A Marca Humana uma trilogia sobre a problemática vida norte-americana. Ele é criador do personagem Nathan Zuckerman – tido como seu alter ego -, protagonista de vários de seus livros, como Complexo de Portnoy. As outras obras de Roth traduzidas – todas publicadas pela Companhia das Letras – são as seguintes: Adeus Columbus, O Animal Agonizante, O Avesso da Vida, Complô Contra a América, Entre Nós, Fantasma Sai de Cena, Homem Comum, Operação Shylock e Teatro de Sabbath.

”Não acredito no depois, só no agora”

Avesso a e-mail e feliz por morar na área rural de Connecticut, Philip Roth anuncia romance para novembro, The Humbling

Lucia Guimarães, NOVA YORK

A Guerra da Coreia determina o destino do personagem central de Indignação, Marcus Messner. Depois de 6 anos de envolvimento americano em duas guerras, como o senhor vê a juventude afetada hoje, sem a obrigatoriedade do serviço militar?

Não tenho a menor ideia, não tenho mais contato com jovens americanos. Realmente não conheço o efeito que a Guerra do Iraque teve. Não sei quantos jovens foram ferozmente contra a guerra, no período Bush, não sei qual a divisão de posições pró e contra, ou se são indiferentes. Se você me pergunta se o alistamento voluntário faz diferente a resposta é sim, claro. O motivo pelo qual não temos o alistamento obrigatório é que o governo anterior não queria mobilizar a oposição à guerra impondo o serviço militar e por isto temos um exército de voluntários.

O senhor comparou o desespero do período do Vietnã com o desespero dos anos Bush. O senhor acha que o país saiu deste desespero?

Bush já está sendo esquecido. O estrago que ele fez está aí, não será esquecido e a reparação vai ser difícil. Bush foi um fracasso colossal, um desastre moral. E político também. Então, vamos passar os 4 anos do mandato de Obama lidando com o desastre. Mas o humor do país, o senso de desespero já se foi. O desespero com a Guerra do Iraque foi diferente porque, ao contrário do Vietnã, não havia oposição organizada. E, em parte, foi por causa do alistamento obrigatório. As famílias de classe média foram se politizando à medida que os filhos foram sendo convocados. Aqui, a Guerra do Iraque quase não afeta ninguém, a não ser as famílias de pessoas que escolheram servir

Este ano, nos discursos de formatura das universidades americanas, havia um tom geral de desculpas de uma geração para outra. Marcus Messner é uma vítima da geração que o precede, não?

Não sei se concordo. E devo dizer que não aprecio o que dizem em discursos de formatura. Eu não sei quem é responsável pelo que o livro retrata. Os norte-coreanos fizeram o estrago, sabe. Eu não vejo Messener vitimizado pela guerra. Há uma guerra e toda segunda geração enfrenta uma guerra. E, se você tem a falta de sorte de ter nascido 20 anos antes daquela guerra, vai servir, e se tiver menos sorte ainda vai ser mutilado e morto. Eu perdi a Guerra da Coreia porque era muito jovem. Eu fui alistado em 1954, mas a guerra havia terminado um ano antes. Eu tive muita sorte e Marcus não. As circunstâncias que o levam para o exército são, em parte, responsabilidade dele, em parte do pai e noutra parte do diretor da escola. Então, não podemos estabelecer a culpa, como não podemos, na maioria das vezes, estabelecer a culpa na vida real. Frequentemente há esta mistura de responsabilidades.

O romance trata também das enormes consequências de pequenas decisões que tomamos?

… de dizer fuck you. O livro é uma advertência: não diga “fuck you” para uma autoridade ou você pode ficar em apuros. Eu estava interessado na maneira como um destino desafortunado pode ser determinado da forma mais insípida. Não só para o personagem mas também para todos nós.

O jornalista Roger Cohen comentou recentemente que a experiência judaica na sua obra evoluiu de uma representação mais cômica para outra mais séria que trata da natureza marginal da existência judaica.

Não penso em mim como um escritor judeu. Então não acho que a experiência judaica é tema para mim.

O senhor não considera a herança cultural judaica como sua?

Penso em mim apenas como americano. O que não quer dizer que não tenha nascido num meio social judeu, dentro do contexto americano. Eu não pertenço a este meio há muito tempo. Mas estou sintonizado nele. E fui influenciado pela literatura de autores judeus que adoro, Saul Bellow especialmente. Mas eu não acho que eu escrevo sobre a experiência judaica. Escrevo sobre americanos, a maioria judeus, mas eles não vivem uma experiência judaica na América, eles vivem a experiência americana.

O senhor comentou, em 2006, que havia um exagero enorme sobre a religiosidade do americano. Disse que o país era muito mais secular e que a direita estava manipulando esta suposta religiosidade. Como o senhor vê um novo presidente que fala em público sobre o seu Deus?

Esta é a pessoa que ele é. Mas não consigo imaginar uma sociedade mais profana e secular do que esta em que vivo. Há pessoas religiosas. Mas elas têm muito pouca influência sobre os mecanismos em geral. Especialmente sobre a cultura popular. A cultura popular é praticamente pagã. Os religiosos têm peso político, menos agora do que antes. Porque eram a base de George Bush. Mas a comunidade religiosa não é a base de Obama e acho que ele é genuinamente cristão mas isto não tem grande importância nas suas políticas.

O senhor divide seu tempo entre Manhattan e o campo, em Connecticut. Houve um momento em que o contato com a cidade deixou de ser importante para escrever?

A cidade ficou menos importante na minha vida. Eu me mudei para a área rural de Connecticut em 1971 e foi passando cada vez mais tempo lá. E também morei em Londres durante 12 anos, até 1989, mas passava todos os verões em Connecticut. Eu tenho meu pouso em Nova York mas a vida e os ritmos de Connecticut estão dentro de mim. É uma vida que facilita o trabalho. Eu posso trabalhar quase o tempo todo se quiser. As trivialidades e as distrações são reduzidas ao mínimo. E o resultado disso foi uma grande produção. Mas o Saul Bellow não morava em Nova York, nem William Faulkner, nem John Updike. Nos Estados Unidos, os escritores não convergem para uma cidade. Não sei se é assim no Brasil. Mas aqui, os escritores vivem em diferentes cidades ou vilarejos. Nós tivemos uma escola nova-iorquina de pintura, houve uma escola nova-iorquina de intelectuais, a certa altura, mas nunca foi o caso para a literatura.

O que os prêmios e tributos significam para o senhor?

Se você tem sorte, ganha um a cada 5 anos, e leva uma hora para receber… (Roth ameaça sorrir).

Têm certeza que é só isto?

É sempre agradável ser reconhecido. Mas nunca escrevo sobre a expectativa de reconhecimento.

Houve, a partir do final dos anos 90, admiração renovada pela sua obra.

O trabalho é o mesmo, dia após dia, ano após ano. O seu foco é totalmente sobre o que está fazendo no momento. Não há possibilidade de pensar nesta outra coisa que, além de não ser interessante, está fora do seu controle. E o trabalho exige muito de mim. Seria como se fosse um dentista, pensando no seu prêmio por jogar boliche, enquanto está fazendo obturação no seu dente.

O senhor não comentou que sua disposição para viver em público ficava entre a reclusão de Salinger e a autopromoção de Norman Mailer?

Mas eu escrevi isto em 1960. Não posso ser responsabilizado pelo que disse há 50 anos. O que eu queria dizer é que a maioria dos escritores vivem entre os extremos do Salinger e do Mailer. Não estava falando de mim. Dizia que se vive a vida pessoal na privacidade. E há as demandas editoriais. Você tem que apresentar o livro que escreveu. Há gente que faz isto com prazer. Para mim, é trabalho.

Estamos atravessando um momento de muita autorreferência no jornalismo e no mercado editorial. A crise dos jornais e da indústria do livro impresso estimula muitos a escrever sobre a própria profissão. E a primeira geração de americanos que se criou lendo online chega à idade adulta. O senhor acompanha tudo isso?

Eu não estou consciente disso. Deve ser por causa da minha idade. Não estou em contato com as mudanças tecnológicas. Eu me sirvo das que me são úteis e ignoro o resto.

O senhor escreve e-mail?

Nunca. Compro livros online e aí recebo uma mensagem sobre a compra. Mas, fora isto, nada.

O senhor volta à cidade de Newark, onde nasceu?

Eu saí de lá com 7 anos. Mas volto. No mês passado ganhei um prêmio da comissão de preservação de monumentos. Virei um monumento.

Quais são os próximos romances que o senhor já tem prontos?

O primeiro sai aqui em novembro, é um romance curto, The Humbling, sabe, como ser “humbled” (tornado humilde) por algo? É sobre um ator de teatro, admirado, com mais de 60 anos. Um dia, descobre que não consegue atuar mais. O outro sai em setembro de 2010 e se chama Nemesis (Nêmese), é sobre uma epidemia de pólio em 1944.

Então continua muito produtivo.

Não sei fazer outra coisa. Já me sinto grato se conseguir pensar num novo tema, cada vez que termino o livro anterior. É ótimo. O problema é passar 5, 6 meses entre livros, lutando para achar o assunto. E isto não tem me acontecido ultimamente.

O senhor já escolheu o tema de um livro e levou anos para começá-lo?

Não. Acho o assunto e me ponho a trabalhar nele. É muito raro ter uma ideia e dizer: vou escrever sobre isto depois. Para começar, é difícil acreditar em depois. Eu só acredito em agora. Você não se poupa. Dedica tudo o que tem ao tema e vai para o próximo projeto. Eu faço toda a pesquisa, leio bastante sobre o assunto antes de escrever.

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