18.12.2011 - 23:48
“Habitante irreal” de Paulo Scott e a decepção de um esquerdista
Diogo Guedes, do JC, escreve sobre o que considera “um dos melhores lançamentos do ano”, o livro “Habitante irreal” de Paulo Scott.
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Autocrítica e decepção de um esquerdista
REVELAÇÃO Livro do gaúcho Paulo Scott está entre os melhores lançamentos de 2011, narrando o cotidiano de um estudante de direito desiludido com a militância petista
Diogo Guedes
Em tempos de política polarizada em dois partidos, cabe a outros espectros da sociedade – como a literatura – fazer um balanço do que ficou esquecido no processo de desenvolvimento do País. É exatamente isso que acontece em Habitante irreal (Alfaguara, R$ 40, 262 páginas), livro do gaúcho Paulo Scott. Funcionando como uma autocrítica geracional da atuação da esquerda brasileira, a obra é dos melhores lançamentos do ano, equilibrando com precisão as referências ao contexto histórico e as questões subjetivas de seus personagens.
Nome atuante da produção contemporânea, Paulo Scott estreou na poesia em 2001, com o alternativo Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Editora Sulina). Depois disso, publicou outros dois volumes de versos, um romance, Voláteis (Objetiva, 2005), um livro de contos e um texto teatral. Habitante irreal, sua sétima obra, ganhadora da bolsa de criação literária da Petrobras, demandou seis anos de trabalho, com quatro versões e “mais de uma centenas de aberturas”.
Em um ritmo tenso e veloz, como se descrevesse uma tragédia inevitável, a narrativa traz o cotidiano desiludido do estudante de direito Paulo. No ano de 1989, ele está abertamente decepcionado com a militância do Partido dos Trabalhadores (PT). Voltando de um encontro político clandestino, vê uma jovem índia debaixo da chuva segurando algumas revistas e jornais e, depois de alguma hesitação, oferece carona a ela. O relacionamento que surge entre ele e a menina de 14 anos, Maína, desvia o rumo dos dois, desencadeando uma reação em cadeia que vai interferir na vida do casal Henrique e Luísa e do seu misterioso filho Donato, o Habitante Irreal do título.
“Embora angustiado, escrevi sem pressa, não tive medo de recomeçar praticamente do zero quando me pareceu necessário”, conta o autor, em entrevista por e-mail. Nesse processo, um dos seus desafios foi encadear sem perdas a ampla gama de assuntos do livro: além do retrato político da juventude dos anos 1980 e 1990, estão presentes o abandono dos indígenas, a vida ilegal dos brasileiros em Londres e o incesto.
São retratos pesados, desesperançados e realistas do que foi esquecido pela lógica do desenvolvimento econômico. “Se há denúncia contundente nesse romance, ela gira em torno do tratamento desumano aplicado sem medida e limite às nações indígenas”, explica o gaúcho. “O índio é uma espécie de animal para o homem civilizado, é uma espécie de estorvo”. Nesse ponto, segundo ele, “a esquerda brasileira é tão perversa quanto todos os outros que a antecederam no poder”.
Para o autor, o livro é um romance de geração, uma forma de mostrar a história de uma juventude que falhou. Habitante irreal traz o ambiente do PT durante a campanha presidencial de 1989, quando, para Paulo, os debates utópicos foram abandonados para dar espaço às questões práticas e a um projeto de poder. “Os melhores quadros, os melhores militantes foram praticamente expulsos do partido porque pensavam demais, se posicionavam demais, exigiam uma coerência que não deveria existir só no discurso”, defende.
A saída para a desesperança política que emana do livro é a busca de uma identidade, indígena, política ou pessoal. O Habitante Irreal, um homem vestido com uma máscara e uma armadura de madeira e que canta músicas em guarani, é a forma performática encontrada por Donato, já nos anos 2000, de dar visibilidade ao invisível. Para enfrentar o descaso da sociedade com os índios, é preciso desafiar o esquecimento, desfilar nos ambientes urbanos no papel de um ente estranho. “Foi esse o modo que escolhi para contar a história: remontar a tragédia de um para tentar mostrar a tragédia de muitos”, conta o escritor.
AUTOBIOGRAFIA?
Mesmo com a semelhança dos nomes, da formação em Direito e do histórico de militância política, o autor diz que Paulo não é inspirado diretamente na sua vivência pessoal. “O Paulo do livro ocupou vários espaços e circunstâncias (ideológicas inclusive) que eu também ocupei, mas a semelhança acaba aí”, explica. Ainda faz outra ressalva: nesses ambientes, nunca foi nem tão ingênuo nem tão corajoso como ele.
Escritor que começou nos versos, ele ainda revela uma relação de experiência e aprendizado com aquela linguagem – já chegou a dizer que perdeu “tudo o que poderia perder com a poesia”. “Com a poesia percebi que queria ser escritor, com a poesia perdi o medo”, revela Paulo. “Até num romance como o Habitante irreal, quando a narrativa sobressai, a linguagem está ali, pensada, calculada, mesmo quando é simples ao extremo, mesmo quando desaparece”.
Ainda que seja graduado e mestre em Direito, o gaúcho é escritor em tempo integral, não se dedicando atualmente à crítica, à tradução ou ao jornalismo, como muitos fazem – e, claro, sem ser um best-seller. O prêmio da Petrobras, portanto, foi uma grande ajuda na viabilização da obra. “Parece loucura optar por uma vida assim, e não sei até onde conseguirei mantê-la, mas sei que a bolsa me ajudou bastante a continuar teimando”, comenta.
Atualmente, ele prepara um novo romance, parte da coleção Amores Expressos, que enviou escritores para diferentes cidades do mundo para criarem narrativas em cima da experiência. Paulo foi para Sydney, na Austrália, terminando por produzir Ithaca Road. O livro deve sair no final do ano que vem pela Companhia das Letras.
Romance de uma geração
“Companheiras, companheiros, esse documento que acabo de entregar nas mão do companheiro Alfredo é a comunicação do meu desligamento da tendência. (…) Estou assustado (…) mesmo sendo um militante, que sempre precisou da compreensão de quem trabalha comigo, por ser vaidoso, admito, apressado, admito, por não ser o melhor exemplo de determinação e disciplina, estou realmente muito preocupado com a forma irracional com que as tendências que hegemonizam a direção do partido vêm desprezando o debate democrático, reproduzindo as práticas stalinistas mais odiosas. (…) Não vejo democracia, a democracia que deveria ser o básico, a base. Estou preocupado, envergonhado, com as alianças, concessões e vistas grossas que estamos instituindo como prática padrão do Partido dos Trabalhadores. (…) Tenho vergonha do que estamos nos tornando. Sinceramente, penso que alguns de nós, alguns companheiros nesta sala, estão se sentindo donos do partido, senhores iluminados do partido, se portando como grandes suseranos, como verdadeiros chefes de gangue. Nosso partido não nasceu para isso. (…) Olho para os lados e vejo gente que não era pra estar no PT, e não apenas está no PE, como é quem está dando as cartas desde que vencemos a eleição municipal. Éramos melhores quatro anos atrás. Desculpem, mas é o que vejo”.
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