20.07.2011 - 14:00
Lula Falcão e a vida digital de uma tuiteira
Para o site Opinião e Notícia, faço uma resenha do livro de Lula Falcão “Todo dia me atiro no térreo – #tuiteira” (Editora Bookess, 2011). Leitura rápida (como a escrita online) e recomendada. Captura bem um momento. Tanto que começo o texto relatando um caso pessoal recente:
Livros
‘Todo dia me atiro do térreo’
A ideia de uma vida projetada nas redes sociais permeia o interessante novo livro do jornalista veterano de redação, Lula Falcão. Por Renato Lima
Na praça Guadalajara, Festival de Inverno de Garanhuns (PE), encontro uma amiga e a amiga da amiga. Animada que só. “Não estou bêbada, estou no brilho”, disse. Ela reclama do sinal do celular porque queria postar no Facebook e não consegue. “Eu estou tão feliz. Quero escrever isso”, fala. E eu penso: se bebeu, não use smartfone.
Bebida e redes sociais permeiam o interessante livro “Todo dia me atiro no térreo – #tuiteira” (Editora Bookess), do jornalista veterano de redação Lula Falcão. Ele capta bem um fenômeno contemporâneo. Seguimos um diário de @Maria Lúcia, uma produtora cultural que se embebeda todas as noites e está sempre grudada nas redes sociais. Após mais uma noite de ressaca pensa em morrer, mas afasta logo esse pensamento porque “tenho mais de mil seguidores no twitter”. Ou porque “A morte deixa a gente eternamente off-line. Doenças como o mal de Alzheimer também. Você esquece as senhas do twitter e do Facebook…” Falcão faz uma divertida crônica e crítica ao mesmo tempo desse tipo de comportamento.
Todos os parágrafos se iniciam com @, mas sem o limite de 140 caracteres. A fixação com essa vida projetada – a vida das redes sociais – é total. Ainda que ela nada signifique. “@ Acordei tarde. A sensação de estar perdendo alguma coisa no twitter me deixa angustiada. Não devia estar assim. Afinal, saí de lá às 4h da manhã, depois de uma conversa sem sentido com alguém sem sentido”. Maria Lúcia não entra em bola dividida. Assunto que pode dividir o seu público de seguidores ela evita, como declarar apoio a Dilma ou Serra. Falar de política corre o risco de perder “seguidores”.
Naturalmente, Maria Lúcia tem frases boas e pensamentos interessantes, mas também muita besteira. Como se encontra na internet e é de se esperar de alguém que passa o dia no twitter. “Conversas longas sobre um mesmo tema, me chateiam. Prefiro papos blocadinhos, em pílulas, 140 caracteres”, declara. Seu objetivo é colocar frases de efeito que possam gerar repercussão. “Quando vejo que ninguém retuitou, entro em depressão”. Quando não está de frente para o computador, está bebendo num bar. De preferência vodka. Mas a cabeça continua no mundo online. E o sexo, quase sempre, é o solitário.
E como viver grudada no computador e bebendo à noite inteira? Ou sendo artista ou vivendo do dinheiro dos outros. Maria Lúcia tentou a primeira opção, mas nunca deu certo como atriz, diretora de vídeo, roteirista ou literata. Acabou vivendo do dinheiro dos outros, mais especificamente trabalhando em projetos de incentivo à cultura. “Sou uma vagabunda em vários sentidos, mas quando o assunto é trabalho, sou uma vagabunda imbatível”.
No trabalho formal, nunca passou tempo o suficiente para ter direito a férias. “Restaram-me os projetos de incentivo à cultura, onde desenvolvia ideias inúteis, como a que propunha levar um grupo de Hip-Hop para uma aldeia de índios. Uma estatal entrou com algum, mas o negócio não foi em frente. Nem o Hip-Hop nem os índios nem eu”. E volta para a casa dos pais depois dos 30 anos. “Quarto e computador de graça contam mais pontos que decepção familiar”. Ou para um cortiço. Daí para um casamento com um diretor de vídeo impotente, mas que lhe deu direito a uma pensãozinha por um tempo.
Das frases de efeito do twitter para assessoria parlamentar – escrevendo discursos para um candidato – foi um pulo. A política também é uma forma de viver do dinheiro dos outros, bem como falando o que os outros querem ouvir, tal aquele que vive para aumentar sua rede de seguidores. Sempre no twitter ou Facebook. No brilho ou sem brilho.
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