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05.01.2010 - 16:13

A Isto É e o jornalismo do aquecimento global

A Isto É e o jornalismo do aquecimento global

por Renato Lima

Estava aproveitando um inusitado frio em Garanhuns (que tem festival de inverno no agreste Pernambucano mas está em pleno verão) quando me deparei com uma Isto É especial sobre a conferência de Copenhague. A série especial inteira é, jornalisticamente falando, de um padrão baixo. O órgão informativo do Greenpeace ou do Partido Verde faria um melhor trabalho e menos tendencioso. Só recomendaria o artigo de John Williamson e a matéria de Solange Azevedo – e esta última mais pela pauta do que pela execução. A pior matéria é de um certo Eduardo Araia. Vale uma análise.

Fique logo pensando… Como vão abordar a questão de aquecimento ao mesmo tempo em que uma onda de frio histórica domina a Europa e Ásia e com a revelação de que cientistas britânicos foram pegos mentindo nos seus estudos sobre o aquecimento global.

Escreve Araia (Isto É, nº 2093, pg 98):

“A partir do momento em que passou a ser considerada com mais seriedade pelo meio acadêmico, a ideia de que somos os principais responsáveis pelas mudanças climáticas despertou forte reação contrária: cientistas céticos lembraram que, ao menos nesse aspecto, o planeta Terra nunca foi modelo de estabilidade. Apesar da oposição cerrada, apoiada em fortes interesses econômicos, a montanha de evidências reunidas ano após ano praticamente eliminou a dúvida. Nem o recente vazamento de mensagens eletrônicas de servidores da Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha, que mencionariam manipulações de dados científicos para combater a argumentação da ala cética, tem poder de fogo para derrubar o que vemos com nossos olhos.”

De fato, não existe um clima único na Terra, ele sempre esteve mudando. Já tivemos eras geladas seguidas de aquecimento e depois retorno a temperaturas mais frias. Já houve tempo em que entre Inglaterra e França não existia o canal da Mancha ou que o homem poderia andar de um continente ao outro pelo estreito de Bering. Então sim, a terra nunca foi modelo de estabilidade e essas mudanças extremas não foram causadas por qualquer atividade humana industrial (até porque existiam antes de existir o homem como é formado hoje).

Engraçado como sempre se liga o ceticismo nessa questão a interesses econômicos. Como se não houvesse enorme interesse e incentivo econômico (como financiamento de pesquisa e facilidades de publicação de artigos científicos) justamente para afirmar que existe aquecimento global e que é causado pela atividade humana. O ceticismo é tratado como uma heresia que seria certamente movida por interesses escusos. Esse é o estado mental de uma nova forma de inquisição, que puniria Galileu Galilei por afirmar uma crença contrária a do seu tempo. O ceticismo, um questionamento vital para o debate científico e uma forma de avançar o conhecimento, é uma heresia quando o assunto é clima.

O mais impressionante é a afirmativa de que os e-mails abertos de East Anglia não importam nada contra o que “vemos com nossos olhos”. As ditas tragédias do aquecimento global são projeções sobre o que aconteceria (estando todas as hipóteses de trabalho corretas) no futuro até 2100, como o aumento do nível do mar. O que vemos com os nossos olhos são recordes históricos de frio, pessoas morrendo (dezenas só na Índia) por conta das baixas temperaturas, Seul, na Coréia do Sul com 26 centímetros de neve (o maior volume da história), ingleses passando três dias num pub ilhados pela neve, e o fato de que a temperatura mais quente na história recente foi registrada em 1998 (e não um acréscimo linear conforme aumento de carbono na atmosfera). Se tudo o que se diz sobre aquecimento global for verdade, porque precisariam cientistas que lideram esses debates e ocupam posições no IPCC mentir sobre séries históricas de clima? Por que eles pressionariam journals científicos a não publicarem pesquisas de cientistas que questionam o aquecimento em vez de simplesmente refutarem cientificamente os argumentos desses céticos? Ou seja, porque quem está do lado da verdade recorreria à mentira e a censura? Ou será que isso não é verdadeiro?

Mas continuemos com outro trecho da matéria de Eduardo Araia:

“O que acontecerá se nada for feito? De acordo com simulações realizadas por cientistas, as temperaturas médias subiriam aproximadamente 5,8°C até 2100. E pode ser pior: os pesquisadores reconhecem que seus modelos não são precisos e uma série de fatores imprevisíveis pode influenciar esse quadro. “

Neste trecho o repórter reconhece um dos pontos que os céticos lembram: o grau de confiança dos modelos climáticos atuais é muito baixo. Só que a matéria só menciona erro para cima, para a tragédia, e não para menos. O próprio esfriamento recente não figura como cenário mais provável nos atuais modelos. Mas está acontecendo. Ou seja, pode se errar para “melhor”.

Na mesma página, um box escrito por Fabiana Guedes relata o caso de “refugiados climáticos”, grupos que migrariam em razão das mudanças climáticas… “Os refugiados climáticos somam 26 milhões, segundo o último relatório das Organizações das Nações Unidas. Projeções recentes indicam que este número deve aumentar, e muito, nas próximas décadas”, escreve a repórter. Entretanto, migrações por fatores geográficos, incluindo o clima, não é nenhuma criação do século XXI. Será que O Quinze, de Rachel de Queiroz, seria escrito hoje colocando a culpa no “aquecimento global”?

Teve um tempo em que todas as atividades naturais, incluindo catástrofes, eram explicadas recorrendo-se ao divino. Deus estaria com raiva de nós então nos puniria. Assim muitos explicaram também o terremoto de Lisboa, em 1755. Mesmo nesse cenário, poderíamos estar vivendo o melhor dos mundos possíveis (Leibniz). Voltaire escreveu Cândido e termina de forma cética. Na dúvida, melhor era cultivar o seu jardim. Sempre leio sobre indústria de energia e as relações climáticas. Não sei o que vai acontecer com o clima, pode até aquecer, mas as matérias que falam de aquecimento global são, geralmente, mal escritas e tendenciosas (e não é um “privilégio” da Isto É).

O compromisso com o planeta, a sustentabilidade dos recursos energéticos, a preservação ambiental, tudo isso deve ser feito independente da possibilidade de aquecimento global causado pelo homem. Se o dinheiro gasto nessas propagandas de aquecimento global fosse usado em coisas práticas como desassorear rios, proteger encostas, aquecer os desabrigados para não morrerem de frio, seria muito melhor usado. Para essas ações poderíamos fazer a diferença na hora, seria volterianamente cultivar o nosso jardim. Independentemente da possibilidade de influenciar o clima, como pregam os adeptos desse novo dogma do aquecimento global (dogma, pois defendem a tese não obstante qualquer questionamento empírico), boas condições ecológicas são desejáveis (ou imprescindíveis). Por que usar da mentira, como os cientistas de East Anglia? Por que distorcer os argumentos e pesquisas contrárias, como a maioria das matérias sobre aquecimento global? Não acredito que fazer mau jornalismo contribua para boas causas.

2 Comentários

  1. luiz Comentou em 07.01.2010 às 17:58

    Excelente reportagem! Eh impressionante a falta de sobriedade com que a imprensa trata esse assunto.

  2. naelma Comentou em 16.01.2010 às 13:47

    MUITO BOM:
    TAVA PESQUISANDO E ENCONTREI ESTE SIT
    SOBRE AQUECIMENTO GLOBAL.
    VOU FAZER VESTIBULAR 28/01 SE TIVER MAIS ALGUMA COISA QUE POSSA MIM AJUDAR TE AGRADEÇO. OBRIGAD BOA TARDE

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