Originalmente publicado em www.cronopios.com.br
Por Luis Dolhnikoff
Nota: o que se lerá abaixo é o ensaio originalmente escrito, a pedido de Bruno Tolentino e da Editora Globo, como introdução à edição do último e talvez mais importante livro do poeta, A imitação do amanhecer (2006). Por razões editoriais, o livro veio a público sem introdução. No entanto, passagens deste ensaio foram utilizadas para compor o texto da orelha. Como, porém, a composição final deste não foi de minha autoria, apesar de contar com minha anuência, a orelha saiu sem assinatura. Partes do texto da orelha foram largamente reproduzidas na imprensa especializada, e reaparecem na íntegra no ensaio aqui dado enfim a público, em homenagem póstuma, mas não tardia, ao grande poeta e amigo agora perdidos.
A famosa crise do verso, tendo sido extensa e profunda, foi a crise, isto é, a dúvida, a dificuldade, a deficiência, a incerteza, quanto às suas manifestações históricas, incluindo não somente as formas fixas que o envolviam, como também os aparatos estético-ideológicos que o recobriam (ser a representação da Beleza, da Natureza, do Espírito, entre Outros). Mas foi, ao mesmo tempo, a crise, ou seja, o reparar, o distinguir, o discernir, o acusar, daquilo que no verso não é forma que o envolve nem aparato que o recobre. E isto, não paradoxalmente, se se atenta para a etimologia de crise[1][1], resulta em ser não menos, porém mais do que tais formas e aparatos. O verso não morre, renasce com e na crise dos séculos 19 e 20. Não apenas ao se tornar o verso “livre” (das formas fixas), nem tampouco por também se tornar livre de aparatos estético-ideológicos, mas porque o resultado de tais libertações confluentes é maior do que a soma das partes. Pois resulta numa situação qualitativamente distinta, como aponta Eliot: “a unidade interior que é peculiar a cada poema, contra a unidade exterior que é apenas típica”[1][2] (unidade interior peculiar: daí não se poder descrever um poema – mas poder-se resumir um romance -: pois como ele é, é indissociável do que diz). O verso, assim como as formas finais que agora determina no poema, deixa de ser então um a priori para se tornar um a posteriori: não uma fôrma, uma forma ou uma fórmula, mas um fato estético.
Antes, porém, de se realizar em tal fato (ou artefato), o verso realiza uma linguagem. Pois além das conhecidas figuras de relações sonoras, que podem ser reproduzidas na prosa, como rima, aliteração, assonância, possui uma série de figuras não-verbais, como ritmos, espaçamentos, cortes e enjambements. Elementos particulares, definidores de sua especificidade lingüística – e fiadores de sua necessidade. Porque existe, em conseqüência, o que só pode ser dito em verso (porque só o verso pode dizê-lo). Logo, se o verso não existisse, seria necessário criá-lo. E se acaso não persistisse, imperativo recriá-lo.
A Imitação do Amanhecer é, à primeira vista, um (vasto) conjunto de sonetos. A unidade interior do poema deve, então, ser buscada em cada soneto. Porém, mais do que um conjunto de sonetos, A Imitação do Amanhecer é um conjunto articulado de sonetos. Não se trata, enfim, de um conjunto de sonetos, mas de um metapoema, ou super-poema, integrado por 538 sonetos-estrofes. Por outro lado, se cada soneto é, assim, quase como uma estrofe do poema-livro, é ainda um soneto na acepção da palavra e na completude da forma. Há, portanto, ao menos duas unidades interiores peculiares: a de cada soneto e a do poema-livro.
Como o pião rodando só, como um pião,
como o delírio circular do beduíno
na areia solta, como essa revolução
interminável, esse único genuíno
sentido da paixão do ser, como o contínuo
sem sentido do ser, girândola na mão
da imperfeição, rodopiando ante a noção
do centro imaginário, o ponto repentino
e migratório do precário, do destino
andarilho do corpo, esse brilho em que vão
se reunindo e dispersando o desatino
e seus fantasmas convergentes, coração,
é assim que vais da Alexandria da emoção
à Meca do real, coração peregrino…
(II 129)
José Guilherme Merquior, na apresentação do livro de estréia de Tolentino, já apontava o “atropelo dramático dos enjambements”[1][3], no que parece uma referência premonitória a este poema. Todo ele articulado pelo transbordamento de um verso no seguinte, pela não completude do sentido da frase. Poética, sintática e semanticamente, há aqui uma impregnação pela qual o que se diz e o como é dito determinam-se mutuamente, num todo, digamos, orgânico. E organicamente fugaz. Assim, ao longo dos versos encadeados, um único período desenrola-se como se “turning and turning in the widening gyre”, nas palavras de Yeats, para convergir… para a palavra convergentes: quando, no 12o verso, dá-se a primeira pausa gramatical, com a aparição, afinal, do sujeito, o “coração”.
Rodando, pião, circular, rotação, girândola, rodopiando, migratório, andarilho, peregrino, diz o poema: daí que, estruturalmente, a disposição das rimas, que são sempre as mesmas (“correndo” assim por todo o poema), também “gira”, de ABAB na primeira quadra, para BAAB na segunda, e de BAB no primeiro terceto, para AAB no último. Quanto à métrica, tradicionalmente, o que significa que também mnemonicamente, esperar-se-ia encontrar versos de 10 sílabas num soneto (ou menos, em suas versões modernas). O verso de 12 sílabas aqui usado é, portanto, pouco comum: porém, muito pertinente, com seu comprimento e tempo de duração maiores, para um poema em que tudo, digamos, gira em torno do movimento. Tampouco é desimportante o fato de que esse verso se chama alexandrino: “é assim que vais da Alexandria da emoção / à Meca do real, coração peregrino…” – assim, isto é: em alexandrinos. A unidade interior peculiar do poema é, em quase todos os aspectos, exemplificada de forma cabal (quase, pois ainda nada obriga à forma soneto).
Isso, porém, não impede que essa unidade se exteriorize. Na verdade, aqui o determina. O poema, portanto, realiza-se em dois níveis. Se descreve metafórico-sintaticamente, em versos alexandrinos, como o coração vai da Alexandria da emoção à Meca do real, também refere e sintetiza o próprio livro – de que esse soneto, mais que um exemplo, é um caso exemplar, disposto quase no centro do poema-livro. Pois este é uma vasta recapitulação do mesmo percurso, a partir de um encontro amoroso acontecido na cidade mediterrânea.
As unidades interiores de cada soneto, em suma, vivem a e na tensão de sê-lo e, ao mesmo tempo, transbordar num todo maior que as engloba. Ocorre que, a par daquela recapitulação, este é o tema do poema-livro: a relação entre o instante, que existe na sua unidade interior, sem a qual a vida não seria senão caos, e o tempo, no qual o instante se ultrapassa enquanto o constitui, rumo ao caos final da morte. Cada soneto, enfim, é a representação (mas não a descrição), o ícone de um instante, enquanto o livro assume a dimensão de representação do tempo. Não são por acaso as epígrafes de Borges.
São em alexandrinos, portanto, todos os sonetos deste livro. Alexandrino que é o limite da poesia. Pois verso “livre” não significa verso sem qualquer medida, mas liberto da regularidade da medida: para além do alexandrino, está a prosa. Um soneto em alexandrinos une, assim, o verso de certo modo menos poético (mas ainda um verso na acepção da palavra) à mais caracteristicamente poética das formas fixas. Haverá, para isso, um motivo eliotiano.
A estrutura, mais do que meramente ter, é em si mesma um significado. O que determina a forma dos poemas de A Imitação do Amanhecer, para além da mera adoção à primeira vista convencional (em mais de um sentido) de uma forma fixa, é a tensão entre a contenção de seus parâmetros invariáveis e a lassidão quase-prosaica do alexandrino. Entre a forma mais fixa e o verso mais frouxo. O soneto de A Imitação do Amanhecer é, assim, como o organismo que, submerso num meio hostil ou pobre de nutrientes, para sobreviver enrijece sua carapaça. Porém um organismo que falha em adotar a estratégia complementar à fixidez do envoltório, que é congelar seu metabolismo. Porque é próprio da (grande) linguagem poética “esquentar” o metabolismo da linguagem verbal. Daí que o poema, fechados os poros comunicativos com um tal meio, mas mantido seu “calor” metabólico, ameaça se dissolver por dentro. A forma fixa não é mais sinônimo de fixidez, mas o contrário.
Os poetas sempre souberam que a aflição se dissolve no canto. É o conhecimento da catarse do sofrimento mediante sua transformação em linguagem formal mais elevada. Mas apenas no século XIX, quando o sofrimento com uma finalidade passou a sofrimento sem finalidade, à desolação e, por fim, ao niilismo, as formas tornaram-se, tão imperiosamente, a salvação – conquanto fechadas em si e repousantes – entrando em dissonância com os conteúdos inquietos. Voltamos a deparar com uma dissonância fundamental da poesia moderna.[1][4]
A passagem refere-se a Baudelaire, e pretende explicar a aparente contradição entre a modernidade temática do poeta urbano e o convencionalismo de sua linguagem poética, com a predominância do soneto clássico. No século 21, conquanto sempre fechadas em si, as formas fixas nada têm de repousantes – ao menos nas mãos de um poeta como Tolentino. Não entram em dissonância apenas com os conteúdos inquietos, mas consigo mesmas, contendo, nos dois sentidos (contraditoriamente), a dissolução do canto. “[...] como o contínuo / sem sentido do ser, girândola na mão / da imperfeição, rodopiando ante a noção / do centro imaginário, o ponto repentino // e migratório do precário [...].”: tema, verso e sintaxe turbilhonam nos limites da forma fixa.
Quanto à unidade peculiar do poema-livro, seu tema central não é nem o amor nem o tempo – apesar de o tempo e o amor serem temas reiterados do livro –, mas a morte – ainda que a morte não seja o tema explícito dominante. Morte que é como o mito de Pessoa: o nada que é tudo. Pois a morte não tem existência positiva, ao ser a ausência de uma existência outra. Daí que o tema do livro seja, enfim, a relação entre a presença e a ausência. O maior dos temas. Que Tolentino enfrenta num livro grandioso: de um lado, vasto; de outro, carregado de grandes poemas; e por fim, polissêmico (os 538 sonetos dividem-se em três “movimentos”, como num concerto, sendo o “solista” o poeta-narrador, que emerge e recua por entre a “orquestra” de metáforas que desenvolvem o tema).
Sua polissemia fica talvez mais evidente na passagem da primeira parte, “As Epifanias”, para a segunda, “As Antífonas”. Pois a abordagem metafórico-circunstancial daquela torna-se metafórico-conceitual nesta, quando a (quase) narrativa de alguns episódios particulares de um encontro amoroso ocorrido em 1922 em Alexandria (segundo relato de E.M. Forster), dá lugar a um questionamento sobre a natureza da História, do Ocidente e do Oriente (e também da primeira parte).
A História, “a lenda do ser” (II 72, v. 1), soma de circunstâncias que resulta numa subtração. Tal soma, ou, como prefere Tolentino (polissemicamente), tal cifra, não é necessariamente maior que o conjunto de seus elementos, mas dele distinto. Pois integra (e é integrado por) algo que está aquém e além das circunstâncias, ainda que afeita a elas: a memória. A poesia se torna, então, uma elaboração da memória, memória que é uma elaboração da vida (o que espelha – e desloca – a concepção platônica da poesia como imitação de uma imitação, a realidade, imitação do Mundo atemporal).
Não, porém, apenas uma elaboração da memória. Porque a poesia (ou ao menos certa poesia) também elabora conceitos. E de um modo tal que se consubstancia, por sua vez, não mais numa elaboração de nada, mas num acréscimo à realidade.
“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”: isto vale para a química, a culinária, os corpos dos seres vivos e os corpos celestes. A exceção é o fato estético. Ainda que a poesia seja feita das mesmas palavras da língua cotidiana, ela é mais do que essas palavras, não por ser “inspirada”, mas por ser, de fato, aquilo que não está nas palavras em si mesmas, e que só existe em certos arranjos de palavras, assim como a música não está numa nota isolada ou em qualquer arranjo de notas. As relações formais, que numa arte de palavras são também relações de significado. Daí as palavras, na poesia, terem significados outros, sem perderem os significados ordinários. E que são, não apenas formas de significado, mas os significados das formas. O jogo de perdas entre a presença efêmera e a ausência que cresce indefinidamente a cada instante esvaído, e que existe para se esvair, e portanto para incrementar a ausência, desequilibra-se um pouco menos pela presença do poema.
Perder é ganhar a perda. Se perder fosse apenas deixar de ter, seríamos como uma árvore, que tem frutos e os perde, simplesmente. Mas isto não é dado a seres conscientes. Temos, perdemos e ficamos com a perda. A perda, portanto, não é uma ausência, mas uma presença – ainda que seja a presença da ausência. Se não podemos simplesmente perder, isto é, nos desprender da perda assim como o perdido se desprendeu de nós, não é ilusório nem será inútil tentar arrancar à perda presente algo distinto dela mesma: impossível é fazer qualquer coisa de uma ausência. A impossibilidade de perder a perda gera a possibilidade de ter algo além da pura perda. Seja a saudade, a memória ou a arte.
Herdei aquilo que perdi e fiz do mal
de haver herdado este rascunho fantasmal.
(I 122, vv. 8-9)
Ao lado de “Alexandria”, lugar de epifanias e metáfora da história, do mito, do humano mas impessoal, a outra metáfora dominante no livro é o “coração”, o indivíduo, a memória, a dor pessoal. Sintetiza, portanto, a voz individual, que é a do próprio poeta-narrador-personagem. Não obstante, não se trata do eu lírico.
Em uma carta, fala da ‘intencionada impessoalidade de minhas poesias’, com o que se entende que elas podem expressar qualquer possível estado de consciência do homem, com preferência os mais extremos. ‘Lágrimas? Sim, mas aquelas que não vêm do coração.’ Baudelaire justifica a poesia em sua capacidade de neutralizar o coração pessoal. Isto acontece de maneira ainda tateante, muitas vezes encoberto debaixo de concepções mais antigas. Mas ocorre de tal modo que se pode conhecer o futuro passo da neutralização da pessoa para a desumanização do sujeito lírico como uma necessidade histórica. De qualquer forma, contém já aquela despersonalização que, mais tarde, será explicada por T. S. Eliot e outros como pressuposto para a exatidão e a validade do poetar.[1][5]
Embora se refira a Baudelaire e ao conjunto de sua obra, a passagem parece estranhamente se referir ao Tolentino de A Imitação do Amanhecer (entre outras coisas, porque este se justifica na capacidade poética de neutralizar o coração pessoal também no que ele é metáfora da dor).
A demonstração de que a despersonalização se impõe à própria memória está no fato de que os (belíssimos) poemas da primeira parte descrevendo as circunstâncias (se se pode dizer assim) de uma série de epifanias estético-amorosas não têm seqüência (ainda que tenham conseqüência) nas partes seguintes – apesar das promessas iniciais do narrador (“Tenho uma longa história a contar…” [I 9, v. 2]). Mesmo que se possa argumentar ser este, afinal, o próprio drama em questão: o da perda do instante incomum. O livro assume, assim, o caráter de um longo canto da falta, falta que se materializa no próprio predomínio da metáfora sobre a descrição (e não qualquer metáfora, mas a grande metáfora que se torna a cidade de Alexandria, lugar por excelência do não-lugar, por conter em si todos os lugares, logo, lugar nenhum, Ocidente e Oriente, passado e presente, mito e memória). Como se, apesar da recuperação daqueles instantes em alguns dos mais belos poemas da parte I, ou melhor, por causa dela, nada mais pudesse ser dito do instante em si.
Esses poemas, portanto, funcionam como imitações do instante que descrevem: por terem se concretizado no início do livro, não se recuperam neste livro que, de certa forma, existe para o recuperar. Logo, o instante é recuperado nessa quase impossibilidade de recuperação. Quase que é o espaço exíguo de possibilidade da arte. Arte que existe, enfim, para expandir o quase, mesmo se jamais possa expandi-lo até o transmutar em quando – promessa, não da arte, mas da religião (e assim evocada perto do final do livro).
Referi-me acima às epígrafes, todas de Borges, um romântico – no sentido do romantismo alemão – que adotava o estilo do racionalismo (seguindo a lição de Kafka, um fabulista – isto é, um moralista – que adotava o estilo do realismo). É romântica, schellinguiana, a visão de mundo que rege sua literatura, em que o subjetivo e o objetivo são igualmente reais. Daí a imaginação poder ser uma forma de conhecimento do mundo real, ou o mundo real uma extensão da imaginação: “Negar a eternidade, supor a vasta aniquilação dos anos carregados de cidades, de rios e de júbilos, não é menos incrível que imaginar seu total salvamento”, reza a epígrafe de “As epifanias”. Tolentino, porém, é, malgré lui même, um racionalista, a quem a imaginação não pode salvar. Daí não poder salvá-lo a literatura, no sentido lato, mas sim a poesia, vale dizer, a real transformação do subjetivo em objetivo pela forma. Transformação que tem de ser empreendida, concretizada pelo artista, precisamente porque subjetividade e objetividade não se confundem. É a insuficiência do mundo real face às demandas do “coração”, que não existiria caso fossem identificáveis, o que obriga a intervir materialmente, realistamente, no mundo real, o que a imaginação não faz, mas sim a obra em si. A epifania vivida está morta porque foi vivida: esta a crueldade essencial da realidade, do tempo e da razão, que aponta com sua luz fria a crueldade essencial do tempo e da realidade. A poesia, então, transforma-se em algo como uma hipofania: não uma revelação, mas um seu reflexo, complementar ao da memória. Que ocupa, enfim, o vazio entre a realidade vivida e a memória que a reaviva, mas não a revive. Tampouco a poesia o faz: mas não o faz de um modo diferente, e, de certa forma, mais real, que o não fazer da memória (ou da imaginação).
[...] Um dia, ante um açude
da minha meninez, comparei a altitude
e a placidez de um par de luas: uma viva,
altiva, e a outra o rosto da Ofélia suicida;
deduzi do desdobramento do universo
entre a imagem e o reflexo, a explicação da vida,
a senha para o ser, e enganava-me – o inverso
do que amei e perdi também não tem medida,
Alexandria e a luz não cabem no meu verso.
(I 5, vv. 6-14)
Cabem, porém, num conto de Borges. Talvez por isso Borges seja tão (relativamente) popular, ao contrário de Kafka. Borges é um escritor religioso, no sentido lato, Kafka, um órfão da religiosidade. Já Tolentino é um homem religioso, de uma religiosidade, porém, de que este livro é órfão, em que pesem certas passagens.
Além dos poemas de abertura, talvez a seqüência mais bela do livro seja a dos sonetos 39-47 de “As Antífonas”, na qual Tolentino versa sobre o deserto, o deserto norte-africano, como um entomologista dissecando um inseto, ou seja, em todas suas características e articulações, não fosse o fato de que aqui a descrição se integra e entrega à metáfora, ou melhor, às metáforas em profusão, sem prejuízo de sua clareza aguda e da agudeza de seu encadeamento, em meio à plasticidade magnífica das imagens e ao brilho cristalino dos conceitos.
Em contraste, a seqüência dos sonetos 63-71 da mesma parte é em clave discursiva, e o discurso em questão é o da teologia cristã, vale dizer, a afirmação militante da Verdade do Cristo. E esses sonetos, em sua certeza sólida, convencem paradoxalmente menos. A Imitação do Amanhecer articula, longa e complexamente, duas imaterialidades: “do passageiro ao cognoscente”, como diz o verso 11 do soneto 21 de “As Antífonas”. O que fica de tudo que passa, ou seja, de tudo que se vive, é o conhecimento da passagem. O termo que resolve e não resolve a equação é uma materialidade: o próprio poema-livro que se lê. A introdução de uma solução outra, uma terceira Imaterialidade, a do Cristo, apoiada em sua condição maiúscula, em si mesma anula – ou anularia, se funcionasse –, como um deus ex machina, a solução inerente ao poema-livro, isto é, sua própria razão de ser. Porque se tudo se resolve em Cristo, nada deveria resultar no poema. Pois a vida e tudo que nela é dúvida se resumiriam a uma espera pela Segunda Vinda. Verdade que isto jamais impediu a existência de uma poesia cristã: porém, não por acaso, sua melhor realização é em clave de êxtase, louvor ou temor.
Não surpreende, então, que o que se explicita em tais sonetos de certo modo imite sua condição em relação ao livro em si. Pois tais sonetos se impõem ao livro assim como o Cristo se imporia ao mundo: apesar de tudo. No caso do livro, apesar do livro, no caso do mundo, apesar mesmo da eventual condição não-cristã de parte dele:
[...] a Perfeita Presença
não é um personagem ou uma noção, é um quisto,
uma intrusão carnal por sob o imaginário
de cada ocidental. Que pode não segui-Lo,
reembobinar a História, ater-se a isto ou àquilo,
e dar o resto às Parcas… Mas resta que, ao contrário
do óbvio e do imprevisto, o Verbo, a Forma e o Estilo
são o Corpo do Cristo, o uno por trás do vário.
(II 63, vv. 7-14)
Teologicamente, faz sentido: pois se não for assim, o Salvador da humanidade não é o Salvador da humanidade, logo, não é nada. O nó górdio incontornável é que parte da humanidade não é nem pretende ser cristã: logo, o “uno” cristão não é uno senão para uma parte do “vário” da humanidade. Que essa parte afirme tal unicidade não afirma tal unicidade para as demais partes: a humanidade é, teologicamente, vária. E como a afirmação de uma parte não vale mais do que a afirmação de outra (por exemplo, de outro deus ou deuses), por falta de um árbitro externo à própria humanidade e suas partes, e que fosse por todas reconhecido como tal, toda afirmação teológica que se pretende universal é tão teológica quanto política.
Há ainda uma terceira seqüência a destacar, a dos sonetos 103-116 de “Os Noturnos”. Centrada na mesma imagem de um grande cervo visto à contraluz, ante o céu imenso de um frio crepúsculo nórdico, traduz-se formalmente pelo recurso anafórico de terminar cada soneto com a mesma palavra: “agoniza”. Outra coisa que não muda é a beleza reiterada desses versos, culminando no verso final da seqüência: “Numa saudade é a eternidade que agoniza” (III 116, v. 14). Alexandria, a Alexandria que perpassa obsessiva cada página do livro, é, enfim, a grande metáfora da vida: nela tudo acontece ao corpo, aos sentidos, à mente, à memória e à imaginação de cada um da multidão infindável que a habita no tempo e no espaço (e que é por ela habitado). Desdobrando-se num conjunto perfeitamente equilibrado de 14 poemas de 14 versos, que espelha o equilíbrio sereno do grande animal estático, o cervo parado sozinho contra o céu esplendoroso de um crepúsculo vasto, vazio e lento é, por seu lado, uma grande metáfora da morte, e por paradoxal que seja, também da vida que se revela quando morre: o ser solitário contra a pletora de luzes que dançam ao largo. Segundo o poderoso imagista que é Tolentino, “na dilaceração / contínua das cortinas da luz” (III 108, vv. 2-3). A cena é nórdica, mas não é por isso que a mediterrânea e luminosa Alexandria parece se transmutar nesse céu presente porém distante: ao fim e ao cabo, a luz sempre foi intangível, ainda que pudera ter parecido palpável na velha e carnal cidade. A relevância dessa seqüência fica evidente ao final do livro, que terminará com a mesma palavra: “agoniza…”.
É perto desse final que o título do poema-livro assume sua tradução mais poderosamente imagética. Por um lado, o poema-livro é ele mesmo uma imitação do amanhecer, revivificação perto do crepúsculo de uma existência; por outro, a imitação do amanhecer é a própria Alexandria (II 99, v. 14), cidade-vida em meio ao anoitecer que é cada existência; por fim, a imitação do amanhecer é uma revoada de flamingos ao anoitecer. Flamingos são, como diz o nome, flamejantes, rosa-avermelhados. Numa revoada, assim como na aurora, as chamas que se espalham pelo céu se alçam. É belo, rápido e falso.
É que eles voam em direção ao Oriente
e o vão reensangüentando, tornando a tarde inteira
um longo archote oposto ao fim de uma fogueira
cadente, majestosa… Porque subitamente
o espaço se incendeia, a asa sai à frente
da luz que se rebela, e é sua companheira;
de ponta a ponta, o céu faz pensar na banheira
de Agamenon, na imolação, no ato demente,
no amor que mata, e ainda assim quer represar-se,
conter a hemorragia, a fuga, o tempo: dá-se
o impasse, e Alexandria, a velha esfinge cor
da hora indefinida, veste-se do esplendor
da vida que madruga, seu eterno disfarce
a alegoria da alegria no estertor…
(III 118)
Resta dizer da depuração de meios que permite sintetizar a sintaxe poética de Tolentino numa frase: a justa adequação entre o respeito à naturalidade da língua brasileira (conquista do modernismo) e o respeito à artificialidade da linguagem poética ocidental (conquista do que antecedeu o modernismo) – ainda que mais facilmente visível em alguns poemas do que em outros.
Se passei dos cinqüenta e das três da manhã
queimando maço atrás de maço; se me agarro
desamparadamente ao último cigarro
como Adão à serpente; se me tortura a vã
obsessão da queda, o sabor da maçã,
e ainda assim insisto em modular meu barro
e fazer dele a gaita, ou a flauta de outro Pã;
se largo tudo enfim e abro a janela e escarro
entre a vaidade, a noite e o carro do vizinho [...]
(I 114, vv. 1-9)
Sem tal adequação, a arquitetura deste poema-livro não poderia se erguer e sustentar, por falta de fluência. Também neste aspecto, portanto, há uma interdeterminação entre os níveis menores e maiores, mais internos e mais externos, mais profundos e mais superficiais. Num âmbito mais pessoal, porém, este livro significa, assim, a culminância da arte poética de Tolentino.
No entanto, aquela adequação não é tudo, no sentido de não ser um fim em si. Não se trata, afinal, de virtuosismo – ainda que de virtuosismo se trate. A poesia é fazer da língua o que ela não é, ao ser língua e não arte. Todo grande poeta, então, é um virtuose, que transforma o comum (o que é banal e o que é compartilhado) no incomum (o que é raro e não compartilhado, ainda que, agora, compartilhável). Mas não é um virtuose, porque o virtuosismo (e a virtude) de uma grande arte está na arte e não no artista.
Sabedor de que o custo de cada hesitação
entre um caminho e outro é como o preço pago
pelo dom de perder, como se de antemão,
um desses braços que se estendem para o vago,
sempre nalguma encruzilhada, acendo e apago
as hipotéticas lanternas que há no vão
da porta entreaberta da memória e repago
meu imposto ao vivido: o selo da emoção
do instante inapagável. Por exemplo, há uma esquina
em Ravena também, vestida da neblina
em que a deixei envolta sob o céu de Dezembro;
dali me acena às vezes o longo adeus de um membro
amputado a uma estátua de névoa, mas não lembro
ninguém naquela rua, rosto algum a ilumina.
(I 130)
Sons, metáforas e conceitos dançam aqui uma dança complexa. Assim, o verbo pago ecoa em apago e se desdobra em repago, para que a seqüência afinal se resolva, e não se resolva, na síntese que então se torna a palavra inapagável; a locução “de antemão” impregna o significado de “desses braços”; a expressão “Ravena também” ecoa com paralelismo perfeito de sons em “acena às vezes”, dois versos além, como “céu de Dezembro” em “adeus de um membro”.
Porém se a grande poesia transforma o comum no incomum, isto de pouco vale para o problema poético de Tolentino em A Imitação do Amanhecer. A formulação se refere, como foi dito, à língua. Nada há de comum, afinal, no périplo de Dante pelo inferno: trata-se, ao contrário, de tornar o raro comum – isto é, acessível – através da obra (já a língua da Commedia é, de fato, a língua comum, a língua do vulgo, o dialeto toscano). Em A Imitação do Amanhecer, o problema é de outra ordem: tornar o raro – isto é, a epifania – no comum, porém não no sentido de compartilhável (muito menos, naturalmente, no sentido de banal). Pois não se trata de narrar o acontecido, de o publicar, ou seja, de tornar pública (ou comum) a experiência vivida. Mas sim de tentar resgatar algo dessa experiência para si próprio, de transformar o incomum que lhe pertenceu um dia em algo outra vez compartilhável por ele mesmo. Tornar o passado incomum comum ao homem que o viveu e ao homem que, por tê-lo vivido, não o vive mais. Tornar, enfim, compartilhável a própria vida para aquele que a viveu, para além do pouco dessa vida que lhe é dado viver agora. Fosse isto, porém, ou seja, fosse só isto, e haveria um mero discurso solipsista. Se não há, não é porque a experiência particular do narrador deixe de sê-lo, mas porque sua verdadeira experiência não é, afinal, o instante epifânico de que parte, e sim a morte do passado no presente, a vida como acúmulo de cadáveres, ainda que a maioria esteja circunstancialmente viva (o que a distante epifania – como o grande farol de Alexandria não alterava o mar sobre o qual brilhava ao longe – apenas torna mais nítido, isto é, mais frio, escuro e profundo). E essa é a mais comum, a mais compartilhada das experiências humanas (portanto não exclui – ao contrário – as vidas perfeitamente banais).
Há, na história da poesia brasileira, outros exemplos de livros-poemas, ou ao menos de tentativas de livros-poemas, dos quais o mais notório é A Invenção de Orfeu (1952), de Jorge de Lima, e o mais recente, A Máquina do Mundo Repensada (2000), de Haroldo de Campos. A Imitação do Amanhecer guarda com A Invenção de Orfeu uma relação formal, pois também constituído por um conjunto de poemas (em lugar de ser um só poema longo). Não obstante, sem desmerecer seus momentos mais altos, que o são de fato, mais vale falar ali de um disjunto de poemas (nas palavras de Murilo Mendes, “um verdadeiro labirinto de temas, faturas, imagens e tendências, [...] poema-rio carregando tantas formas díspares”[1][6]). Quanto a A Máquina do Mundo Repensada, em que pese ser um poema longo, também adota uma só forma fixa, e tão antiga quanto o soneto, o terceto dantesco. Mas o faz por um motivo arbitrário (pretende remeter à “máquina do mundo” medieval, porém poderia ter adotado a oitava camoniana em remissão à “máquina do mundo” de Os Lusíadas, outra de suas referências) e de modo mecânico (para não falar do duvidoso de seu vocabulário e de suas metáforas, do equívoco de sua sonoridade e do arrevesado de sua sintaxe[1][7]). A Imitação do Amanhecer guarda com tal publicação, enfim, fundamentalmente uma relação temporal, ou seja, o serem contemporâneas. Mas isso ao menos indica que, num tempo de fragmentarismo, que aninha anomia, pouquidade e pequenez, a grandeza (aqui, em mais de um sentido), retorna, não paradoxalmente, como uma demanda (im)pertinente.
A grande quantidade de grandes poemas neste livro – ele mesmo um grande poema – não torna mais fácil referir uns em detrimento de outros. Por exemplo, o soneto I 10, equação de intelecção e metáfora, conceito e sentimento, idéia e afeto – o que, aliás, é o seu próprio tema.
O número, ou medida, e a aparição do ser
são dois antônimos exatos; eu queria
que fossem convergentes e pus-me a conceber
as músicas da mente, as artes da poesia,
como uma tradução da eterna geometria
impressa no fugaz. A luz do entardecer,
no entanto, eu já rapaz, não me deixou viver
em paz: por muito ambígua, jamais a soma fria,
os algarismos que Pitágoras sonhara;
somava-lhe os pedaços porque a mente não pára,
mas nunca dava com a medida imaginada.
Naquela tarde um pássaro de garganta cortada
afinal fez-me ver como a emoção separa
e une tudo outra vez às vésperas do nada.
Cabe aqui lembrar da poesia de Borges, e não por motivo das epígrafes. Uma poesia sempre ofuscada pela prosa (se mais não fosse, por ser esta um tanto superestimada, principalmente se comparada a seus ensaios e conferências). Poesia que tem, de certa maneira, vários nexos com a de A Imitação do Amanhecer. Tudo, porém, que as aproxima, temas, metáforas, formas, mais as afasta, pelo contraste dos resultados. Pois Borges parece algo esquemático ante as articulações da poética de Tolentino (compare-se o soneto acima, por exemplo, com o famoso Ajedrez II). Além do relativo esquematismo, falta em Borges a impregnação do texto por reverberações formais de seu tema, aqui evidente, por exemplo, na segunda estrofe, na qual a aparição da palavra fugaz deflagra a seqüência luz / rapaz / paz / jamais, que não apenas cria um eco interno, espalhando a idéia de fugacidade, como parece acelerar o texto por sua sonoridade sibilante.
Esse discreto, porém denso, substrato de elementos semântico-formais em meio à arquitetura geral do poema reaparece no soneto I 11, continuação explícita (“Voltarei a este assunto…”) da temática do soneto I 10 – o que nem sempre se dá de forma tão direta ao longo do poema-livro. Tal continuação é traduzida, em termos formais, pelo reaproveitamento das rimas internas em az, agora em posição distal (mais / atrás / fugaz / faz). É internamente, no entanto, que a integração morfo-semântica se realiza de forma mais profunda, principalmente na primeira estrofe.
Voltarei a este assunto, na certa, esta lição
vai me dar muitas voltas e elucidar-se mais
se eu conseguir ir-me achegando mais atrás,
revendo, ou revivendo, cada figuração
de um mundo geométrico, belo, mas sem razão.
Tinha razão aquele pássaro: o fugaz
é um mapa de limites e uma violentação
enunciada em cada cena; e tanto faz
se o canto é interrompido à altura da garganta
por mais uma violência feita a alguma criatura,
ou se o estrume do tempo engendra uma figura
perfeita, geométrica – é o enigma que canta,
e canta quando sai de cena outra escultura
e o último gesto dói, mas já não adianta.
As expressões centrais dos dois versos iniciais, voltarei, dar voltas, elucidar mais, são retomadas e traduzidas no terceiro verso: primeiro a idéia de deslocamento se materializa na repetição do verbo ir em “conseguIR IR-me”, pois para além do reforço do campo semântico, tal repetição faz o verbo se deslocar, ir de uma palavra a outra; depois, a palavra “achegando”, no contexto, deixa entreouvir claramente tanto os verbos ache (o que remete a elucidar) quanto chegando; por fim, a expressão “mais atrás” cria uma tensão com o “mais” do verso anterior, intensificada pela proximidade formal da rima: pois o primeiro mais conota um avanço (“elucidar-se mais”), enquanto o segundo denota um retrocesso (“mais atrás”), o que traduz a idéia inicial de dar voltas.
Os exemplos, literalmente, se sucedem. Assim, no soneto I 12, enquanto o verso 7 diz: “somaram então reflexos flutuando num rio”, os versos 8 e 9 “somam” reflexos sonoros desse rio: “cuja foz faz de fonte outra vez, e a medida // enredou-se-me à voz, voltou-me a aparecer”. Nada poderia ser mais sonoro que essa sucessão de ff, vv e zz, lembrando, por acumulação, o som de um curso d´água, que assim “aparece” no verso. Ao mesmo tempo, nada soma ou enreda mais as palavras foz, faz, fonte e vez do que voz, pois que se constitui no mínimo comum às demais, contendo, da cada uma, ao menos um caractere: oz de foz, z de faz, o de fonte e vz de vez.
No soneto I 17, a expressão de abertura, “Vamos atravessando”, irá se materializar nos versos 2 e 3 através de um duplo cruzamento: “Vamos atravessando, de surpresa em surpresa, / uma contínua ondulação itinerante, / uma longa cortina fugitiva, mas presa…”. COnTÍNuA se desdobra em COrTINA, ONDdulAção ecoa em lONGA. A figura sonora resultante atravessa a estrofe (e reforça o campo semântico, pois a ondulação, além de contínua, também é longa, enquanto a cortina, além de longa, também é contínua):
Em I 52, o primeiro terceto fala de uma “parcialidade feroz”, enquanto uma seqüência de rimas internas em ó o parte bem ao meio:
da solidão de ser um só. Mas há também
uma parcialidade feroz, uma euforia
(que eu lhe ouvia na voz) em que a vida não tem
No soneto I 53, a primeira estrofe refere uma leitura silabada, e as próprias sílabas do poema se repetem ao longo dos versos:
E ele lia, lutava, salpicado de sol,
com as sílabas lunares do grande italiano
sombrio – e havia ali um rio agora, arcano,
frio, imemorial, em que éramos o anzol
LIA se desdobra em sILAba, itALIano, ALI e imemorIAL; SALpicado ecoa em SOL e SILabas; RIO reaparece em sombRIO, fRIO e imemORIal; AgORA, ARcAnO e éRAmOs têm em comum a maioria dos caracteres.
Em I 65, a palavra cara, depois da rima óbvia com máscara, “oculta-se” no interior do texto, onde reaparece nas formas disfarçadas de nÁCAR, AnACReonte e ACARiciaram.
Na segunda estrofe do soneto I 86, o jogo sonoro se funde ao jogo conceitual, a partir do duplo sentido da palavra par (rima interna de ímpar), que se refere tanto aos dados quanto à dupla de jogadores:
os meus fonemas mal têm voz, jogos de azar,
gaguejos de um esboço: porque o marfim dos dados
somou enfim a cifra ímpar e o meu par
de aventureiros se perdeu sem ter jogado.
Por fim, é preciso dizer da riqueza das rimas de Tolentino. E da arte difícil de, ao serem raras, não serem destoantes, como acontece a poetas menos capazes quando usam rimas muito incomuns. Quantos poderiam rimar “Albuquerque” com “Onde quer que”, “um albergue” e “corpo se ergue”, e manter o poema cadenciado ao ritmo – em meio a metáforas belíssimas –, como faz Tolentino no soneto III 137?
Muito do que digo aqui, no entanto, pode parecer conveniente demais (“A estrutura, mais do que meramente ter, é em si mesma um significado”; “A forma fixa não é mais sinônimo de fixidez, mas o contrário”). E parecerá por demais conveniente por ser “de ocasião”, isto é, tudo parece verossímil, mas somente porque adapto o que julgo ser o objeto em questão ao que o objeto de fato é. O que temos, objetivamente, é um soneto em alexandrinos. O resto… O resto é a própria poesia moderna. Desde que Poe, em The Philosophy of Composition (1850), demonstrou a natureza construtiva da poesia, não se pode mais recuperar a ingenuidade perdida. Mesmo se a muitos leitores ainda pareça surpreendente que o refrão de um poema, a expressão reiterada que lhe vertebra o sentido, seja escolhido por conter ou não certa vogal, e pior, que a vogal escolhida seja, na verdade, a real portadora do sentido pretendido. Ao menos, do sentido poético. Afinal a poesia, em que pesem expressões vazias de significado como “poesia em prosa”, não é, justamente, a prosa.
Não cabia dúvida de que tal fecho [invariável das estrofes], para ter força, devia ser sonoro e suscetível de ênfase prolongada e tais considerações inevitavelmente me levaram ao o prolongado, como a mais sonora vogal. [...] Ficando assim determinado o som do refrão, tornou-se necessário escolher uma palavra que encerrasse esse som [...].[1][8]
Os poetas que, depois de Poe, pretendem-se ainda, de alguma forma, “inspirados”, são como um mágico que crê no próprio truque. Arte é artifício. Bruno Tolentino é um poeta moderno, que conhece bem demais a sua arte para poder pretender enganar-se. After such knowledge, what forgiveness?
para maravilhar-se de que afinal o molde,
a forma mais exata, tremesse, fosse ainda
espasmo, mutação…
(III 159, vv. 8-10)
Tratando-se, portanto, de poetas contemporâneos, a diferença não é o menor ou maior construtivismo, mas o melhor ou pior construtivismo. A própria opção de não ser construtivista é uma forma de sê-lo, ainda que no sentido de uma condenação (assim, os surrealistas partem de um método – mesmo que este seja o da “escrita automática” –, os beats buscam conscientemente o desregrar da consciência, os “pós-modernistas” tentam construir a “desconstrução”). Como se não bastasse, a diferença entre os poetas modernos e os antigos não está na natureza construtiva da poesia (daí ter dito que Poe a demonstrou, e não que a inventou), mas no modo de tratá-la. Poiésis significa produzir, fabricar, fazer.
Aguardo curioso o que fará esse poeta, que acaba de conquistar um tão alto nível de expressão, a partir da possibilidade ao mesmo tempo estética e ética de anular a própria anulação.
Assim Merquior, outra vez premonitório, terminava sua apresentação do livro de estréia de Tolentino em 1963. Quase meio século depois, face ao seu último livro, cabe a mim, sem premonição alguma, constatar que o que esse poeta, afinal, fez, foi realizar a possibilidade ao mesmo tempo estética e ética de anular a própria anulação.
As duas principais conotações de realizar são “pôr em prática, efetuar” e “tornar real, existente”. A “realização do entardecer” de nosso título não é, então, uma tentativa de emular ou mesmo de homenagear o título do livro, ou, ainda, de criar um efeito estético pela semelhança com diferença, mas uma definição. Este livro é a grande realização do luminoso entardecer de Bruno Tolentino. E também realiza, isto é, torna real, o entardecer em si mesmo. Não, naturalmente, o entardecer de um dia, mas de uma cultura.
Não me refiro à cultura brasileira, que não pode entardecer por não ter acabado de amanhecer sua longa aurora cinzenta (em que pesem todo o colorido e todo o alarido de grande parte dos participantes). Refiro-me à cultura ocidental. Adjetivo que, hoje, muitos colocam entre aspas. Verdade que o põem entre aspas por um viés “pós-modernista”, ou multiculturalista, ou “politicamente correto”. Devem de fato pô-lo, mas por realismo. Como nos acostumamos a conhecê-la e reconhecê-la nos últimos séculos, ela está provavelmente em seu entardecer. Tolentino, portanto, poderá vir a ser uma espécie de novo Paladas de Alexandria (e de alexandrinos), o último poeta grego.
Mas enquanto Paladas anuncia e enuncia o fim, fazendo, portanto, sua metalinguagem, Tolentino realiza o entardecer no sentido de torná-lo real. Para Paladas, o ocaso era um fato. Para Tolentino, é uma fatalidade. Algo que deve ocorrer, mas que, enquanto não acontecer, não é realmente real. O efeito é paradoxal (com o perdão da rima pobre): pois Tolentino ilumina o entardecer de uma arte. Mas se o aclara num sentido, isto é, se aponta do que se trata – um entardecer –, também o aclara noutro sentido, de torná-lo menos escuro. E um entardecer que se torna menos escuro imita um amanhecer.