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16.02.2010 - 02:47

João Luís da Nossa Livraria

Com enorme surpresa recebi a notícia do falecimento de João Luís, livreiro, editor, amigo. O João da Nossa Livraria, como todos conheciam. O João de fala arrastada, quase baiana, do sorriso amigo, da conversa boa em torno da sua mesa, adoçada com um café feito na hora.

Quantas vezes não passei na Rua do Riachuelo e perguntava para algum livreiro, como Isaías (que eu chamava de “Meu profeta!” ou então o gerentão Tavares): João está aí? Quase sempre só havia dois tipos de resposta: “Está em Maceió” ou “Está, pode entrar”. E, se estava, era certeza de uma conversa amigável, mesmo que estivesse recebendo alguém, pois João sempre foi bom de fazer apresentações. E reunir pessoas. No ponto da Nossa Livraria se encontrava frequentemente Gilvan Lemos, Raimundo Carrero, José Teles, Nivaldo Mulatinho, Domingos Alexandre, Paulo Caldas, entre tantos outros.

João dividia os negócios entre essas duas cidades, com igual amor. No Recife, falava sempre com brilho nos olhos de Maceió, da sua nova loja no Farol, porque você tem que visitar, se passar por Maceió não deixe de ir, por sinal, você já viu o livro de Carlito Lima?… Carlito, conhecido como Capitão e escritor alagoano. Ou de novos investimentos no Recife mesmo, como foi o caso da matriz, que fica por trás da Faculdade de Direito e, com a reforma, ele tratou logo de chamar de “A primeira megastore de livros jurídicos do Brasil”. João nunca falou mal ou teve medo da concorrência. Quando muitos livreiros da cidade ficaram em rebuliço com a entrada da Livraria Cultura, João dizia logo: “Acho ótimo! Tem mercado para todo mundo.” E ele soube trabalhar tanto num mercado de nicho, o de livros jurídicos, quanto manter uma loja diversificada na matriz. E com venda através de unidades móveis e entrega a domicílio por moto, com atendimento diferenciado por uma equipe atenciosa.

Aos poucos se transformou num dos principais editores da cidade. A Edições Nossa Livraria começou com a publicação de trabalhos acadêmicos, mas logo foi levada a publicar contos, romances, relatos e até livro de entrevistas, como foi o caso do “Conversas no Café”, deste programa. Pouco antes de eu viajar, João me pediu para escrever a apresentação de um livro de contos de Gilvan Lemos, uma seleção feita pelos amigos de Gilvan. Mandei, ele gostou muito – o que me deixou bastante alegre, claro – e foi publicado com destaque e lançado na Bienal do Livro de 2009. Aliás, a dedicação de João a Gilvan Lemos é um caso aparte e resume bem o espírito humano e cativante deste livreiro. Não só ele publicou, republicou e inventou novos livros de Gilvan. João também criou homenagens e reuniu amigos em torno do escritor de São Bento do Una, que está numa idade em que o que mais vale é ter boas companhias. Pois João dava isso e também reconhecimento à sua obra.

João foi assim uma espécie de José Olympio das letras em Pernambuco. Reunia escritores, vendia e editava livros. Nesse momento de perda, é também hora de reconhecer o privilégio de poder ter convivido com ele. Pena que tão pouco, por ter partido tão cedo. Mas deixou um exemplo que devemos nos lembrar.

(Renato Lima)

Um comentário

  1. Flávio Barbosa - Filho Comentou em 01.03.2010 às 13:07

    Obrigado pelo carinho, Renato. Meu pai sempre foi este amante de livros e de pessoas que você tão bem descreveu. Insubstituível para todos nós. Nossos sinceros agradecimentos.

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