26.08.2010 - 13:11
Lula e a sua briga com os fatos
Clóvis Rossi comenta, na Folha hoje, declarações de Lula feitas em palanques. Ele pode ter 110% de apoio, mas mentiroso tem que ser chamado de mentiroso se assim o procede. A dica que ele deu no final deveria valer para os jornalistas de fontismo oficial, que alguns colocam como exemplo Kennedy Alencar, que dizem publicar o que lhe é soprado. Nem sempre é o caso, e nem interessa personalizar, mas é bom lembrar que matéria em off (como “fontes do Planalto”) deve ser reduzida ao mínimo e nunca para alguma coisa a favor do governo. Assim, dá a impressão de que é notícia plantada.
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CLÓVIS ROSSI
Lula inventou uma fábula
SÃO PAULO – Para não dizer que o presidente Lula mentiu sobre o que aconteceu no almoço de 2002 nesta Folha, em que se sentiu discriminado, digamos que ele contou uma fábula, com escasso parentesco com a realidade.
Para começar, o único presidente norte-americano que frequentou a conversa não foi Bill Clinton, jamais mencionado, ao contrário do que diz Lula, mas Abraham Lincoln. Foi Otavio Frias Filho, diretor de Redação, quem lembrou que Lincoln também não tivera educação superior, o que não impediu que fizesse um bom governo.
Depois dessa observação nada discriminatória, Otavio perguntou por que Lula não se preocupou em estudar mais, depois de ter se estabelecido na vida, como dirigente sindical primeiro e como líder partidário depois.
Lula não respondeu nada, ao contrário da fábula que conta agora. Limitou-se a dizer que se sentia desrespeitado e que, por isso, não responderia. A conversa ainda transitou por outros temas durante um tempo até que Otavio voltou a perguntar, agora sobre a ligação do PT com o fisiologismo.
De novo, Lula não respondeu, a não ser para dizer que não tinha culpa de que não estivesse bem nas pesquisas o candidato do diretor de Redação (do qual não deu o nome). Levantou-se e foi embora.
A reação do então candidato foi tão mais estranha porque, dias antes, Miriam Leitão fizera pergunta parecida e Lula dera uma resposta esperta: nenhuma universidade prepara alguém para ser presidente da República.
O que incomoda nesse episódio não é ele em si, menor. É a fabulação que o presidente faz em torno do que aconteceu. Por acaso, eu estava no almoço e sei perfeitamente o que se disse e o que não se disse. Como posso confiar em que Lula não fabula também ao relatar encontros com políticos ou governantes estrangeiros?
crossi@uol.com.br