10.11.2009 - 11:22
Augusto Fiorin e o Jasmim
Apanhou maçã na bolsa e mordeu. Passeava nua pelo quarto. A própria Eva. Distraída feria os pés descalços nos escombros daquele relacionamento.
(Se ele a amava?)
(Sim, como nunca amou outra mulher na vida)
Falou que os encontros estavam lhe fazendo mal. E ele, de passagem, como se não se importasse, procurando a cueca entre os lençóis desarrumados, que acabavam ali se era o que ela queria.
Porque ele não apareceu há doze anos? Queria tão pouco da vida. Estar com o cara que amava. Ter filhos, casa, carro, cachorro. Uma família de verdade.
Ele disse está fora de questão, você sabe.
E ela: “Não agüento mais, ando pisando em ovos”.
Terminamos então?
…
Seja feita a sua vontade.
Você não tem mesmo um pingo de sentimento.
(Lágrimas penduradas nos cílios inferiores)
Pretendiam viver juntos, mas as coisas se complicaram como sempre se complicam nesses casos. Além do filho envolvido com drogas, recém diagnosticado o câncer na esposa. Nada que uma ida a Barretos não resolvesse. Àquela altura não imaginavam que a doença pudesse estar tão evoluída.
Ela levou a mão ao lóbulo da orelha e sentiu falta do brinco.
Presente do marido.
Não podia chegar sem eles.
Quando ele disse – seco – tomara que não tenha caído no carro, ela levantou os olhos úmidos e desistiu de procurar pela jóia.
Ele não se sentia bem naquele dia. Logo de manhã teve uma discussão descomunal com o moleque.
De novo maconha na mochila.
Na primeira vez bateu de arrancar sangue.
Não adiantou. Lá estava outro cigarro fedido daqueles.
Vestiu a cueca.
Tinham quinze minutos para pagar a conta, colocar a roupa e chegar à uma hora em ponto ao colégio onde ele lecionava português e ela matemática.
O horário do almoço era o único disponível para se encontrarem. No trabalho ninguém desconfiava. Muito discretos evitavam olhares apaixonados. No máximo roçando os cotovelos durante o cafezinho.
O marido dela era dono de uma pequena fábrica de calçados, o que possibilitava continuarem pela vida sem muitos sobressaltos.
O dele vinha do estado, uma lástima, embora fosse professor de segundo grau e não de segunda categoria.
Mais por falta de amor do que por qualquer outra coisa, eles não tiveram filhos ao longo de doze anos sob o mesmo teto.
Ele e a mulher se amaram bastante um dia.
Foi-se aquele tempo.
Tomografia e outros exames subseqüentes mostraram o real tamanho da encrenca.
Tumor extirpado junto com útero e ovários.
Quimioterapia.
Radiação.
Seqüelas e cicatrizes.
Metástase.
Seis meses fedendo na cama e chegou ao fim.
(Quantos janeiros?)
Nos últimos noventa dias ele pediu licença. Nem tanto por ela – caso perdido –, pelo menino, a cada dia mais desagregado.
Tiraram do hospital e a trouxeram para casa.
Ficava com uma dose de morfina ligada direto na mangueira do soro, ela própria se aplicava quando não agüentava.
E dê-lhe dor.
Uma agonia vê-la tentando outro tiro antes da cartucheira recarregada.
No velório a reencontrou.
Ela e o marido.
E todo o pessoal da escola.
Ela prestou seus sentimentos.
Ele sussurrou da saudade que sentia em seu ouvido durante o abraço.
Ela perguntou quando ele voltava.
Ele disse a semana que vem, eu acho.
A gente se vê.
Me liga.
O filho não foi ao enterro, ficou em casa com os tios que vieram de fora.
Quinta-feira.
No sábado foram todos a um pesque-pague.
Lindo perceber que ainda guardava a capacidade de se maravilhar com as coisas.
Pelos no rosto.
Voz engrossando.
Que sorriso largo quando fisgou o pacu.
Pai, pai, esse é dos grandes!
Devagar senão quebra a linha.
Que nada, vara seca, arrancou o bicho d’água com um puxão.
Um dos cunhados chutou três quilos.
O outro disse que aquele era o mestre dos pacus.
O pai agachou-se ao seu lado enquanto compenetrado ele tirava o anzol da boca do peixe, que se assemelhando aos dois, beijava o ar com mil beijos asfixiados.
Do nada então, da alegria despudorada suas feições mudaram.
Levantou e devolveu a criatura ao lago.
O pai também levantou. Não perderam o instante e se abraçaram.
No primeiro dia de trabalho, motel ao invés de almoço. Infelizmente.
Foi missa sem alma.
Sexo sem corpo presente.
E se corpo, faca mal amolada.
Ela não podia mais viver com aquilo, o sentimento de culpa era grande demais.
Ele mandou contar para o marido, faz as malas, vem viver comigo.
Não posso.
Não era o que queria?
(Quereria)
(Teria querido se)
(Efeito de sentido de algo que deveria ter se concretizado e não se concretizou)
(Antecipação imaginária com valor hipotético)
Então é só?
Ela assentiu com a cabeça.
Nenhuma lágrima ou objeto perdido dessa vez. Silêncio profundo.
Resignou-se.
O feitiço contra o feiticeiro.
Ela disse é melhor assim.
Pra quem?
Não vai haver outra vez.
Deixou-a e tirou a tarde de folga sem avisar à direção da escola.
A fumaça o alcançou na calçada.
Deitado no sofá, distraído vendo televisão, o moleque tentou esconder o troço embaixo das almofadas assim que ele entrou.
(Quanto desamparo)
Ignorando o que quer que estivesse fazendo perguntou se estava bem, e beijou a testa do filho. O tremendo ponto de interrogação na testa do filho.
Disse vou me deitar.
O menino ainda em choque.
O odor da doença impregnava a cama de solteiro ao lado da sua.
Impregnava as cortinas.
O quarto.
Por ele teriam continuado a dormir em cama de casal – o tal sentimento de culpa –, entretanto ela insistiu, já era tanto o sofrimento.
Deitou.
No sonho ela veio e o pegou pela mão.
Havia nuvens, e arco-íris, e dois sóis no mesmo entardecer. Um campo de lírios e peixes brilhantes de escamas douradas deslizando no vento.
Ali perderam a tarde.
Jantaram numa mesa comprida de madeira crua à qual se sentavam também outras pessoas.
O lugar dela agora.
Então voltaram à casa onde deu a luz.
E ela dizia.
E dizia.
Sobre muitas coisas.
Sobre estar zelando por eles de lá.
Foi quando abriu os olhos e petrificado esperou até que o perfume de flor se dissipasse.
(Vindo da sala o som da TV ligada)
Perfume de flor viva, nada do antigo fedor.
(Se ao menos tivesse religião)
(Mas pensou na danada da mente e nas peças que ela costumava pregar)