Café Colombo

Textos do Público

04.05.2010 - 09:37

Epifania por Antônio De Vitto

Epifania

por Antônio De Vitto

Eu estou sozinho. O ar que eu respiro é a única coisa que me resta. Já são três horas da madrugada, e eu estou sentado, num banco de praça, olhando ao redor, com a esperança de que ninguém me ache. A minha vida tem sido um inferno nos últimos sete dias. Eu perdi as duas únicas coisas que mais me importavam nesta vida: a minha casa e a minha namorada. E eu queria saber o por quê. Aliás, no fundo, eu devo saber, só que ainda há um sentimento dentro de mim, que não quer que a verdade se revele, um sentimento perfeccionista, um orgulho que prefere se manter intacto à revelar algo que possa ferí-lo.
O vento sopra. A árvore balança. Uma folha cai em minha cabeça. Mas eu não quero tirá-la dali. Estou poupando todos movimentos desnecessários. Aliás, estou poupando todos os movimentos. Eu nunca senti algo tão forte assim… Ser expulso de casa é horrivel. Uma terrível sensação de rejeição, ódio, raiva, amargura e amor, tudo ao mesmo tempo. É como se seu coração fosse um liquidificador, você pegasse tudo isso e batesse. Você se sente tonto, perdido. Não tem noção de onde está. Não sabe o que vai fazer, não sabe se quer viver, não sabe se quer pular da ponte mais próxima e se jogar, não sabe se quando for assaltado, gritará para o bandido: “Mate-me, por favor!”.
E aqui, eu penso…todo este tempo, o qual eu morei com os meus pais, em casa, eu fui um bom filho. Nunca tiveram do que reclamar. Eu sempre fazia o que me pediam, ainda acho que eu era muito bonzinho. Sempre brinquei, sempre fui divertido, bem-humorado, nunca causei mal algum para ninguém. Sempre permanecia quieto. No meu canto, deitado num sofá, do lado de uma lareira, que me aquecia em todas as noites frias e solitárias. A última coisa que eu fiz, antes de ouvir o julgamento final de meu pai, “Saia daqui”, e alguns empurrões em direção à rua, foi deitar do lado daquela lareira. Naquela hora, estava pensando sobre minha namorada. Ah, o meu doce amor… Como eu amava aquela cachorra. Tivemos loucas noites junto, era um amor insaciável, aventureiro… Mas, aquela cachorra me traiu. Eu não sabia se aquela porra de amor que eu sentia era recíproco. Eu não sabia se ela realmente me amava também ou estava lá só para me trair. Mas agora eu sei. Ela está lá agora, comendo do bom e do melhor, sentada num aconchegante sofá azul-piscina, pago em dez prestações, sendo confortada por dois proletariados de classe média, meus antigos pais. Eu ainda não sei porque os chamo de pais. Nunca cuidaram bem de mim. Eu não sei o que fiz para merecer isso tudo.
Sabe, pode até parecer clichê, mas é uma das frases que mais me conforta agora: “ Tempo é remédio “. E espero que assim seja. Eu digo “Foda-se”, bem alto, ecoando pelas ruas ( mesmo que ainda ninguém me entenda ), pulo daquele banco e sigo em alguma direção, a direção que, agora, é o rumo de minha vida… Ela é… o norte. O norte. Não sei o que me espera, nem o que vai acontecer. Eu aprendi que a vida é apenas uma aventura sem propósito, na qual nos fodemos o tempo todo. A felicidade é apenas algo momentâneo, por isso, tenho que aprender a conviver com a dor. Nada mais é importante para mim, além de mim mesmo.
E aqui vou eu, ó grande mundo que me aguarda! Eu vos digo, não é fácil ser um cachorro de estimação…

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