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11.08.2010 - 11:13

Cheias na Zona da Mata Nordestina

A sensação de imobilidade de um lugar para evitar desastres é terrível. Recentemente tivemos as tragédias de Alagoas e Pernambuco, com a quase destruição de Palmares, terra do poeta Ascenso Ferreira. No trecho abaixo, da 100ª edição de Menino de Engenho, de José Lins do Rego, uma descrição de cheia no princípio do século passado, quase que igual à tragédia recente:

“- A cheia destruiu mais que em setenta e cinco. O Joca perdeu a semente de cana. A linha de ferro foi arrastada em mais de um quilômetro no Engenho Novo. No Espírito Santo caíram ruas de casas. Há muita miséria. Muita fome no povo. O governo está mandando mantimentos.

Havia uma sombria tristeza na gente da casa-grande. Há três dias que ali não se dormia, comia-se às pressas, com o pavor da inundação.

O engenho e a casa de farinha repletos de flagelados. Era a população das margens do rio, arrasada, morta de fome, se não fossem o bacalhau e a farinha seca da “fazenda”.

[...]
Saímos então para ver de perto o que o rio tinha feito. Na parede da estrebaria e nos paus do cercado ficara a marca das águas. A boca da fornalha parecia um açude; com mais um palmo a casa de purgar teria ido embora. O cercado era um atoleiro por onde os bois iam deixando as marcas dos cascos. Por toda a parte um cheiro aborrecido de lama. Os galhos dos marizeiros, todos pendidos para um lado, como se tivessem sido torcidos por uma ventania. E garranchos e ramarias secas por cima deles. O engenho todo estava triste. Só os canoeiros alegres, passando a bom preço, de um lado para outro, os aguardenteiros que vinham do contrabando de cachaça de Pernambuco. E para nós era a única coisa a ver: a canoa cheia de ancoretas, e os cavalos, puxados de corda, nadando, e a gritaria obscena do pessoal. O resto, tudo muito triste, e lama por toda parte.”

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