01.02.2010 - 09:42
Diagnóstico Roberto Piva
Aos 73 anos de idade, internado na enfermaria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, o poeta Roberto Piva sofre do Mal de Parkinson, uma doença que atinge hoje cerca de 200 mil brasileiros.
Nos últimos anos, Piva teve suas obras completas reunidas pela editora Globo em três volumes: Um Estrangeiro na Legião, Mala na Mão & e Asas Pretas e Estranhos Sinais de Saturno.
Porém, o escritor não tem condições financeiras para comprar todos os remédios que precisa.
O escritor Bruno Piffardini, estudioso da obra de Piva, realizou um ensaio sobre o poeta especialmente para o Blog do Café.
O poeta-xamã: Roberto Piva
Por Bruno Piffardini*
A força do xamã
Provém do nada
Do êxtase
Do Eros
Tambor-gavião
Estrela fiel na chama do coração
Garoto vestido
De menina
Dervixe da Lua
(Roberto Piva, “BR 116”, in Ciclones)
Ainda que sofrendo atentados da ordem (política e intelectual) vigente para que se forçasse seu silêncio, sendo relegada ao benfazejo caminho do underground literário, é inegável a importância que teve a década de sessenta, do começo até o fim, na formação da nova literatura, presente seja na academia, seja nas ruas. Ora, justiça seja feita ao poeta paulista Roberto Piva, que contribuiu em grande parte com os alicerces dessa nova maneira de encarar a arte poética.
Com seu livro de estréia, Paranóia, lançado em 1962 pelo
editor Massao Ohno, responsável pela publicação de nomes como Hilda Hilst, Piva foi, junto com seus companheiros de geração Sérgio Lima (Amore, 1963) e Claudio Willer (Anotações para um apocalipse, 1964), o lançador da pedra fundamental do primeiro momento declaradamente surrealista na literatura brasileira. Não que tentativas surrealistas não tenham ocorrido antes – e aí estão Jorge de Lima e Murilo Mendes (guardadas as devidas proporções) que não nos deixam mentir – , mas o fato é que todas as tentativas feitas para que sua proposta “colasse” foram sumariamente rechaçadas, tanto pela classe artística quanto a acadêmica, viciada num racionalismo que “afastou” do Brasil o carinho das imagens, tão tradicionalmente cara a nossos irmãos de Latino-América.
Roberto Piva e seus contemporâneos não apenas assumiram seu surrealismo, doa a quem doer, como também abriram as fronteiras do Brasil para o que havia de mais novo na produção literária internacional, como a geração beat de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso: além do íntimo diálogo entre Piva e Ginsberg em Paranóia, é importante lembrar que a primeira tradução de Uivo, do mesmo Ginsberg, foi realizada por Claudio Willer. A troca de ideias com esses poetas norte-americanos, aliado ao estudo do surrealismo de além-mar, também estava imerso em uma paisagem de “atividades coletivas, panfletagens e provocações que incentivamos e promovemos com certos arroubos e até entuasiasmos”, como diz Sérgio Lima em seu livro A aventura surrealista. Posso dizer, com toda a alegria do mundo, que o espírito permanece and the song remains the same.
Roberto Piva é um meteoro. Dos grandes, dos que não se esfarelam na atmosfera. Dos que quando batem na superfície genocidam todos os dinossauros. A leitura de sua obra, para aqueles que já têm no peito a centelha da loucura e da cura, não é o buraco de Alice, nem uma estrada de tijolos amarelos, com pedras no meio do caminho (por melhores que esses caminhos sejam, e de fato são) – é o sonho iniciático do xamã, que seleciona seus discípulos, ensina-lhes a dor e a cura, e lhes entrega a asa e o tambor para cruzar inferno e céu.
A poesia de Roberto Piva se constrói a partir de uma delicada e ao mesmo tempo densa tessitura de êxtase e intertextualidade. Pegue “Um supermercado na Califórnia”, do Uivo de Allen Ginsberg e “No Parque Ibirapuera” do Paranóia de Piva, e a conversa está feita. Ainda em Paranóia encontram-se o método paranóico-crítico de Salvador Dalí em sua composição. Estão Mário de Andrade e Jorge de Lima, e também está a fúria de Lautréamont e os indefectíveis anjos de Rainer Maria Rilke.
Ao longo de sua obra, dividida em três grandes “surtos”, para usar a expressão de Alcir Pécora, está disseminado o misticismo xamânico, muito caro a Piva, para quem a cidade é um cemitério, grama de parque e tigre na jaula não são natureza, e para quem todo eco-chato é um eco-chato. O período relativo a Paranóia e Piazzas é permeado por um onirismo que aponta para o estado do sonho iniciático; em seguida, a fase que comprrende Quizumba e Coxas acena para um erotismo quase ritual que busca o êxtae (palavra-chave do xamanismo). Por último, a fase de Ciclones, quando Piva se consagra como o Grande Xamã-Poeta, finalmente residindo no coração da natureza e se distancia do inferno na metrópole-necrópole, realizando a cura e viajando entre o mundo visível e invisível. “Para mim, a poesia é sempre xamânica, e o poeta é sempre um xamã”, diz Piva em entrevista à revista “Coyote”.
Agradeçamos a Alcir Pécora pelo grato esforço de reunir recentemente a obra completa de Piva, em três volumes: Um estrangeiro na legião, Mala na mão e asas pretas e Estranhos sinais de Saturno, através dos quais Roberto Piva conseguiu atravessar o nevoeiro. Ainda que não o suficiente. Não é possível dizer que Roberto Piva seja um poeta invisível, mas também seria miopia acreditar que o merecido reconhecimento de sua obra esteja bem-estabelecido. A academia tem se arejado, já não é mais aquela dos tempos do ensaio “O surrealismo no Brasil”, de Antonio Candido (publicado em 1945 e que está no volume Brigada ligeira), que relegou ao limbo Rosário Fusco, autor de O agressor, primeira obra brasileira declaradamente surrealista; entretanto, permanece uma certa resistência dos estudos literários a tudo aquilo que de certa forma desvia e se safa de enquadramentos que se estabelecem para definir o “canônico” – palavra de alta periculosidade em bocas mal-preparadas. Existem poucos trabalhos realmente profundos da obra (devidamente profunda) de Roberto Piva, sendo os melhores escritos por seus amigos e companheiros, como os ensaios de Claudio Willer. A partir disso, a visão corre o risco de se embaçar definitivamente. Quanto tempo foi preciso para que sua obra fosse reeditada?
E quantos outros invisíveis não estão por aí, e que contribuíram para a diversidade que existe na produção atual, também “invisível”? Campos de Carvalho, autor de A lua vem da Ásia e O púcaro búlgaro (cuja montagem teatral por Aderbal Freire Filho deu uma passada cá por Recife), deixou uma obra poderosíssima e totalmente mal-divulgada. Tomemos um exemplo fresco na memória de todos nós: lembre de seus tempos no colégio. Lembre de quantas aulas você teve sobre a carta de Pero Vaz de Caminha. Quantas aulas seguidas lendo Marília de Dirceu em voz alta. Quantas aulas tivemos sobre a literatura pós-Geração de 1945? Ouvimos falar (sussurrado) em Ferreira Gullar, aprendemos o “Beba coca-cola” e que tinha um cara chamado Cacaso, cuja maior informação foi saber que sua professora o achava gostoso. Torquato Neto? Ana Cristina César? Caio Fernando Abreu? Ignácio de Loyola Brandão? Ninguém sabe, ninguém viu. Mas sabíamos (ou éramos forçados a saber) os pseudônimos dos arcadistas mais obscuros – e que continuaram obscuros…
Existe ainda a mania constante de coroar e entronizar o artista em seu leito de morte ou sobre sua cova. É quando todo o obscurantismo lançado sobre ele em vida, quando estava em atividade e acessível (ou seja, quando de fato vale a pena respeitá-lo) se dissipa como que por uma luz divina, fazendo com que todos pensem “por onde você andou esse tempo todo?”. Completa ignorância ou total covardia? A única certeza é que é um vício execrável. A morte canoniza quem sempre foi subterrâneo, talvez porque só assim um subterrâneo não revide à bajulação. Ou talvez porque isso renda matéria pra jornal. Nos últimos dias, Roberto Piva esteve muito doente. Troca de e-mails entre os amigos e entusiastas, atualizações constantes em blogs amigos. Situação grave, condições precárias.
Mas então eis que a mídia se aproxima, como um chacal voraz. Um frio na espinha. Todos têm seus necrológios prontos nos jornais, a qualquer sinal de morbidez os jornalistas duelam para ver quem saca a notícia primeiro, pronta há trinta anos. João Gordo um dia foi mencionado por William Bonner – uma pré-homenagem póstuma no Jornal Nacional. Até o João Gordo. O pavor da apoteose batendo asas fétidas: notícia na TV, três homenagens, duas comunicações na faculdade. E de volta ao silêncio tumular.
Não, senhores, Roberto Piva não merece isso. Sua obra e sua pessoa são importantes demais para serem dobradas por convenções catedráticas miopemente ortodoxas, e imensa demais para uma retratação póstuma. Celebremos o poeta-xamã Roberto Piva, como devemos respeitar todos os poetas-xamãs. Celebremos enquanto eles perambulam pela Canuto do Val, pela Conde da Boa Vista, enquanto o pulso pulsa.
P.S.: tomem um pouco de Piva aí:
watch?v=hS7nYQ0_WfM&feature=related
*Bruno Piffardini da Rocha Brito é escritor e crítico literário. Defendeu no começo de 2009 uma dissertação de mestrado sobre a poesia de Roberto Piva, pelo depto. De Pós-Graduação em Letras de UFPE.
(Renata Santana)
[...] http://www.cafecolombo.com.br/2010/02/01/diagnostico-roberto-piva/ [...]
O link saiu falho. Ei-lo:
http://www.youtube.com/watch?v=hS7nYQ0_WfM&feature=related
Caros,
Sou biógrafa de Piva, Willer e companhia (livro a sair pela Azougue Editorial dentro de alguns meses) e gostaria que vocês lessem alguns esclarecimentos sobre algumas hipérboles e informações imprecisas espalhadas na internet sobre a internação de Piva. Se puderem repassar e desfazer alguns desses mal entendidos, agradeço. http://www.magiconsundays.blogspot.com/
Obrigada!
Abraços,