11.07.2009 - 14:34
Vamos afundar Veneza – Os mal-entendidos a respeito da poesia moderna e do significado de liberdade artística
Vamos afundar Veneza
A frase é bem conhecida de muitos: “a poesia está morrendo”. Igualmente conhecido é o suposto responsável pelo crime, nomeado freqüentemente logo em seguida: o mercado, esse monstro abominável. (Enquanto isso, Sancho Pança grita ao longe: “mas são só moinhos!”). Pondo-se de lado o melodrama, talvez estejamos diante, na verdade, de um processo histórico bem mais complexo, cheio de sutilezas, e cuja avaliação global pedirá alguns matizes mais entre a “doença terminal” e a “saúde plena”. Dentre os tantos e variados sintomas desse quadro aí suposto, apenas um será de nosso interesse discutir agora: tem relação direta com a circulação da poesia, mas não em meio ao grande público, e, sim, entre os próprios poetas.
O caso é que a história da arte, de repente, ficou mais simples: simples a ponto de nos bastar, para aprendê-la inteira, que rabisquemos ao acaso, ensinados por ninguém, o nosso primeiro e atualíssimo verso “moderno”. É assim que nos formamos poetas, e, por não sei que formas de auto-sugestão, é assim que nos convencemos de que a leitura dos nossos textos por outrem lhes possa proporcionar alguma espécie de prazer, ou proporcionar a ilusão, tão esperada por todos, de que talvez tenham em mãos, por alguns momentos, as chaves para uma melhor compreensão de si mesmos ou do mundo em volta. Salvo engano maior, esse estado de coisas pode ter raiz num único mal-entendido.
Charles Baudelaire, freqüentemente dedurado como principal responsável pela gênese da modernidade em poesia, teria mostrado com sua arte que, sim, é possível produzir beleza a partir de materiais vivos, extraídos diretamente da vida em volta, em lugar de recorrer a motivos pré-moldados e empoeirados, carimbados por aquela academia ou por aquela escola. O vigor das formas artísticas de um modo geral, ante os nossos olhos, dependeria justamente de como elas absorveriam em si o ambiente ético em que vivemos: as cruzes de nossa época, suas transformações, os milhões de desejos frustrados, as buscas ainda em curso e as pequenas glórias e misérias diárias, ora bem conhecidas daquele que escreve e dos seus circunstantes, ora por eles apenas sofridas, de modo inadvertido. A “eternidade” da arte, nas palavras de Baudelaire, precisaria se alimentar das “contingências” do nosso tempo para sobreviver entre nós. Sem isso, a poesia talvez tivesse continuado a falar em vasos gregos, enquanto a Europa sufocava de angústia. Com Baudelaire, as palavras mais espúrias, então alijadas do vocabulário “poético”, começaram finalmente a cantar, e a cantar tão bem quanto as suas irmãs aristocráticas, ou até melhor que elas. Dessa maneira, todo um complexo de tensões, típico da época, pôde ganhar voz — uma voz estranhamente bela aos ouvidos.
O que nos interessa nisso tudo: Baudelaire, sim, voltou-se para os pedintes que perambulavam pela Paris da época, e leu, por exemplo, Swedenborg, o místico, enriquecendo sua visão de mundo para muito além das limitações cientificistas do século, mas nem por isso deixou de ler — não deixou mesmo — Théophile Gautier, “um mero parnasiano”. Esse detalhe — a componente Gautier — alguns querem paradoxalmente dispensar, e acham que podem virar Augusto dos Anjos, ou Antero de Quental, apenas lendo Haeckel, o naturalista. Outros, tão ou mais revolucionários, vão percorrer os presídios brasileiros atrás de versos a la François Villon, vão invadir manicômios atrás dos gênios etéreos de Hölderlin, vão revirar as sobras dos açougues atrás da cadência de “Une charogne” (poema de Baudelaire sobre uma carniça), vão fustigar o entregador da farmácia para ver se conseguem algo como a “Morte do leiteiro”, de Drummond. Poesia mesmo, que é bom, mal lemos (ou lemos mal).
T. S. Eliot, Drummond, Bandeira e muitos outros: por mais que os poemas de todos eles sejam bastante diferentes entre si, terão seguido uma fórmula geral semelhante: estudaram o cantar de outrora enquanto escutavam — auscultavam — o falar de agora, assim como Baudelaire. Desse cruzamento fizeram surgir, cada qual a seu modo, uma terceira modalidade de música que, antes da publicação de suas obras, não existia. Dito de outra forma, Drummond, por exemplo, seria a ponte entre duas realidades em princípio incomunicáveis: de um lado, as duas guerras mundiais; do outro, o prazer dos cinco sentidos que, desde o século XVI, tem-se experimentado ao se ler Camões.
Em 1917, quando da publicação do primeiro livro de Eliot, Prufrock and other observations, um bom número de resenhas surgiu em ataque, como se o volume não passasse de mais uma gratuidade “moderna” sem critério. A lição de música compreendida, por exemplo, pelos seus cinco primeiros poemas passou batida por muitos que, no calor da hora, estavam ali presentes. Drummond, ainda hoje (ou sobretudo hoje), de modo semelhante, tem sua mestria “formal” — palavrão na boca de alguns — freqüentemente ofuscada pela intimidade indisfarçável de seus poemas com a vida comum, com a vida “sem mistificações” do cotidiano. Ambos os casos parecem sugerir: temos sido incapazes de admitir a convivência desses dois aspectos — atualidade e mestria — num mesmo objeto artístico. Se essa é a verdade, damos um tiro em nosso próprio pé, jogando no lixo por engano alguns milhares de páginas escritas de Baudelaire para cá. Ou não será por engano? Das duas, uma: ou somos vítimas de um grande mal-entendido a respeito da poesia moderna e sua tão propagada liberdade, que é de outra ordem, ou a palavra de ordem de hoje é de novo afundar Veneza, como quis Marinetti.
Artur A. de Ataíde é mestre em teoria literária, crítico e poeta. O artigo foi publicado originalmente na Revista Continente, edição 92, e gentilmente enviado pelo autor para o Café Colombo. Ele também é um dos editores da Revista Crispim.