Café Colombo

Textos do Público

17.04.2010 - 13:01

A Feira de Trocas, por Vinícius Antunes da Silva

A Feira de Trocas

Peguei esta estória antiga na feira de trocas, se ao leitor não couber, troque-a por outra:
Seu José Pedro chegou às 4 da manhã na Praça XV, as barracas estavam de pé antes do sol. Ia o velho, levando no colo uma boneca de pano feita pela esposa há 10 anos, coisa rara e bem feita, sem valor nenhum financeiro, mas lotada de cifrões afetivos. Na primeira barraca que lhe interessou viu um lustre bonito que serviria para alumbrar todo quarto, quis trocar a boneca por ele, mas o vendedor lhe perguntou de que serviria aquela porcaria. Andou mais um pouco resfriado pelo sereno da madrugada e viu uma jaqueta feita de couro e teias de aranha. Disse ao moço das roupas que a trocasse pela boneca, mas este lhe disse que era cedo para piadas. Andou até parar pela terceira vez, ao avistar um canivete inglês, e o vendedor lhe disse que não lhe interessavam joguetes. Quando já estava a desistir, avistou uma caixa de ferramentas seminova numa tenda dum homem de barbas brancas. Zé Pedro envergonhado lhe ofereceu a boneca e, na mesma hora, o homem barbudo aceitou. Os amigos encarnaram ao feirante que se desfizera dos utensílios para tomar um brinquedo pra si. De noite, com as ferramentas, Zé Pedro dava novo jeito a sua casa, num raro momento de alegria e, Marcelinha, a filhinha do homem barbudo, tinha a noite mais feliz de sua vida, ao dormir abraçadinha com a nova boneca que um dia havia sido da filha de Zé Pedro que morrera de tuberculose.

Antunes

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