01.02.2010 - 23:12
O Véu Negro por Matheus Neves Marques
O Véu Negro por Matheus Neves Marques
O Véu Negro repousava sobre o corpo de Isabela, e Daiana observava do outro lado do quarto. “O véu irá conservar sua alma”, ele havia dito, o homem de capa preta. Daiana se mantinha imóvel, sentada ali ao canto da sala, pensando em como iria sair dali. E se ele estivesse logo ali fora? E se ele estivesse observando-a por alguma fresta na parede? A única coisa que ela sabia era que, independente do que acontecesse, ela tinha que sair daquele lugar.
Numa calma noite de inverno, logo após deixarem um pub do centro, Daiana e Isabela caminhavam, quase bêbadas, numa rua qualquer da cidade.
- Onde vamos agora? – Isabela perguntou.
- Tanto faz. – Daiana disse. – Quem sabe a gente ainda ache um… – vendo um vulto correndo ao seu lado, Daiana para de falar, e, assustada, procura algo ao seu redor. Vê que não há nada. Não enxerga vida alguma no lugar. As casas estavão todas fechadas, a praça ao lado se encontrava mergulhada numa névoa que deixava as árvores quase impossíveis de se ver, e nenhum carro podia ser visto. – Acho que eu bebi demais. – Daiana fala. – Estou até vendo coisas.
- Cala a boca! – Isabela exclama, falando baixo e apertando o passo.
- Que foi?
- Eu também vi! – ela explica. – Vamos sair daqui.
Quando elas começam a andar, vultos estranhos voltam a aparecer, cada vez mais. Elas passam a andar tão rápido, que em poucos segundos estão correndo silenciosamente na escuridão da madrugada fria. Enquanto as sombras correm na direção oposta das amigas, dão alguns gritos fortes e selvagens, tentando agarrar as mulheres.
- Que diabos são essas coisas? – Daiana fala, quase chorando. Quando ela se vira e olha para Isabela, pálida como neve, vê uma das sombras a agarrando enquanto corria. Sem voltar atrás e ainda olhando para amiga, que agora se tornara como um grande pedaço de carne velha em meio a urubus, Daiana continua a correr, desesperada. Quando olha para a frente, sente uma mão fria envolver seu rosto. Entre as frestas dos dedos deformados, ela vê uma pessoa fumacenta, sem olhos, gritando com sua enorme boca.
No dia seguinte, Daiana acorda num quarto escuro, com móveis velhos e empoeirados. À sua frente ela vê um homem com uma capa preta, se mexendo para lá e para cá à frente de uma mesa.
- Eles quase te mataram. – ele fala.
- Quem é você? – Daiana pergunta.
- Sou uma espécie de guardião.
- Guardião do quê? – Daiana pergunta, se levantando.
- Guardião de almas. – ele fala, se virando para Daiana, Exibindo uma cara de cansaço e desânimo. Uma grande e desagradável barbicha se pendura do seu queixo até a altura de seus ombros. Daiana acha que é algum tipo de piada. Em meio a muitas dúvidas, ela não questiona.
- O que eram aquelas coisas? – ela pergunta.
- São as Sombras. Elas aparecem raramente, quando sentem fome. – ele explica.
- Fome?
- É. Fome. Fome de almas. – Daiana se assusta, e curiosa, se aproxima do homem para ver o que ele faz naquela mesa. Quando chega perto o bastante, ele ri e ela grita, ao ver Isabela lá, aberta, com os órgãos separados em diferentes potes de vidro.
- É assim que se deve fazer. – ele fala, sorrindo, enquanto Daiana apalpa as paredes à procura de alguma saída. – Os órgãos devem ser retirados. Depois, é só pegar o coração, e colocá-lo dentro da boca da pessoa. Devo dizer que essa parte dá muito trabalho… – ele diz, rindo irritantemente.
- Depois, é só pegar um véu, negro, e cobrir o corpo. O véu irá conservar sua alma. – ele diz.
- POR QUE VOCÊ FAZ ISSO? – Daiana grita.
- Ora, para as minhas filhas! – ele fala. – Elas sentem fome! Eu sou responsável por guardar as almas para elas. Se elas não se alimentarem, eu serei a comida.
- FILHAS? COMO? AQUELAS COISAS…
- Elas foram amaldiçoadas, tempos atrás. – ele começa. – Eu matei a mãe. O fantasma da mulher fez nascer uma maldição.
- SEU LOUCO! ME DEIXE SAIR DAQUI! – Daiana grita, esmurrando nas sombras as paredes de madeira.
- O trabalho aqui está pronto. – o homem fala. – Quem é o próximo? – ele pergunta, ironicamente. – Ah, sim! aí está você! – ele diz, indo em direção à Amanda.
- SAIA DE PERTO DE MIM SEU VERME FILHO DA PUTA! – ela grita.
- Cuidado com a língua! – ele exclama. Ele consegue agarrá-la, abre sua boca e, com uma faca, corta sua língua. – Inconsciente, ela cai desmaiada no chão.
- Te vejo mais tarde! – ele diz.
O Véu Negro repousava sobre o corpo de Isabela, e Daiana observava do outro lado do quarto. “O véu irá conservar sua alma”, ele havia dito, o homem de capa preta. Daiana se mantinha imóvel, sentada ali ao canto da sala, pensando em como iria sair dali. E se ele estivesse logo ali fora? E se ele estivesse observando-a por alguma fresta na parede? A única coisa que ela sabia era que, independente do que acontecesse, ela tinha que sair daquele lugar.
Matheus,
adorei ler o que você escreveu. Sua imaginação é expetacular.
Parabéns!!!
Fiquei curiosa até o final para saber o desfecho. Ah, talvez seja bom dar um pouco mais de ênfase também a personagem Amanda. Conversaremos em sala.
Um grande abraço,
Marina Cândida (professsora Colégio Domiciano Vieira)
Gostei do teu conto, eu acho que voce tem talento e pode melhorar cada vez mais. Continue escrevendo que… ainda vais longe.
Carlos_luanda- Angola
Obrigado Marina, e obrigado Carlos!
Estou agora prestes a publicar um livro que acabei de escrever, As Crônicas De Mandrok. Um Conto-de-Fadas adulto com fantasia, sangue e sexo.