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30.08.2009 - 19:27

“Gilberto Freyre – uma biografia cultural” – 2 – Estados Unidos

Esse post é a continuação de uma série sobre o livro “Gilberto Freyre – uma biografia cultural” de autoria dos uruguaios Enrique Larreta e Guillermo Giucci. Clique aqui para ler o primeiro post.

Por ter estudado no Colégio Americano Batista, Gilberto Freyre fez uma ponte para continuar os estudos na protestante Universidade de Baylor, Texas. Chegou lá com 18 anos e, para ajudar com os gastos correntes, conseguiu uma vaga como professor de francês. “Seu projeto inicial era romântico, idealista e radical: retornar a seu país como missionário junto aos índios”. Era impressionado pelo protestantismo, o que depois se arrefeceu até voltar ao catolicismo.

Lá nos Estados Unidos ele inicia uma colaboração com o Diário de Pernambuco, mandando crônicas intituladas “Da outra América”. Seu contato mais forte na nova universidade foi com o professor A.J. Armstrong, que lhe ajudaria em muitas coisas práticas e cartas de recomendação. Armstrong era um grande agitador cultural numa universidade provinciana e muito religiosa (chegaram a perseguir um professor que ensinava o darwinismo). Graças a Armonstrong, intelectuais renomados passaram por Baylor para palestrarem.

Desde cedo, em sua correspondência, Gilberto mostra certo conservadorismo de costumes. Acha as mulheres americanas independentes demais, o que o faz jurar que não se casaria com uma delas, por exemplo. Na religião, ao ver um culto com pregadores histéricos, ajuda na sua decepção com o protestantismo. Vai depurando a sua imagem da outra América, bem como colhendo mais material para reflexão: “A experiência americana contribuiu decisivamente para redefinir a imagem idealizada que ele tinha dos Estados Unidos. As relações raciais, a questão da mulher e o fervor religioso são, particularmente, pontos conflitantes. [...] Mas, em meio à energia da moderna cultura americana, de seu espírito pioneiro e de sua diversidade, encontra o ódio entre as raças. Fica intensamente chocado com a pobreza do bairro negro de Waco, com a separação de ambas as raças nos espaços públicos e com o desprezo que o branco demonstra pelo negro.” Neste bairro ele passeou com o seu mestre Armstrong, responsável por trazer à universidades nomes como William Butler Yeats, Vachel Lindsay e Amy Lowell, uma extravagante poetista obesa, amiga de ricaços, que Gilberto conseguiu impressioná-la e manter contato até a sua morte.

Em 1920, termina o curso em Baylor e é o único estrangeiro entre os bacharéis em arte graduados no ano. De lá consegue partir para um mestrado na prestigiosa Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Nesta grande cidade americana tem uma visão conflitante, pois admira muitos aspectos, mas critica a modernidade e seus arranha-céus. “Um dos textos mais curiosos nesse gênero de notas de críticas aos excessos do mundo moderno é o artigo sobre o uso do telefone, na opinião de Freyre verdadeira doença do século, que estimula a decadência dos costumes e outros vícios secundários, como a falta de cortesia e o costume de falar mal dos outros. [...] Esse artigo, que beira o ridículo, de tão extremado, mostra alguns dos reparos de Freyre à nova civilização mecânica com a qual estava em contato na grande cidade.”

Os seus dias em Columbia foram decisivos para a obra posterior. Aprofundou amizade com o intelectual e diplomata pernambucano Oliveira Lima, que lhe franqueou o acesso a vários livros. Teve contato com professores que seriam decisivos na sua formação intelectual, notadamente Franz Boas. Curtiu uma vida boêmia no Greenwich Village. “Não frequentou bordéis em Nova York, mas participou, no Village, de animadas festas, desprovidas do comercialismo dos bordéis.”

Passa também a escrever para o Diário numa colaboração paga, com ênfase num jornalismo cultural, registrando conferências, peças de teatro e óperas. “O período de formação de Gilberto Freyre em Nova York pode ser representado por um triângulo composto pela Universidade de Columbia, pelo Diário de Pernambuco e por Oliveira Lima. A civilização moderna, a região e o Brasil, respectivamente. Oliveira Lima é figura onipresente desde o início da temporada de Freyre em Nova York. Os dois mantêm farta correspondência; Freyre dedica a ele vários artigos e faz uma leitura absorvente de sua História da civilização, da qual surgirá um dos ensaios mais importantes de sua fase estudantil. Suas constantes referências às relações internacionais, ao pan-americanismo e à história do Brasil devem muito à conexão com Oliveira Lima, mestre e, em certa medida, imagem familiar.”

O diplomata foi importante orientador externo dos estudos de Gilberto em Columbia. Freyre também se impressionou com a obra do polemista Henry Mencken e muito dos livros preferidos do jornalista americano sertão também os do jovem pernambucano.

Em Columbia, Gilberto freqüentou os cursos de história, sociologia, direito público, antropologia, literatura e belas-artes. Cursou antropologia com Franz Boas, já em 1921 um dos grandes nomes daquela universidade. Boas foi extremamente influente para a antropologia norte-americana.

“No ano em que Freyre o conheceu, 1921, Franz Boas era mais do que um influente professor. Era uma personalidade cercada por uma auréola lendária. Sua estranha aparência física, sua história envolta em mistério, seus tempos de estudante na Alemanha, explorador entre esquimós e índios, os trabalhos no México durante a Revolução, suas polêmicas sobre a participação dos Estados Unidos na guerra e seu discurso anti-racista tinham tudo para atrair a atenção de Gilberto Freyre. Suas constantes referências a Boas refletem essa admiração. Freyre sempre o colocou como seu mestre por excelência.”

“No entanto, o estilo intelectual de Freyre difere nitidamente do de Boas. Nesse há poucas concessões ao impressionismo e à subjetividade – seu lema predileto era icy enthusiasm -, busca da objetividade científica até a extrema aridez do detalhe, ausência de toda cor pessoal e de estilo literário na forma de seus escritos. [...] Em Boas, o horizonte nunca abandonado da construção de uma ciência da cultura passa pela crítica das imprecisões factuais dos discursos antropológicos contemporâneos, seus questionamento, a demonstração rigorosa de suas imprecisões e contradições. Critica, particularmente, o evolucionismo social de extração spenceriana e dawiniana e as pretensões de desenvolver-se, com contribuições da biologia, uma teoria da superioridade racial. [...] Era pouco didático, mas se o estudante trabalhasse por conta própria mostrava disposição para orientá-lo intelectualmente. Sua preocupação central era transmitir os aspectos teóricos e metodológicos da disciplina.”

Apesar dessa admiração, Freyre não fez parte do círculo íntimo de alunos de Boas. Esteve mais em contato com outros estudantes da América Latina. Freyre passou um ano e meio em Columbia e conclui o curso com a dissertação de mestrado “Social Life in Brazil in the Middle of Nineteenth Century”, publicada no mesmo ano na The Hispanic American Historical Review. O trabalho tem 33 páginas, é conciso, mas aborda, como ele detalhará mais à frente, aspectos da história da vida privada do Brasil, como as rotinas diárias dos escravos e senhores de engenho. Apoia-se muito em relatos de viajantes ao país. “A descrição das condições socioeconômicas, das economias regionais e do sistema de transporte é a moldura preparatória do centro do ensaio; o regime escravocrata, examinado não apenas como organismo econômico, mas também como complexo social e cultural. O caráter patriarcal do sistema é destacado na análise e nos exemplos escolhidos. O engenho patriarcal, de acordo com a caracterização de Gilberto Freyre, era uma comunidade econômica e socialmente autárquica. Tinha canaviais ou cafezais, plantações de mandioca e outros produtos utilizados no consumo interno. A população residente no engenho incluía, além do proprietário e sua família, administradores, vaqueiros, capelão e preceptor, carpinteiros, outros técnicos e, naturalmente, uma multidão de escravos.” Nesse trabalho, ainda de juventude, relativiza a crueldade aos escravos, argumentando que o capitalismo europeu era pior com os seus trabalhadores. No entender dos autores desta biografia, “O escravismo serve-lhe como um modelo ideal para relativizar o capitalismo e questionar o presente, no estilo dos selvagens usados por Rousseau e dos gregos utilizados por Nietzsche.” Em trabalhos posteriores, Freyre abandona essa caracterização mais “doce” da vida do escravo, mas não um certo espírito anti-liberal que cultivou durante anos.

De Columbia, ele parte para a Europa, numa viagem tanto cultural quanto para passar um tempo na Universidade de Oxford. Em outro post, resumo esse período descrito no livro “Gilberto Freyre – uma biografia cultural” de autoria dos uruguaios Enrique Larreta e Guillermo Giucci.

(Renato Lima)

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