Café Colombo

Artigos

13.08.2009 - 19:49

Sobre Alberto da Cunha Melo

Poema de Páscoa
por Artur A. de Ataíde

Esta postagem é apenas um primeiro movimento, e provavelmente o mais tímido, no sentido de dar vazão a um desejo que já trago há algum tempo. Primeiro, uma ressalva: quanto maior a poesia que queiramos comentar — falo em qualidade, e não necessariamente em quantidade, claro —, mais caricatural, redutor e insuficiente termina por nos parecer o comentário, sobretudo se precisamos ser rápidos, como aqui. Fica a promessa de, mais adiante, voltarmos ao assunto.

O assunto, nada simples, é a poesia de Alberto da Cunha Melo. Acredito que ela seja, em muitos aspectos, uma daquelas que, quanto mais circulam, mais contribuem para uma imagem pública menos risível e nula dessa gente que ainda acredita em Homero, Dante, Shakespeare, Jorge de Lima, Camões, Drummond, Pessoa e outros duendes; essa gente, numa palavra, que insiste em levar adiante sem muito porquê essa coisa de ‘poesia’.

O propósito inicial era apenas transcrever, inspirado pelo feriado cristão, um dos poemas de Meditação sob os Lajedos, intitulado “Cordeiro de Deus” (ver abaixo). Acabou que não quis deixar de, antes, escrever ao menos duas palavrinhas mais gerais sobre a obra do poeta. Queria tocar em dois aspectos: o primeiro seria mais “formal”; o segundo, diriam alguns, seria mais “conteudístico”. Vamos por partes.

Dois tipos de verso me vêm agora à mente. Um, encontramos em praticamente qualquer página das Espumas Flutuantes, por exemplo, de Castro Alves: é aquele em que consoantes, vogais e acentos se harmonizam de tal maneira que cada um dos versos, se pronunciado individualmente — como é razoável que se pronuncie um verso —, flui como que num único sopro. Às vezes brinco, e digo que verso é o contrário de trava-língua: aqui o dito vale. Exemplos insuperáveis também podem ser encontrados em muitas páginas de Jorge de Lima, Bandeira, Drummond. O outro tipo de verso é contrário a esse. Nele, os acentos parecem em briga, e pisam forte, como numa marcha. Em lugar de se integrarem numa única grande palavra, os vocábulos parecem pedras irredutíveis, de individualidade mineral. Leia-se em voz alta quase que qualquer página de Cabral e se terá um exemplo dessa segunda espécie. Mesmo as rimas parecem soar marcadamente, como veredictos: são como a porta de saída de cada verso, batida com força. No primeiro caso, “verso” é uma questão de cadência, ritmo; no outro, “verso” é antes uma questão numérica, um expediente disciplinar, e leva a uma espécie peculiar de “anti-música”. O verso de Cabral, assim, é pedregoso, bem adequado, aliás, ao seu tom sempre peremptório, direto e franco ao limite, beirando a descortesia. É a dicção seca e cortante que Cabral inventou, seu inconfundível falar “bronco”.

Ao reler esses dias Meditação sob os Lajedos, pude confirmar uma impressão antiga: a de que Alberto, cujos octossílabos tantas vezes parecem coalhar-se de tônicas, guarda algo do verso pedregoso de Cabral, embora se permita “cantar” com muito maior freqüência. Há, igualmente, certa nota peremptória em seu tom de voz. Não há firulas: o poeta, simplesmente, vai ao ponto. O ponto pode ser a morte, pode ser a dor mais incontornável, mas não importa: vai direto a ele. Alberto, sem rodeios, simplesmente “diz”.

Essa dicção particular, essa modulação de voz, modulação a um só tempo lingüística (pelo “tom”) e artística (pela estrutura pedregosa do verso), seria o nosso primeiro aspecto, o “formal”. O segundo serviria de solo fértil a este, além de alimentar, matizando-os, também o vocabulário e as metáforas mais típicas de Alberto.

O caso seria o de todas essas camadas superpostas serem animadas por uma disposição afetiva bastante peculiar: essa poesia parece nutrir-se de um substrato inconsolavelmente amargo, muito embora não seja, absolutamente, uma poesia de lamento. É exatamente essa disposição afetiva, aparentemente contraditória, que compreende o nosso segundo aspecto.

Testemunhamos à nossa volta, atualmente, seja em noticiários ou em nossa própria vizinhança, o manifestar-se com passe livre de tudo o que o humano leva em si de mais truculento. O prazer e o desespero, travestidos aqui e ali em atos os mais brutais, parecem não mais conhecer suas formas amenas e dialogáveis: assaltam indivíduos com a tragicidade inescapável de um holocausto. São como absolutos, exatamente como é absoluta a morte do animal que tem separada do corpo a cabeça: somos nós, expurgada de nosso porão instintual a faculdade de refletir. Diante de tal panorama, a nossa batalha por nos tornarmos cada vez mais humanos parece perdida. A voz de Alberto, no entanto, que se ocupa, sem desviar o olhar, desse nosso desastre em seus mais variados aspectos, parece irredutivelmente ativa, avessa a qualquer passividade lamuriosa. Assume os males, acolhe-os, sem se dobrar diante deles. Se há mesmo uma batalha, há soldados que, ao que parece, quanto mais feridos, mais levantam voz, e que, sem derramar uma lágrima, sem entoar qualquer elegia, nos emocionam pela beleza algo crua com que combatem. Esse ânimo resistente, que acolhe e briga com as circunstâncias à sua volta, me parece uma boa lição sobre o que pode ser maioridade em questões de poesia.

Segue o nosso poema para a Páscoa.
Até o próximo.

Cordeiro de Deus

Poucos o escutam, quando o Mal
abre suas asas, lá fora;
e muito poucos acreditam
que vai entrar a qualquer hora,

transpor, gangrena do monturo,
o metro e meio deste muro,

tão diferente das muralhas
com seus anjos de prontidão;
e entrar, no faro dessas palhas,

à luz da estrela delatora,
como um lobo na Manjedoura.

(Alberto da Cunha Melo. Dois caminhos e uma oração. São Paulo, Recife: A Girafa, IMC. 2003. p. 139)

post-scriptum: Um pouco de atenção sobre esse poema já nos dá um exemplo do que dissemos acima. A “boa nova”, aqui, é figurada como uma “gangrena”, que vai consumir o “Mal”, ou o “monturo”; o menino, o Cordeiro de Deus, ao fim, numa inversão que logo se instala em nossa memória, é figurado como “lobo” na Manjedoura. A escolha dessas duas metáforas — a “gangrena” e o “lobo” —, a opção por essa espécie algo agressiva de beleza nos indica: o cristão que fala no poema não parece tão disposto a simplesmente “dar a outra face”. O “Bem”, aqui, tem a ferocidade de uma doença, ora de um animal selvagem. Mesmo o amor cristão, na poesia de Alberto, terá sido inoculado com algum miligrama de fúria, de indignação, de insurreição resistente. Aí as pistas do combate de que falamos.

Artur A. de Ataíde é mestre em teoria literária, crítico e poeta. O artigo foi publicado originalmente na Revista Crispim, e gentilmente enviado pelo autor para o Café Colombo.

3 Comentários

  1. HOmero Fonseca Comentou em 22.12.2009 às 18:05

    Ô Artur,

    beleza de comentário.

    Apenas uma interpretação diferente da sua, no final:

    a mim não parece que ACM esteja “invertendo” o menino na manjedoura em lobo.
    Salvo engano, a imagem é do Mal, que abre as asas lá fora sem ninguém ligar, se aproximar, pular o muro de metro e meio (do presépio, das nossas casas) e, entrar, na manjedoura, COMO UM LOBO, para devorar o Menino.
    Estarei dizendo algum despautério?
    Forte abraço
    Homero Fonseca

    PS.: Aliás, sem nenhum demérito para o grande ACM, o poema lembra o famoso “No caminho com Maiakovski”, de Eduardo Alves da Costa (que, por causa do título, muita gente atribui equivocadamente ao próprio poeta russo), que começa assim: ““Na primeira noite eles se aproximam / roubam uma flor / do nosso jardim./ E não dizemos nada.” Que achas?

    HF

  2. Artur A. de Ataíde Comentou em 23.12.2009 às 10:48

    Olá, Homero,

    Desconfio de que a minha leitura esteja muito mais próxima do despautério do que a sua: você tem, sim, toda a razão. Manter a minha leitura, aliás, exigiria uma série de malabarismos (por exemplo, que o primeiro pronome oblíquo se referisse ao menino, e não ao Mal, numa antecipação algo artificial, abstrusa), e poria em risco o sentido, na verdade muito claro, das estrofes intermediárias. Agradeço muito a você a iniciativa de haver postado o comentário: não só por mim mesmo, mas sobretudo pelos leitores, diante do desserviço que a circulação de uma leitura inexata pode prestar — por mais que essa leitura inexata continue uma tentação, pela formulação ainda mais radical que constituiria de traços comuns da poética de Alberto (muitos são os pecados, vê-se, à espreita do intérprete). Obrigado.

    No mais, ainda estou devendo, desde a publicação da postagem acima, outros comentários sobre a poesia, sempre forte, de Alberto. É uma dívida que espero saldar logo: espero poder contar novamente com a sua leitura atenta. E continuemos sempre a conversa.

    Aproveito para enviar aqui a você e aos que acompanham o Café Colombo o meu abraço de Natal. E que a sorte (sim, a sorte) nos matenha ainda a salvos da alcatéia que corre solta.

    Grande abraço.

  3. HOmero Fonseca Comentou em 25.12.2009 às 12:17

    Camarada Artur

    Num terreno em que os egos inflamados costumam ser avessos a qualquer reparo, você, numa prova de largueza de espírito, assimila com humildade e elegância um reparo pontual a seu excelente comentário.
    Esses pequenos (nem tanto) exemplos me fazem não sucumbir ao pessimismo geral.
    Forte abraço pra você e bom 2010, extensivo à toda a turma do Café Colombo.

Deixe um comentário


Anuncie no Café Colombo

Café Colombo - Seu programa de livros e idéias
Conteúdo publicado sob Licença Creative Commons

Wenetus