Café Colombo

Textos do Público

19.06.2010 - 10:20

O sensualismo de “E agora” de Julie Philippe Santos

E agora?

por Julie Philippe Santos

Doces pulsos elétricos me percorrem o corpo pra não me deixar esquecer que foi muito bom. Eles também me lembram que o verbo por ora é no passado e que, por causa deles mesmos, não pude fazer muito para que volte a ser dito no presente.

Os arrepios gelados escorrem pelas pernas, braços, espinha abaixo. Entre as omoplatas, onde as mãos não chegam para espantá-los, depois dançam sobre meus cabelos onde um toque tão leve deixou uma cicatriz igualmente fria.

Mas mais do que machuca, o gelo me arranca a realidade. Errada aquela percepção de verdade, paixão e delícia, o que poderei dar por certo? Que sonho se fará possível diante de uma realidade que vi desfazer-se na neblina úmida?

As cores, os cheiros, os arrepios quentes e a luz que inundava as veias como fogo, leve como o riso, agora oscilam entre o caminho do branco e preto que alivia e o apego que me impede de esquecer. O lembrar ainda é sentir. As coisas boas primeiro, depois as últimas notícias. Me recrimino por ter dirigido tão rápido para casa. Deveria ter vindo mais devagar, saboreando aquele sonho tão frágil e tão mágico que me fazia cantar a plenos pulmões pelo caminho.

O lado ruim de provar quase todas as cores ao lado de alguém é que depois não há qualquer lugar seguro. O escuro traz os arrepios mais dolorosos, fantasmas dos abraços trocados, dos braços que se atrapalham, da vontade de dormir pra sempre, do pijama curto, do cobertor muito quente. O livro de receitas, a medalhinha de ouro no pescoço dele. O vinho, o braço do violão, o disco da Marisa Monte, o cara com a meia que não combina que vi na rua hoje.

Claudinho e Bochecha, Norah Jones, Guilherme Arantes, David Gilmour. O trabalho, o sobrenome da melhor amiga, cafuné e ovos mexidos de manhã cedo. Um SMS que chega, os sapatos baixos, os brincos de flores coloridas. Meus vestidos, o perfume que traz todas as lembranças feito gás venenoso.

O toque no pescoço e no cabelo, a lembrança de uma voz que agora machuca como um grito, a lembrança doce de um beijo na palma da mão que agora queima como uma chaga. A faixa que não consigo mais colocar no cabelo, o cardigã florido. Tanto de mim que se desfaz em saudade e lembrança, pedaços do passado e do presente que trazem consigo um sonho tão bom que chega a doer, justamente por ter sido sempre sonho.

Assim como dói olhar no espelho e procurar a beleza que teria sido suficiente.
Como dói cantar e procurar as notas que teriam completado a mágica, a doçura que teria viciado os lábios, o sorriso que apertaria o coração numa saudade que agora já sei que não existe. Doem as coisas que não disse, as bobagens que deixei escapar. Os beijos que não roubei, os segundos que desperdicei olhando para a lua.

Arde a vontade de entrar num avião e ir até Madrid pedir mais um beijo ciente de tudo isso, pra descobrir se a mágica esteve aqui dentro o tempo todo ou se chegou a cintilar entre nossos lábios. E se era de nós dois, onde está agora? Teria se perdido no mar?

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