16.08.2009 - 22:06
“Gilberto Freyre – uma biografia cultural” – 1
“Gilberto Freyre – uma biografia cultural” – 1
por Renato Lima

Li recentemente “Gilberto Freyre – uma biografia cultural” de Enrique Rodríguez Larreta e Guillermo Giucci (Editora Civilização Brasileira). Este livro examina a vida de Gilberto Freyre entre 1900 a 1936, através de aspectos biográficos e da genealogia intelectual de suas principais idéias. Uma tarefa mais do que necessária, pois, reconhecem os autores, apesar de se falar muito das obras de Freyre há poucos estudos biográficos, especialmente quando se trata de um autor com obra tão intricada com suas experiências e observações.
Para quem é do Recife, os detalhes da infância de Freyre estão extremamente próximos. Nasceu em 15 de março de 1900 num sobrado na estrada dos Aflitos, hoje a Avenida Rosa e Silva. Era um Brasil de apenas 17 milhões de habitantes e um Pernambuco que perdia o prestígio que teve durante o Império. Filho de Alfredo e Francisca Freyre, quase que tinha um nome bem diferente: Telêmaco. “O classicismo a um só tempo severo e provinciano de Alfredo Freyre reservara um nome de panteão grego para o filho. Depois de Ulysses, ao filho caçula estava destinado o nome de Telêmaco. Mas as leituras românticas francesas da mãe aproximaram-na do repertório de nomes contemporâneos. ´Gilberto` veio da literatura popular, ´Gilbert`, que talvez pudesse ter sido ´Gerard` ou ´Gilles`.”
“Boa parte da infância e da adolescência de Gilberto Freyre foi passada nas salas do Colégio Americano Batista. [...] O ideário norte-americano, tão importante quanto o ensino religioso, transformou-o rapidamente num dos colégios da elite recifense, apto a competir com o tradicional Colégio dos Salesianos. [...] Em 1913, organizou uma campanha de arrecadação de fundos e comprou uma propriedade no Recife onde foi possível reunir o seminário e o colégio. [...] O Colégio Americano estendeu-se rapidamente pelas terras do Amorim, depois comprou terrenos vizinhos dos barões da Soledade e, posteriormente, outros na rua Visconde de Goiana e no beco do Padre Inglês.”
A educação era muito rígida. A aula de matemática tinha perguntas que, se erradas, era alvo de ter as pernas espetadas com um pau, com ponta na agulha, pela miss Voorheas. O pai de Gilberto era diretor do colégio e isso fazia com que ele e o irmão não tivessem que pagar para estudar. Quem passa ainda hoje pelo Americano vê um dos prédios ter o nome de Alfredo Freyre. Ainda que num cargo de comando, seus filhos tinham que trabalhar para fazer valer o privilégio. Gilberto foi instrutor de latim de alunos menos avançados, apesar de não ser uma especialidade sua. “Estudou latim com Mr. William Carey Taylor, considerado um bom latinista, e teve aulas particulares com seu pai, um professor orgulhoso e exigente, especialmente com os filhos. Os erros de pronúncia em textos de Virgílio e de Júlio César eram castigados com severos golpes de régua nas mãos. A letra entrava com sangue, como a aritmética.”
Sempre foi um leitor voraz. Por muitas vezes passou dificuldades econômicas (no período compreendido pela biografia…) mas nunca deixou de gastar com livros. “Aos 16 anos, Gilberto Freyre orgulhava-se de ter lido quase toda a obra de Eça de Queirós. Quando, em 1916, Mário Severo emprestou-lhe um dos poucos livros de Eça que ainda não conhecia, Prosas bárbaras – reunião de ensaios e artigos sobre temas ideológicos e estéticos -, Gilberto o leu imediatamente. Mas era Os Maias que o entusiasmava. [...] Lendo a obra de Eça de Queirós, Freyre imbuiu-se precocemente do tema da família e do ambiente doméstico. São comuns em Eça as descrições das casas, que servem de fundamento para a reconstrução da saga familiar. São espaços afetivos, repletos de significado histórico e moral. [...] O realismo de Os Maias, com sua objetividade, o gosto pelo pormenor, a carga irônica, a crítica à burguesia e a aposta num novo Portugal tinha todos os elementos para encantar o Freyre adolescente. [...] Ramalhete, a residência da família Maia, estimularia sua imaginação sobre a história doméstica da família brasileira.”
No Americano Batista se tornou protestante fervoroso. Conseguiu continuar os estudos na Universidade de Baylor, no Texas, que tinha convênio com o colégio e para os Estados Unidos partiu com 18 anos. Lá perdeu o encanto protestante e, anos depois, reconverteu-se ao catolicismo.
Em próximos textos eu escrevo mais sobre “Gilberto Freyre – uma biografia cultural” de Enrique Rodríguez Larreta e Guillermo Giucci.
Gostei muito…
Poderia enviar para divulgar no site da FUNDAJ?
[...] Esse post é a continuação de uma série sobre o livro “Gilberto Freyre – uma biografia cultural” de autoria dos uruguaios Enrique Larreta e Guillermo Giucci. Clique aqui para ler o primeiro post. [...]
esse texto é muito bom