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28.02.2010 - 14:45

Democracia se aprende na escola? “Please vote for me” de Wiejun Chen

Democracia é algo que tem custo, pode deixar mágoas e decepções nas acirradas disputas, mas ainda assim é o sistema que aprendemos ser mais eficaz para afastar totalitários e incompetentes do poder. Mas não é algo universal e, de fato, há inúmeros países governados de forma autoritária, como a China comunista. Um interessante documentário, “Please vote for me” (Por favor vote em mim, 2007, dirigido por Wiejun Chen), fala de eleição na China e revela alguns aspectos dessa longa tensão entre as soluções coletivas via força ou via voto.

Numa escola básica na cidade de Wuhan, alunos de terceira série são informados que, pela primeira vez, o monitor da turma vai ser escolhido de forma democrática. Mas o que é democracia? – alguns alunos perguntam. Bem, é quando o povo tem o poder, responde-se no filme. E, sem experiência ou valores democráticos, mas com muita vontade de ganhar, três alunos – dois meninos e uma menina – partem para disputar o voto dos seus colegas. E o resultado é uma mostra dos vícios e dificuldades desse sistema.

A competição é organizada através de uma competição de talentos, como cantar ou tocar flauta. A primeira a se apresentar é a menina, Xu Xiafei. Ela, entretanto, tem a sua apresentação sabotada pelo concorrente Cheng Cheng, que reúne os seus cabo-eleitorais para vaiá-la antes de ela começar a se apresentar. A menina fica em estado de choque e cai em prantos. A mãe pouco pode fazer para ajudá-la. De fato, ela acaba se culpando porque Xu Xiafei cresce numa família separada, sem os mesmos recursos dos seus adversários na disputa.

Os pais se envolvem fortemente no processo. Pais mais ricos e com boas colocações no governo comunista, como os de Luo Lei, tentam influenciar o resultado da eleição com a oferta à turma de uma viagem num trem moderno. Luo Lei é o atual monitor e é conhecido como brigão, de fato partindo para intimidar quem ele acha que vai votar contra ele, uma espécie de pequeno coronel. Outra estratégia é comprar apoios políticos através da distribuição de cargos. Cada monitor pode escolher dois assistentes e, claro, surge o “se você votar em mim eu lhe dou o cargo” na campanha de Cheng Cheng e Luo Lei. Este último, aliás, compra um dos apoios de Cheng Cheng e o menino ameaça desistir da corrida eleitoral. Mas é convencido pelos pais de continuar, afinal, para chegar a ser presidente da China a eleição de monitor da classe é apenas o primeiro passo.

Há várias formas de ler o trabalho de Chen. Para quem apóia o governo da China, pode ser uma amostra de que o sistema democrático é cheio de falhas e, afinal, a China está conseguindo se desenvolver sem essa forma de governo. Há ainda um debate entre os candidatos em que um joga os problemas do outro, como ser relapso ao fazer os trabalhos escolares, fazer fofoca, ser delicado demais para poder impor ordem etc. Uma leitura democrática evidenciaria que a consolidação desse sistema representativo demanda certos valores (como o respeito às minorias) e regras, como a prevenção do abuso de poder econômico (caso da ajuda que os pais de Luo Lei deram ao levar toda a classe para um passeio e no dia da eleição ele distribui presentes aos colegas).

(Renato Lima)

Trailer do filme:

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