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Uma fração do todo é a sugestão de Carol Bensimon

Uma-fração-do-todoA escritora gaúcha Carol Bensimon sugeriu aos ouvintes do Café Colombo a leitura de Uma fração do todo, livro de estreia do australiano Steve Toltz e que foi lançado no Brasil em 2011. “A escrita tem um humor muito particular, explorando personagens bizarros que vão contando um pouco da história australiana”, adianta.

530 – Carol Bensimon e “Todos nós adorávamos caubóis” – 2 – Entrevista

carol_smallO Café Colombo em sua edição de número 530 conversou com a escritora gaúcha Carol Bensimon. Ela esteve no Recife durante a Bienal do Livro de Pernambuco de 2013, lançando o seu terceiro romance “Todos nós adorávamos caubóis” (Companhia das Letras). A obra é um road novel de personagens em busca de sua identidade. Carol também já foi incluída na lista dos melhores jovens escritores brasileiros da revista inglesa Granta, compilada em 2012. Confira a entrevista feita por Thiago Correa.

530 – Carol Bensimon e “Todos nós adorávamos caubóis” – 1

O Café Colombo em sua edição de número 530 conversou com a escritora gaúcha Carol Bensimon. Ela esteve no Recife durante a Bienal do Livro de Pernambuco de 2013, lançando o seu terceiro romance, “Todos nós adorávamos caubóis” (Companhia das Letras). Nesta primeira parte do programa, Thiago Correa traz destaques de lançamentos, incluindo a reedição do livro “Umbilina e a sua grande rival” do premiado escritor Cícero Belmar.

Contos de Fadas, de G. K. Chesterton, chega ao público brasileiro pela Resistência Cultural

A Resistência Cultural tem se firmado como uma casa editorial diferenciada, trazendo ao público obras importantes em edições primorosas. Em seu mais recente lançamento, a editora baseada no Maranhão lança “Contos de Fadas” de G. K. Chesterton, com tradução de Ronald Robson. Confira mais informações abaixo:

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Publicação única no mercado editorial brasileiro, Contos de fadas e outros ensaios literários – em tradução primorosa de Ronald Robson – traz importantes ensaios de G. K. Chesterton sobre literatura. Dickens, Stevenson, Bernard Shaw, Chaucer, os poetas e romancistas vitorianos, as histórias de detetives, os contos de fadas e muito mais são analisados pela pena mágica do São Francisco inglês. A edição – com marcante projeto gráfico de Caroline Rêgo – conta, ainda, com textos de Sebastião Duarte e Jessé de Almeida Primo e, em apêndice, ensaio do crítico Julius West, contemporâneo de Chesterton.

ISBN: 9788566418033
Idioma: português
Encadernação: Brochura
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: 2015
Autor: G. K. Chesterton
Tradução: Ronald Robson
Capa, projeto gráfico e diagramação: Caroline Rêgo
Número de páginas: 368
Vendas: Expresso Liberdade

Wynton Marsalis sobre estadia no Recife: “Spok é uma personificação da arte”

Marsalis traçou vários paralelos entre Recife, Olinda e o berço do Jazz, New Orleans

Marsalis traçou vários paralelos entre Recife, Olinda e o berço do Jazz, New Orleans

Um dos principais nomes do Jazz em atividade, o músico Wynton Marsalis é conhecido pela sua seriedade ao tratar de música. Menos de uma semana após as declarações polêmicas de Ed Motta sobre a cultura brasileira, Marsalis publicou um texto em sua página oficial derramando elogios ao frevo e, em especial, ao trabalho desenvolvido pelo maestro Spok, a quem chamou de “personificação da arte”.

Marsalis é considerado um embaixador da música americana, em especial pelo seu respeito e empenho na divulgação da tradição musical de New Orleans, o berço do Jazz. Diretor do Jazz at Lincoln Center, em Nova Iorque, ele é considerado um dos trompetistas mais brilhantes da atualidade e já colaborou com músicos como Dizzy Gillespie, Arturo Sandoval, Herbie Hancock, Jack DeJohnette e Bobby McFerrin.

Wynton esteve no Recife a convite da Spok Frevo Orquestra no início de abril, quando fez um show em Olinda e outro no Parque Dona Lindu. Ontem, publicou um texto sobre a experiência em sua página oficial no Facebook. Confira o texto completo abaixo, traduzido do inglês pela equipe do Café Colombo.

Entre Recife e New Orleans, uma maldição e uma benção

Por Wynton Marsalis
Publicado no Facebook

Assim que desembarquei no Aeroporto Internacional do Recife, batizado em homenagem ao seu conterrâneo Gilberto Freyre, eu soube que o Recife seria excepcional, um lugar perfeito para a etapa final desse mês intenso de turnê. Um aeroporto levando o nome de um intelectual que encorajou os brasileiros a abraçarem o lado africano da sua natureza e das suas heranças culturais? Possíveis críticas a parte, é uma postura incomum e iluminada para o novo mundo. Mas desde o momento em que descemos do avião, esta maravilhosa e acolhedora cidade nos agraciou com uma calorosa e educada hospitalidade.

Marcelo Ferreira, Luiz Barbosa, Lilian Pimentel e Mariana Crosseiro, todos da Jaraguá Produções, nos encontraram no aeroporto. Eles exalam uma mistura refrescante de absoluto profissionalismo com genuina curiosidade e excitação sobre os dias e eventos que nos esperavam. É contagioso. Embora eu não tenha visto Carol Ferreira (nossa produtora, que moveu montanhas para nos trazer até aqui), fui apresentado a seu motorista, Júnior, e seu irmão, Marcelo, um cantor de ópera cuja voz distinta nos faz imediatamente identificá-lo como tal. Felizmente Júnior conhece a cidade com a mão, e durante o caminho eu tive a chance de realmente conversar e conhecer Marcelo. Falamos sobre Verdi e Wagner (que eu saiba, ambos nascidos em 1813), casas de ópera, orquestras e Don Giovanni (de Mozart). Tentei convencer Marcelo a cantar – mas por respeito a Júnior (e pelo alto volume), ele se recusou. Enquanto discutia sua formação na Universidade de Indiana e Campbelssville, no Kentucky, descobri que Marcelo também havia sido guitarrista de Blues. Perguntei se ele ainda tocava e ele disse “não, agora que eu sei mais, percebi que não sabia nada (de Blues)”.

Todos chegamos ao hotel nos sentindo felizes com a qualidade de nossos anfitriões e prontos para participar do jantar e de uma segunda apresentação planejada para esta noite em Olinda, cidade que possui a primeira escola de formação para músicos de frevo. Enquanto andávamos pelas ruas de paralelepípedo até o restaurante Oficina do Sabor, eu não podia deixar de pensar no French Quarters, bairro central de New Orleans. Assim como as tradições da minha cidade natal, o Frevo começou com bandas marciais que tocavam na época do Carnaval. Não demorou muito e aquilo se tornou extremamente competitivo, com os diferentes blocos achando que tinham a melhor banda e os músicos tocando cada vez mais alto e cada vez mais rápido. Esse ambiente competitivo também contou com elementos de violência. Assim como a tradicional Mardi Gras Indian, de New Orleans, o frevo foi forjado com confrontações físicas e resoluções musicais.

O Frevo tem sua própria característica rítmica e sua fórmula melódica que inclui influências de maxixe, capoeira e polca, e é acompanhado por uma dança muito rápida e acrobática, que apimenta a elástica síncope africana com chutes, agachamentos e turbulências dignos dos cossacos de circos russos. Os dançarinos vestem roupas coloridas inspiradas no folclore regional e usam guarda-chuvas amarelos, azuis, verdes e vermelhos (exatamente como em New Orleans), enquanto executam suas performances quebrandos os pescoços no ritmo de um ataque cardíaco. Alguns dizem que a palavra “frevo” vem da palavra “ferver” e do calor tropical, e defitinitavamente essa música estrondosa e essa dança frenética fazem qualquer público ferver em folia. E quando você adiciona as ruas apertadas de Olinda, bebidas alcóolicas, todos os primorosos estímulos visuais e um par de milhões de pessoas, você pode sentir o tipo de bacanal de que eu estou falando.

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Considerado um dos maiores trompetistas do mundo, Marsalis encantou-se com o Frevo e as semelhanças históricas com o Jazz

Quando chegamos ao restaurante, Spok e alguns membros da Orquestra já estavam comendo. Nos saudamos e começamos a conversar com ajuda de tradutores. Conheci a incrível Spok Frevo Orquestra e o Maestro Spok, seu arranjador, saxofonista e diretor musical, cerca de 5 anos atrás, no Marciac Jazz Festival, na França, e eu senti uma afinidade imediata. No início deste ano, eles fizeram um concerto na Appel Room, na nossa House of Swing, e sopraram o público pra longe. Estamos todos ansiosos para tocar com eles, aprender sobre Frevo e conferir esta culinária. Músicos afro-latinos dizem “toca com sabor” quando eles querem êxtase. Oficina do Sabor é um nome apropriado porque tudo que eles colocam na mesa faz com que você pergunte “O que é isso?”. Há um camarão único e saboroso e mariscos cozidos com um molho à base de maracujá servido dentro de uma abóbora que ocupa a atenção de todos na mesa. Droga! Spok e eu dividimos um terço da abóbora. Havia também todos os tipos de molhos de coco e misturas afro-brasileiras. Essa refeição foi realmente saborosa e instrutiva.

Ao agradecer por minha comida, eu tive que orar por todas as pessoas que lutam para alimentar-se a cada dia e expressar a minha gratidão por ser tratado com tanta generosidade. Pensei na minha tia-avó que poderia cozinhar realmente qualquer coisa (sim, qualquer coisa), mas era muito pobre para os padrões americanos. Ela falava em voz baixa e não era muito dada a conversas, mas quando colocava um grande prato na mesinha do quarto dos fundos, ela dizia: “Não é porque somos pobres que não podemos comer bem”. E meu tio-avô, nascido em 1883 e sempre pronto para discutir com ela, dizia: “Nós somos ricos para de onde viemos!”.

Durante o jantar, Spok me contou tudo sobre a sua história e sobre a tradição do Frevo, sobre como o carnaval e os desfiles de blocos afetam cada pequena rua da cidade, sobre quando os músicos improvisam no Frevo, e sobre os pontos altos de cada tipo de álcool. Todos os músicos estão trocando informações sobre o prato para comer e onde obtê-lo, e há uma excitação silenciosa sobre a cultura, o ambiente, o fato de a turnê estar quase no fim, e também sobre a canja de hoje à noite. Um mês é muito tempo para estar longe da família e dos entes queridos, especialmente quando você tem filhos pequenos que crescem diariamente e que podem se transformar completamente em quatro semanas.

A Oficina fica em cima de uma ladeira, de onde se pode ver a cidade do Recife brilhando lá embaixo. Parece um cartão postal de possibilidades noturnas. Depois de comer fomos sentar ali e brincar com coisas muito tolas ou ignorantes para escrever a respeito. Então foi a hora de visitar o Grêmio Musical Henrique Dias, fundado em 1954 e hoje liderado pelo maestro Ivan do Espírito Santo.

Entramos na sala enquanto a orquestra ensaiava e aquilo era completamente familiar e rigorosamente simples, como o Sul dos Estados Unidos. Cada músico aqui toca com uma sensibilidade obstinada. Toda a nossa orquestra se integra àquela sala, escutando atentamente. Podemos ouvir muitas semelhanças entre o Frevo e o Jazz e também com o estilo do século XIX que nós crescemos tocando. Quando eles pararam, nós começamos a tocar uma música de New Orleans, Lil Liza Jane, e eles se juntaram para tocar o refrão. Apenas músicos em uma sala tarde da noite, isso sempre é ótimo.

Grêmio

Apenas músicos em uma sala tarde da noite, isso sempre é ótimo

Na sequência, nós nos derramamos no ar tocando o clássico frevo Vassourinhas. A medida em que lentamente descemos as ruas lotadas, ambos os grupos se alternavam – um frevo e uma música de New Orleans – às vezes separados, e outras vezes todos juntos. A agitação faz com que as pessoas, cujas casas se alinham na rua, venham pra fora e participem da emoção. Mas os foliões se juntando em torno de nós deixaram muito difícil tocar e andar sem soprar nos ouvidos de alguém. Spok parou nos Quatro Cantos. É um lugar onde todos os grupos se reúnem durante os desfiles de Carnaval, como o nosso Auditório Municipal, em New Orleans. Ali, nós fazemos a nossa rodada final com mais um par de músicas.

Apesar da profunda desorganização, havia tanto entusiasmo que era ótimo estar ali tocando no calor, no meio da rua e cercado de pessoas em plenas 11 horas da noite.

No dia seguinte nós fizemos uma passagem de som cedo, às 11h. Como um fechamento para o show de hoje a noite, ensaiamos “Moraes é Frevo”, de Spock, com as duas orquestras. Ufa! Os trechos de sax estão voando por todo lugar, mas os de trompete são realmente difíceis, com todos os tipos de double tonguing iniciando na sílaba off. Nós lutamos, mas os trompetistas da Spok Frevo Orquestra não têm nenhum problema com isso. Foi instrutivo ouvi-los tocar dessa forma, mas eu acho que seria necessário um ano de prática (sem exagero) para que eu realmente conseguisse fazer bem a minha parte. Depois de uma boa hora, deixamos para o que Deus quisesse.

Para o almoço, Carol Ferreira nos deleitou com outra refeição epicurista no Bistrô & Boteco, no Recife Antigo. Ela é uma pessoa muito quieta e de bastidores, mas junto com seu parceiro Luiz, da Jaraguá, nos mostrou um outro nível de boas-vindas. Após a refeição, fui levado a um passeio pelo Paço do Frevo, que significa literalmente Palácio do Frevo. Trata-se de um museu, escola, espaço de performance, estúdio e centro de mídia criado especificamente para preservar a memória das tradições do Frevo.

Eduardo Sarmento é o diretor do espaço e um visionário. É inspirador ver como as pessoas têm habitado todos os seis ou mais andares daquele lugar, usando-o para enriquecer suas vidas com sua própria cultura; ver a história do Frevo contada claramente, ano a ano, numa exposição fotográfica; ver um grupo de crianças de escolas esparramadas no chão aprendendo sobre frevo; ver uma biblioteca, um estúdio, as sombrinhas coloridas e os estandartes bordados de blocos… Foi verdadeiramente edificante. Nenhuma busca poderia ser mais digna ou significativa. Eu não posso vislumbrar esse tipo de facilidade para a comunidade e para as crianças nas escolas de New Orleans.

Depois Spok e eu nos encontramos no último andar para uma conversa pública sobre a relação entre as tradições do Frevo e da música de New Orleans. A sala estava cheia de músicos, cidadãos preocupados e alguns maestros sentados nas primeiras filas. Spok referiu-se a suas experiência e realizações em vários momentos ao longo da conversa. Antes da discussão começar, fui apresentado ao Maestro Duda, um dos mais importantes compositores vivos de frevo, que me presenteou com uma composição original para trompete. Marcelo funcionava como um tradutor com a firmesa de um barítono e a sofisticação linguística de um cantor de ópera.

Foi profundo quando eu olhei ao redor da sala e vi tantos pontos de contato cultural: eu vi meu pai; vi Alvin Batiste, mestre de clarinete e professor; vi o artista John Scott; e vi o diretor musical John Fernandez em palestras e simpósios musicais pouco frequentados na Universidade Xavier e outras instituições durante os anos 1960 e 1970. Lembrei-me da sua luta ao longo da vida, insistindo na seriedade e na importância da arte local na comunidade de New Orleans, que na época era muito mais interessada no New Orleans Saints (um time local de futebol americano – e que perdia tudo na época). Com a conversa eu pude entender a luta árdua de Spok e de alguns defensores da música e da cultura do Frevo. Sim, nós discutimos os desfiles e estandartes, o trabalho social de clubes carnavalescos, as marchas, a tradição de violência que une o Mardi Gras Indians aos dançarinos de capeira, o ritmo frenético, tradição e inovação, improvisação e progressão de acordes, o passado e o futuro. A conversa foi bem recebida, mas as entrelinhas não foram discutidas, porque simplesmente aconteceram.

Para Marsalis, Spok tem "desafio substantivo de elevar o nível da arte"

Marsalis: Benção para o Frevo, Spok tem “desafio substantivo de elevar o nível da arte”

Spok é uma personificação da arte e um embaixador carismático do estilo. De vez em quando um artista chega com o magnetismo e o desejo de enriquecer alguns aspectos da qualidade artística e da substância da arte. Ele é uma benção para o estilo, mas com toda benção há também uma maldição. O desafio substantivo de elevar o nível artístico dos mestres é uma preocupação que desaparece se você ceder à tendência musical que faz sucesso no momento. A popularidade, é claro, é o seu próprio padrão, e apresenta desafios alheios a qualquer mestre musical ou, em alguns casos, a qualquer período da música. Então, você deve escolher a rota menos popular. Lá há sempre uma velha guarda que defende a qualidade do trabalho desses mestres. Muitas vezes, a figura carismática é uma das poucas pessoas que realmente sabe quem são os mestres, deixando sozinha a velha guarda. E muitas vezes a tradição inteira é apresentada ao público através da popularidade desse artista, independentemente de seu desejo ou intenção. É impossível para quem está sob os holofotes conseguir redirecionar a luz para alguém que está no escuro. E então os mais velhos são naturalmente – e algumas vezes justificadamente – ressentidos com essa dinâmica, criando uma tensão insolúvel que requer do artista mais jovem uma compreensão muito sutil e um pisar em ovos a todo momento.

Depois há uma pressão sobre o artista para desenvolver e inovar aspectos do estilo (que são considerados sagrados por alguns) enquanto também se mantém fiel à sua essência, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o calor mercantilista das chamas da fama. É claro que a fama continuamente puxa você para longe da essência que, em tese, você deve encarnar enquanto também aprende a como gerir e cultivar um grupo e o conceito desse grupo. Enquanto isso, você também negocia o fato de que a arte que você encarna tem muito pouco suporte das muitas pessoas que  a criaram (porque ultimamente buscaram sempre o que é mais comercial). Este é o enigma de New Orleans. O nome Jazz é ótimo, reivindicando suas origens e tradições é ainda melhor, apenas enquanto não tenhamos que deixar a música ou ensinar isso às nossa crianças. É por isso que a minha resposta para o que há de novo no Jazz é agora e sempre: pessoas vão começar a ouvir.

Eu amo Spok e todos no Paço do Frevo porque eles estão envolvidos todo esse tempo na batalha para elevar a consciência da cultura com a sua própria arte, apesar de uma tradição de negligência que diz que “é apenas algo das ruas e sem seriedade, deixa ser qualquer coisa”. Eles são de verdade, e todo aquele prédio ergue-se como um testemunho de suas crenças. E todas aquelas crianças lá dentro que aprendem a substância de sua cultura oferecem a possibilidade de uma educação continuada.

Depois que a conversa acabou, um grupo de trompetistas (três da Spok Frevo Orquestra) tocaram “Fantasia Brasileira Para Trompete”, do Maestro Duda. Havia quatro movimentos e cada um era rico em contraponto e drama, e cada um empregava um estilo e um ritmo diferentes. Os trompetistas tocaram aquilo com um arranjo excelente, com sofisticação e atrevimento. Eu adorei.

O concerto naquela noite foi no Parque Dona Lindu, na praia de Boa Viagem. Era um local indoor/outdoor, semelhante ao que tocamos em São Paulo. Spok e sua orquestra abriram os trabalhos, tocando com sua paixão característica, fogo e virtuosidade. Em um ponto o nosso próprio Elliot Mason tocou com eles Nino, o Pernambuquinho, do Maestro Duda, juntamente com o trompetista Fabio Costa. Se você não pode tocar e usar a lingua com alguma velocidade, sério, fique em casa. Elliot pode, e ele estava em casa e foi bem recebido como devia.

O conjunto de Spok foi enérgico e eletrizante e a sua última música tocada tinha uma linha de metais que nos fez olhar sem crer no que víamos e desejar inspecionar os instrumentos depois do show. Isso me lembrou uma foto dos trompetistas da Filarmônica de Londres examinando o trompete de Lous Armstrong no início da década de 1930. O virtuosismo e a precisão da Spok Frevo Orquestra indicam horas e horas de prática e também a qualidade de seu lider.

Frevo

Músico de Marsalis: “reduzido a um aprendiz” pelo apuro técnico da Spok Frevo Orquestra

Entramos no palco tocando e balançando duro, determinados a terminar bem a noite e a turnê. O público estava muito animado e ativo, e absorveu a variedade da música que nós tocamos sem hesitação ou julgamento dos vários estilos. Eu sempre tenho que me lembrar que os nossos ouvintes definitivamente não ouviram a música original que nós tocamos (inclusive porque quase todas eram inéditas) e que a maioria deles também nunca ouviu nenhum dos arranjos tradicionais, e se ouviu foi através de gravação, e não ao vivo. É por isso que sempre digo: “tocar música de todos os períodos como se você tivesse escrito ontem”. Esses ouvintes gostaram tanto do setlist de Spok quanto do nosso.

A medida em que a noite avançava, eu estava ciente do tempo e do nosso encerramento. Spok saiu e nós tocamos o seu Moraes é Frevo, que tínhamos ensaiado anteriormente. Eu tenho que pedir perdão a ele porque eu acho que não toquei numa medida completamente adequada e definitivamente baguncei a parte de double-tonguing que vinha ocupando minha mente o dia inteiro. Felizmente, as trombetas da Orquestra me cobriram. Após uma série de improvisações nós botamos tudo pra fora e Ali tocou corretamente a difíci pausa de tambor. A audiência adorou, e nós também.

É sempre especial estar junto de algo significativo e difícil, e nós definitivamente tentamos fazer o nosso melhor com Spok e seus músicos. Nós então tocamos Vassourinhas, a música mais popular durante o Carnaval, o equivalente recifense ao que significa a Second Line, do Joe Avery, em New Orleans. Uma vez mais a resposta da multidão mereceu outra canção. Como esta noite comemorou o 200º aniversário do consulado dos Estados Unidos no Recife (um dos mais antigos do mundo) e nossa embaixatriz Liliana Ayalde estava na casa, os dois grupos saudaram nossa marca conjunta com uma versão de Feliz Aniversário com linguagens alternativas de Frevo e Jazz. Todo mundo foi pra casa feliz e satisfeito. Foi uma noite diversificada e cheia de música.

Depois do concerto nós conhecemos muita gente interessante. Eu tive a oportunidade de ser acompanhado pela senhora Lêda Alves, a Secretária de Cultura do Recife, que patrocinou essa visita e a tornou possível. Ela estava tão descontraída e honrada que eu tive que abraçá-la. Então eu assinei uma série de coisas e tirei uma pilha de fotos com novos amigos e, de repente, nossa turnê terminou.

Como a cereja do bolo da expressão, nós fomos convidados a um clube de Jazz chamado Mingus, cujo dono, Nicola Sultanum, tem um dos cavanhaques mais característicos do mundo. Ironicamente, ele era o vocalista da banda de blues em que o Marcelo tocava guitarra anos antes. Nicola, seu restaurante, seu clube, seu cavanhaque e sua vibração, tudo pertence a alma do hall da fama. Ele tomou conta dos Estados Unidos.

Quando nos sentamos, conversamos, comemos e bebemos, a generosidade esmagadora de nossos anfitriões nos trouxe de volta para a numerosa lista de pessoas e experiências positivas que encontramos nesse último mês. De cada promotor, embaixador, admirador, funcionário de hotel, proprietário de restaurante, músico, estudante, professor, comprador de ingresso, motorista, guia, piloto, tradutor, tantos antigos e novos amigos. Nós fomos realmente abençoados ao longo dessas quatro semanas. E a nossa comunidade de admiradores, entes queridos, fotógrafos, grupos da estrada, suportes de som e produtores, equipe na estrada e funcionários na volta pra casa, todos nos mantiveram seguros em boa mente e em bom corpo, sempre em busca do swing. Nas palavras de Frank Stewart, “foi glorioso”.

Como Ted e eu andamos 6 quarteirões de volta ao hotel por volta da 1h30 da madrugada, nós conversamos sobre as mudanças que gostaríamos de ver no mundo e outros assuntos leves. Nós passamos por um grupo de crianças jogando futebol e especulamos sobre quanto tempo nossos velhos traseiros resistiriam num jogo com eles. Depois de rirmos com o pensamento, eu perguntei a ele se lembrava um tempo cerca de 15 anos atrás quando, após um show na Austrália, muito tempo depois de todos irem pra casa, eu e ele voltamos aos nossos chifres e decidimos jogar Epistrophy. Nós paramos em não menos que 20 minutos, rimos (do mesmo jeito que tínhamos acabado de fazer), segurando um ao outro e colocando os bofes pra fora. Pegamos uma carona com alguém num carro antigo ou algo assim… Mas eu decidi não perguntá-lo sobre essa memória, não havia muito a falar sobre o acontecido. Com tudo o que Spok tocou e double-tonguing, Ted disse: “eu fui reduzido a um aprendiz, mas Sherman Irby tocou o inferno pra fora”. (Isso me fez sentir melhor sobre o massacre da minha parte, porque Ted consegue tocar tudo). Esses dois dias foram cheios!

Não há sentido se abusar disso. Nas palavras de Marcos Portinari, empresário de Hamilton de Holanda, “depois do amor não há outro lugar para ir, só abaixo”.

Temos planos de ir pra casa.

(Tradução: Mano Ferreira)

O tributarista e também poeta Ives Gandra Martins ganha edição nobre de suas poesias

A Livraria Resistência Cultural Editora, que também edita outros escritores de peso como Ângelo Monteiro, acaba de lançar uma edição das poesias completas do jurista Ives Gandra Martins. Bastante conhecido pelos seus trabalhos na área tributária, artigos em jornais e defesa da liberdade econômica, Gandra Martins é também poeta, com produção reconhecida por nomes como Arnaldo Niskier e Carlos Nejar. Abaixo, mais informações sobre esse lançamento:

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A Livraria Resistência Cultural Editora – www.resistenciacultural.com.br – tem a honra de entregar ao público a Poesia completa de Ives Gandra da Silva Martins. Com prefácio do Príncipe dos Poetas Brasileiros, Paulo Bomfim, e apresentação do pianista e maestro João Carlos Martins – irmão do Poeta –, esta Poesia completa traz na íntegra, divididos em doze títulos, todos os poemas publicados por Ives Gandra da Silva Martins, revistos minuciosamente pelo Autor, que considerou esta versão a definitiva, além de numerosos poemas inéditos, enfeixados no volume Cicatrizes do tempo.

Reconhecida por escritores do porte de um Geraldo Vidigal, de um Oscar Dias Corrêa, um Paulo Bomfim, um Arnaldo Niskier, um Cláudio Lembo e um Carlos Nejar – cujas apreciações estão reproduzidas nesta edição comemorativa – como uma das mais importantes da Geração de 45, a poesia de Ives Gandra Martins, refinada e elegante, ocupa-se dos temas que constituem a própria tradição literária do Ocidente: a Vida, a Morte, o Amor, a Fraternidade Universal, a verdade absoluta que é Deus. Ruth – a companheira de mais de meio século e, sobretudo, a amada – está presente em cada verso deste livro, simbolizando o farol a iluminar o caminho do Poeta, tal como Beatriz o fizera, nos albores da Idade Média, com o vate florentino.

Título: Poesia completa
Autor: Ives Gandra da Silva Martins
Formato: 16 x 23
Número de páginas: 754
Encadernação: Capa dura
ISBN: 978-85-66418-05-7
Edição e Organização: José Lorêdo Filho
Capa, projeto gráfico, ilustrações e diagramação: Caroline Rêgo

Pedidos – site do Expresso Liberdade: http://expressoliberdade.com.br/produto/poesia-completa-de-ives-gandra-martins/

Marguerite Duras: dez dias para comemorar seu centenário

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No ano em que o mundo celebra o centenário de nascimento da escritora, pensadora e cineasta Marguerite Duras (1914-1996), a Aliança Francesa Recife promove dez dias de eventos na unidade do Derby com apresentação de espetáculos, debates, performances e música, além da exibição de filmes. A celebração ainda conta com menu temático e um mercado de pulgas à la Paris. O encerramento, no dia 15, é com um mercado gastronômico para celebrar a primavera.

A programação começa nesta quinta-feira (06) com a peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”, novo monólogo da atriz Ceronha Pontes, escrita e dirigida por Cláudio Kovacic, idealizador do evento e apaixonado pela obra de Duras. O espetáculo terá nove apresentações em formato de anfiteatro e marca a segunda atuação da atriz para um ícone francês (a primeira foi Camille Claudel). Na quarta-feira, haverá uma pré estreia somente para convidados.

Outro destaque da programação cênica é a única apresentação do solo “OssoVao”, de Silvinha Góes, no dia 13, às 21h. Nele, a bailarina escritora provoca o público com palavras e poesia. Desta vez, ela usará trechos escritos de Marguerite Duras em sua preparação.

O cinema tem destaque com os filmes da obra de Duras, como “Hiroshima, meu amor” (1959), roteirizado por ela e dirigido por Alain Resnais, e “O amante” (1992), baseado no livro (1984) mais famoso da autora, vencedor do Goncourt, o mais prestigiado prêmio literário da França.

A entrada da peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras” custa R$ 15. O restante da programação é gratuita. Confira abaixo a grade completa:

Quarta, 5

12h – Estreia do menu temático “Claudius”, no Bistrot La Comedie, com cardápio elaborado a quatro mãos pelos chefs Cláudio Manoel e Cláudio Kovacic*
*Todos os dias do evento, o menu será oferecido no almoço e no jantar, com entrada, prato principal e sobremesa no valor de R$ 35. Também estão no cardápio quitutes para serem degustados durante todo o dia, a R$ 20 cada.

20h – Avant première da peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”
Com coquetel para convidados

Quinta, 6

18h – Mostra de Artes Visuais – Fundaj
20h – Estreia para o público da peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”

Sexta, 7

16h45 – Falemos de Duras: envolvendo os alunos da Aliança Francesa na programação
do centenário de Marguerite Duras
18h – Mostra de Artes Visuais – Fundaj
20h – Peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”

Sábado, 8

15h às 19h – Simplesmente Gênero: Documentários
“The ballad of genesis and lady jayne”, “Mon cerveau a t-il un sexe ?”, “Françoise Héritier et les lois du genre”, “XXY” e “Pleure ma fille, tu pisseras moins”
20h – Peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”

Domingo, 9

10h30 às 18h30 – Marche aux puces
Bazar com brechó (A Vaca Foi para o Brechó, Ateliê de Carol Monteiro e Wundabar), aquarelistas (Dan Cabral e Dani Pessoa), desenhos de Dani Acioli, livros do La Seboza Páginas Ambulantes, origamis de Eva Duarte, instrumentos artesanais do Castanho Instrumentos Percussivos, peças do Artes Artesanatos Reciclados, astrologia, dança, apresentação da banda de percussão Adamante e comidinhas de cozinheiros novos e divertidos da cidade
18h – Mostra de Artes Visuais – Fundaj
20h – Peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”

Segunda, 10

18h – Mostra de Artes Visuais – Fundaj
20h – Peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”

Terça, 11

18h – Mostra de Artes Visuais – Fundaj
20h – Peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”
21h15 – Simplesmente bissexualidade: “barbi-papo” entre Tatiana Ranzani Maurano (psicóloga social especialista em assuntos LGBT) e convidados

Quarta, 12

18h – Mostra de Artes Visuais – Fundaj
20h – Peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”
21h15 – Simplesmente no limite: vinho e verbo com Beatriz Ivo (jornalista e consultora sênior especialista em marketing e comunicação) e convidados

Quinta, 13

18h – Exibição do filme “Hiroshima, mon amour”
20h – Peça “Pouco me importa se tu me amas. Eu sou Duras”
21h – Solo de dança “OsseVao”, de Silvinha Góes

Sexta, 14

17h – Exibição do filme “O amante” + bate-papo com Catarina Andrade (Cineclube da Aliança Francesa Recife)
19h – Apresentação ao ar livre de violino e violoncelo

Sábado, 15

11h às 17h – Alegoria da primavera: encerramento dos festejos com performance da artista visual Isabela Faria, performance musical de tango de Mayra Clara Vitorino, mercadinho de quitutes, música e dança. Participam do mercadinho: Kovacic A Arte de Cozinhar, Ana Claudia Frazão, Siwichi, Vegetariano, Sociedade Vegana Brasileira, Lucas Piubelli, A Comedie, Nathalia Mesquita Drink’s, Mrs. Peppers – Charcutiere, O Tapete Mágico e outros.

SERVIÇO:

Descobrindo Marguerite Duras
Quando: De 6 a 15 de novembro, com pré-abertura no dia 5 para convidados
Onde: Aliança Francesa do Derby (Rua Amaro Bezerra, 466)
Acesso gratuito, com entrada a R$ 15 para a peça “Não importa se tu me amas. Eu sou Duras”

Lançamento de livro sobre 64

Saindo pela nova Editora Resistência Cultural o mais novo livro de Aristóteles Drummond, “Um caldeirão chamado 1964”. A obra retrata a versão de Drummond sobre os acontecimentos que inauguraram o regime militar instaurado após a deposição de João Goulart, e atualmente alvo do escrutínio da Comissão da Verdade. Fartamente ilustrado, o livro traz apresentação do Gen. Leônidas Pires Gonçalves, prefácio de Marco Maciel e posfácio de Paulo Henrique Cremoneze. A organização é de José Lorêdo Filho, com capa e projeto gráfico de Caroline Rego. Obra que tem tudo para levantar polêmica.

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Tradutores pernambucanos

O JC de hoje vem com uma interessante matéria de Carolina Leão sobre tradutores em Pernambuco. Confiram:

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» LITERATURA
Traduzir significa verter uma paixão
Publicado em 13.06.2010

Mais por diletantismo do que pela recompensa financeira, tradutores pernambucanos de várias gerações se dedicam ao ofício de passar para o português autores de suas preferências

Carolina Leão

Especial para o JC

Traduzir, como exercício diletante, sempre foi sinônimo de status para intelectuais, políticos e diplomatas pernambucanos. Menos elitista nos dias atuais, a arte continua sendo produzida, porém, por uma minoria. Poetas, artistas solitários, pequenos grupos de intelectuais que se reúnem para discutir poesia e, certamente, analisar as versões criadas por escritores para clássicos da literatura universal. Associados à criação poética, tradutores como José Lira, Everardo Norões, Diego Raphael e Artur Ataíde mostram uma produção que vem se destacando, pela regularidade com a qual vem sendo feita e a discussão que provoca. Gerações de tradutores que revelam, afinal, um modo particular de pensar a recriação de uma outra língua.

Artur, 28 anos, atualmente com a tradução do poeta inglês John Donne, cujo lançamento está previsto para o segundo semestre, pela equipe da revista literária Crispim, começou a ainda na graduação em Letras. Com Yeats, porque não havia encontrado equivalente apropriado do autor no nosso português. Para ele, a questão é cultural. “Raramente aprendemos, hoje, a ler poesia, a ouvi-la: esse problema, que começa nas escolas e atravessa a universidade, acaba reverberando nos últimos elos dessa cadeia, ou seja, nas próprias obras de poesia e de tradução”, acredita.

Artur já trabalhou com produções em italiano, inglês e alemão. Seu processo criativo começa na relação de intimidade mantida com o texto original. “No caso dos poemas, é muito comum que os acabe decorando, deixando-me contaminar o máximo possível com seus ritmos, além meditar o mais cuidadosamente possível sobre a importância de quaisquer vocábulos-chave”, completa.

O tradutor José Lira, 64, se prepara para lançar o livro Emily Dickinson: novos poemas, sequência de tradução da escritora americana iniciada em 2006 e editada pela editora Iluminuras. Com a Editora Coqueiro, ele tem publicado traduções em folhetos de cordel (o próximo número tem Sonetos de Shakespeare). Lira conta que a motivação para a carreira surgiu quando resolveu se arriscar na tradução de O corvo, poema de Edgar Allan Poe que tem cerca de 20 versões no nosso idioma. “Conheci esse poema ainda criança, há quase meio século, através de Machado de Assis. Na minha época, vivendo no interior, a tradução era a única forma de entrar em contato com a literatura universal”, detalha.

A pernambucana Ana Helena Souza, 44, atualmente morando em Belo Horizonte, se especializou em Beckett, embora tenha traduzido T.S. Eliot, Emily Dickinson e George Orwell. “Beckett é um autor de uma prosa extremamente elaborada tanto em inglês quanto em francês. Era um autor bilíngue e autotradutor dos seus textos. Ou seja, um prato cheio para quem gosta de tradução. Daí decidi traduzir Como é, que ainda era inédito no Brasil, e fazer um estudo sobre a sua prosa”, detalha. Depois disso, veio o convite da Globo Livros para fazer traduções de Molloy e O inominável, que estavam esgotadas no Brasil desde os anos 80.

Aos 82, Milton Lins é um tradutor tardio. “O escritor Edson Nery diz que nunca vi ninguém aproveitar tanto a aposentadoria tão bem quanto eu”, brinca. Ele publicou seu primeiro livro traduzido em 98, com poemas de Rimbaud. Com 17 publicações literárias, sendo 10 delas de tradução, Lins acaba de receber um prêmio de tradução da Academia Brasileira de Letras.

Diego Raphael, 34, também se aventurou pela tradução ao perceber que poderia traduzir textos ainda sem versão em português. “Comecei a fazer pra mim, do jeito que eu queria que elas fossem”, conta o tradutor, que começou com os sonetos de Miguel de Cervantes. Depois de um tempo, Diego fez uma antologia dos poemas que gostava e poderiam ser traduzidos por ele. Estudou hebraico, grego, italiano e aprofundou o inglês e espanhol. “É meio viciante conhecer uma língua. Não só do ponto de vista linguístico, mas histórico. Você começa a entender a região, o curso da história. Compreende melhor o ser humano. Passei a entender melhor o que era uma língua e o homem traduzindo. Para mim, foi mais importante que ler Freud, Aristóteles e Platão”.

Recentemente, Diego teve uma de suas traduções, Vida nova, de Dante, plagiada pela Martin Claret. “A edição mudou uma coisa ou outras, mas a essência é a mesma”, explica. Ele detalha que somente o próprio tradutor pode perceber quando foi plagiado, porque cada artista utiliza as suas alternativas técnicas e estéticas para dar sentido à ideia que quer passar com a recriação.

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Tradutor no Brasil tem pouco valor
Publicado em 13.06.2010

A modernidade é reconhecida, na arte, pela assinatura, o estilo individual, a subjetividade. Todas as escolas e tendências modernas se valem do artista como sujeito único, autor de uma obra, que, muito embora, seja entrecortada pelo contexto histórico no qual ele se situa, sobressai-se em visibilidade justamente pela assinatura do autor. O ofício da tradução, no entanto, é o que menos colhe os louros dessa lógica.

“As pessoas simplesmente não prestam a atenção na tradução. Ela é desvalorizada e mal paga”, acredita o doutorando em teoria literária da UFPE Conrado Falbo, 28 anos. Ainda que as premiações atualmente dediquem condecorações específicas à tradução, o campo ainda sofre com sua obscuridade compulsória. Raramente, as capas de livro trazem o nome do tradutor, embora também seja dele o processo de resignificação, ou criação, de uma ideia produzida em outra língua.

O assunto tem ficado acalorado com a discussão sobre direito autoral. “Há poucos dias, assinei um manifesto, encabeçado pelo poeta e grande tradutor, Ivo Barroso, de apoio à Denise Botmann, tradutora que vem fazendo uma campanha extremamente importante contra o plágio e o mal uso da tradução por certas editoras. Enviei o teor da petição a vários escritores de Pernambuco, mas verifiquei depois que pouquíssimos assinaram a lista”, lamenta Everardo Norões, 66. Denise Botmann mantém hoje o blog www.naogostodeplagio.com.br, onde discute tradução, estética e sua legalidade.

“Penso que o trabalho de tradução no Brasil é pessimamente pago e certas editoras usam de expedientes, inclusive o plágio, para não remunerarem como deviam um trabalho intelectual sério. Ora, se não começarmos a tomar posição em torno de questões dessa natureza, o que acontecerá depois? Vamos deixar de abrir espaços para muitos intelectuais jovens, de vocação literária, que encaram a tradução com o devido respeito”, acredita Norões.

José Lira defende que fazer poesia no Recife é um empreendimento autoral: “As editoras locais não dispõem de estrutura empresarial por ser baixo o retorno mercadológico nessa área. Mas é preciso também ter em mente que traduzir poesia não é ofício que se aprenda na escola, é mais uma aptidão pessoal que tem a ver com os dons artísticos de uma pessoa e não com a sua capacitação profissional”.

Ana Helena, que saiu do Recife para fazer pós-graduação em São Paulo, no final dos anos 1980, destaca, porém, que o endereço do tradutor não tem a menor importância hoje. “Agora moro em Belo Horizonte e faço trabalhos para uma editora sediada em São Paulo. Não vejo por que não poderia trabalhar como tradutora também no Recife”.

Apoio a revistas literárias

JC de hoje, num bom texto de Carolina Leão, levanta o debate sobre o resultado de subsídios do governo federal a revistas, que acabou deixando de fora algumas produções culturais:

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» POLÍTICA CULTURAL
Revistas literárias ficam sem apoio
Publicado em 21.04.2010

Exigências colocadas pelo edital do Ministério da Cultura, voltado para publicações de arte, impossibilitam participação de pequenas editoras

Carolina Leão

Existem 4.432 títulos de revistas sendo publicadas no País atualmente. Um mercado opulento que, confirma a Agência Nacional de Editores de Revistas (Aner), produziu 4,3 bilhões de reais, só no último ano. O segmento de cultura, apesar do status que sempre teve no imaginário jornalístico, representa apenas 3% desse movimento, segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC).

Prestigiado no seu nicho, integrado por intelectuais, artistas e formadores de opinião, o setor de cultura vive um processo de eugenia, sendo consumido e lido, em sua maioria, por sua própria cadeia produtiva. O Edital de Periódicos de Conteúdo Mais Cultura, do MinC, aberto no segundo semestre do ano passado, deu um passo à frente na popularização do setor. No entanto, seu resultado, divulgado no último mês de março, vem sendo questionado por editores como Ademir Assunção e Marcos Losnark, da paranaense Coyote, que se submeteu à licitação e hoje critica a contemplação de revistas consideradas comerciais, como a Rolling Stones – franquia nacional da conceituada revista pop americana. Nos blogs literários, a discussão aumenta e se distorce. No Academia Mutante, por exemplo, as revistas Caros Amigos e Speak Up estão erroneamente como contempladas.

O edital, aberto em setembro de 2009, diz que poderiam participar da seleção pública “pessoas jurídicas, com ou sem fins lucrativos, que tenham por ofício a publicação de impressos de periodicidade mensal, bimestral ou trimestral distribuídos em território brasileiro, com ênfase mínima de 35% do conteúdo direcionado para cultura e artes”. Ao todo, concorreram 60 revistas, sendo quatro e, posteriomente, nove eleitas. São elas: Rolling Stones, Viração, Raça Brasil, Brasileiros, Piauí, Cult, Carta na Escola, Jornal Rascunho e Fórum Outro Mundo em Debate. Todas analisadas por dois integrantes da comissão paritária que utilizou como parâmetro a proposta editorial, a qualidade estética, o compromisso socioambiental e a repercussão de cada publicação.

A concentração de projetos inscritos seguiu um padrão convencional. O Sudeste marcou presença com 45 títulos, sendo 31 deles apenas do Estado de São Paulo. No Sul, foram nove e, no Nordeste, cinco. O edital teve apenas um projeto da região Centro-Oeste. O investimento total está orçado em R$ 2,1 milhões, com a aquisição, pelo MinC, de sete mil assinaturas de cada um desses periódicos, a serem distribuídos em bibliotecas públicas, Pontos de Leitura, Pontos de Cultura e outros equipamentos e espaços culturais. Um detalhe: as próprias revistas ficam encarregadas da sua distribuição, do Oiapoque ao Chuí. Tarefa bem mais difícil para as publicações independentes.

“Aparentemente, parecia um edital muito bom que abriria a possibilidade para publicações menores aumentarem sua tiragem e leitores. Mas o resultado foi trágico. O que se viu foi a contemplação de revistas já constituídas no mercado editorial”, lamenta Marcos. Segundo o editor, a reprovação da Coyote, que tem apoio da Prefeitura de Londrina, foi por questões técnicas, difíceis de serem cumpridas em publicações não comerciais. “Eles pediam assinatura e site por mais de três anos, um papel específico, o ecológico. Só revistas de mercado conseguem atender a esse padrão”, defende o editor da publicação, que existe há cinco anos e já lançou mais de 180 poetas.

Fabiano dos Santos, diretor do programa Livro, Leitura e Literatura, do Ministério da Cultura, concorda com a crítica de que publicações literárias como a Coyote, tradicionais no Brasil, ficaram de fora no resultado final. Mas adianta ao Caderno C que em maio será lançado um novo edital especialmente voltado às publicações literárias. Para ele, no entanto, as exigências cobradas pelo MinC foram mínimas. “Era só a editora verificar, na gráfica mesmo, o número de tiragens. Algumas revistas não conseguiram comprovar e foi dado um prazo para elas ”, coloca. Sobre as críticas a revistas comerciais contempladas, Fabiano destaca que os critérios de análise são subjetivos da comissão, formada por pesquisadores e professores universitários, membros da sociedade civil. “O MinC nunca é maioria na comissão”, coloca.

A Rolling Stone não quis se pronunciar diretamente sobre o resultado. Por meio da assessoria de comunicação, a publicação afirmou que cumpriu todas as exigências solicitadas e, por sua reconhecida qualidade, foi contemplada pelo edital de fomento a publicações. “A escolha pelo Ministério da Cultura ocorreu de maneira absolutamente transparente e rigorosamente dentro das exigências da legislação”, detalhou, pela assessoria Linhas e Laudas.