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15.02.2007 - 08:14

Breve notícia da literatura argentina contemporânea

Por Ronaldo Cagiano

É estranho que ainda se ainda se dêem as costas para a literatura argentina contemporânea. Da terra de Borges, Oliverio Girondo, Bioy Casares, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Juan José Saer, Alfonsina Stormi, Silvina Ocampo, Juan Guelman, Benito Lynch e tantos outros, muito pouco sabemos da recente produção. Embora desconheçamos essa realidade estética, a verdade é que há uma poesia e uma prosa em plena efervescência, considerando-se não apenas os clássicos vivos, mas uma geração que vem construindo uma bibliografia da melhor qualidade.

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16.11.2006 - 11:21

O palco íntimo de Ingmar Bergman e Kierkegaard

Por: Ricardo Paiva
Num trabalho de aproximação de Ingmar Bergman, seu cinema e roteiros com os temas de filosofia de Sören Kierkegaard e o teatro de August Strindberg e Henrik Ibsen, é norte primodial deixar bem claro que Ingmar Bergman adaptou mais de doze peças de texto de Ibsen – incluindo A Doll´s House e Peer Gynt – e mais de vinte de Strindberg – incluindo The Father e Storm Weather . De Strindberg, principalmente, Ingmar Bergman herdou a perspectiva solitária do indivíduo atormentado perante o colossal fluxo dos acontecimentos da vida.
As questões em Bergman surgem quase que por associação direta com o pensamento atormentado – porém em escopo ainda maior – da obra de Kierkegaard, nas dimensões humana, religiosa e ética. E o paralelismo com Strindberg e Ibsen é um corte profundo epistemológico em toda obra bergmaniana, que perpassa a obra desses outros três pensadores e literatos.

Além de nos depararmos com um filósofo relativamente contra o estritamente empírico e mais coadunado com idéias existencialistas vivenciais, quando lemos Kierkegaard podemos argüir um preconceito de que sua metafísica é interiorizada demais, anti-Kantiana em sua metafísica do desejo. É nesse manejo de temas humanos que dá-se a ligação entre Kierkegaard e Bergman, principalmente.

O humanismo flui então absoluto, pela assunção e premissa que ambos levam da concepção filosófica de um homem unidade, que pertencente à seu conjunto dele com ele mesmo e seu real e não seu outro, faz-se só assim completo e inteiro na busca do entendimento de fé ou de vida. Pois, na medida que ele se completa – nunca inteiramente – nessa busca ele perfaz o caminho próprio inquebrantável e precípuo em relação à experiência maior social coletiva.

Alguns filósofos poderiam ser relacionados um pouco com Kierkegaard, como Heidegger e Pascal, mas mesmo assim, Kierkegaard difere essencialmente da maioria das idéias de todos eles, pois seu laboratório era o homem, ele passava por outras questões mas nem perto de avalizar o homem por leis superiores mecânicas e conquistas descobertas científicas da física – por exemplo -  ele passou.

Se não é razoável descrever alguém como Kierkegaard como anti-racionalismo, anti-Hegeliano ou anti-Kantiano (dois filósofos que muito admirava e dos quais sofreu influência intelectual), encontramos de sua obra, o seguinte sobre o que lhe distanciou de Hegel e seu pensamento oposto:

 “Ser idealista de imaginação não é nada difícil, mas ter que ‘existir’ como idealista é um labor de toda a vida e um labor fadigoso em extremo, pois que a existência constitui justamente o obstáculo à mão. Expressar existindo o que se compreendeu por si mesmo, nada tem de cômico; mas compreendê-lo todo, exceto a si mesmo, é muito cômico” [1]

Sob a égide de construção racional de valores universais – ainda que não universalizantes, pois valores em formação e teoria – de filosofia coletiva comum, depreendemos que a essa visão Kantiana com razão se opõem Kierkegaard e o cinema de Bergman. Pois, de fato que há de mais irrealizável do que a unificação da coletividade em pensamentos e conclusões ao invés da busca da percepção através da experiência individual?

É, ao mesmo tempo, mais caótico acreditar nessa construção humanista cristã que concebe o indivíduo como ente inicial que impulsiona as reais leis comportamentais, religiosas e éticas da vida. Porém, conhecedores dos limites e supressões existenciais humanas, é mais compreensível que o indivíduo – na solidão infinita de Strindberg – realize sua própria extensão rumo ao sentido de fé e vida.

O ‘’Onde está Deus’’ de Dostoievsky transmuta-se em o ‘’’Quem é Deus?’’ de Kierkegaard. Podemos por toda obra de Bergman encontrar personagens em que afloram caminhos e pensamentos até ateístas do cineasta sueco, mas ao longo de toda sua vida e formação lutherana rígida familiar, Bergman parece nunca ter se dissociado de uma crença em Deus.

Da mesma forma que Kierkegaard questiona a igreja e a religiosidade, Bergman o faz – principalmente em Antonius Block em O Sétimo Selo – mais identificado com a idéia humanista que os defeitos do homem e sua eterna tormenta são o seu inferno e que realmente há um Deus ante o temor à morte e o temor à esse próprio Deus.

Nesse terreno, é que surge toda perplexidade e contratempo na vida do homem de Strindberg e dos relacionamentos de Ibsen, estes realçados como influências em Bergman. A Dialética do Desconhecido, como citam alguns sobre aspectos da obra de Kierkegaard são nortes de seu trabalho que, em primeiro momento, podiam livrar suas exegeses de maior consistência teórica.

Mas, a fábrica de Kierkegaard – usando um termo propositalmente  pouco usual e adequado – é o homem quase como instituição.  E nessa tarefa, o que é individual, se torna menos perceptível e mais arriscado para se avaliar.

Se nos remetermos a Kierkegaard na obra de Bergman e também à Ibsen e Strindberg, em seus moldes teatrais angustiados e de conflito humano, a Trilogia do Silêncio é uma notável comparação de quanto à medida que Bergman desenvolve esses filmes, mais ele ratifica Kierkegaard e seu olhar espectral indiscreto do homem.

Enquanto a busca de Kierkegaard é mais orientada e menos aflitiva, a de Berman por suas imagens e seu conhecido pessimismo strindbergmaniano (termo da estudiosa sueca Linda Haverty Hugg) é realçado pelo belo trabalho de encenação e técnica fotográfica de Sven Nkyvist a retratar os estados d´alma.

Talvez mais que em outras obras como Persona, Morangos Silvestres ou Sétimo Selo, a acurada análise de Bergman atinja índices mais próximos da filosofia existencialista humanista ulterior de Kierkegaard – mais complexa que Sartre – pois centraliza-se mais do que nunca nas ações dos personagens principais dos filmes Através do Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio. O homem seria o “motif” fulcral de Kierkegaard.

O “Cinema is the face” de Ingmar Bergman atende necessariamente e fundamentalmente essa concepção de câmera do close up, tão presente em sua obra ou, por exemplo, na de Carl Dreyer, de Ordet e La Passion de Jeane D´Arc.

Essa perspectiva sensorial de que o diretor tinha de não permitir a respiração aliviada para o ator de uma câmera que se dispusesse a muitos metros, torna também recorrente em sua obra como era recorrente a linguagem teatral de seus filmes. Junto a outro famoso pensamento do diretor que dizia

“Para mim, o cinema é antes de tudo uma variação do teatro. Ninguém irá me tirar da idéia de que o cinema é um teatro com regras mais flexíveis” [2]

Essas concepções ligam-se diretamente a essa concepção do temor, a angústia, o  “Dread” ante o possível Deus; angústia e ansiedade abordadas vastamente por Kierkegaard.

Ao mesmo tempo em que o desatino da opressão submetida à Bergman quando criança possa tê-lo feito um pessimista e possível ateu em potencial, é talvez mais ponderado pensarmos que todo esse aparato angustiado familiar anti-patriarcal e anti-clerical do teatro influenciado por Strindberg e Ibsen e a incessante busca existencial com olhar e viés humanista de Kierkegaard expressos na sua arte, sejam indícios cruciais de sua fé angustiada ou espanto e dúvida, base do seu trabalho e sua influência de Kierkegaard.

“Nós temos um grande vazio, a ilusão perdida de Deus, chame isso como quiser, uma necessidade de segurança intelectual que venha compensar todas as de segurança material, social. É esse vazio e tudo o que os homens inventam para preenchê-lo que eu descrevo em meus filmes” [3] 

O vazio que aparece em Ingrid Thulin e Gunnar Ljobström, as duas irmãs de O Silêncio, do vazio de Liv Ullman e Ingrid Thulin outras duas irmãs em Gritos e Sussuros ou de Liv Ullman com Ingrid Bergman, mãe e filha em Sonata de Outono.

Do calor de destruição provocado pela impossibilidade de comunicação e realização de Erland Josephson e Liv Ullman em Cenas de um Casamento até a mudez de Elizabeth Vogler e a explosão de Alma em Persona, o teatro e os dramas familiares exercidos nos temas e na forma de filmar se aproximam de Strindberg, Ibsen. 

E filosoficamente, essa construção de cinema teatral de Bergman trata da impossiblidade da descoberta sem a definição final da busca. O que Kierkegaard analisava era a impossibilidade dos meios e a irreversível necessidade de experiências e existências no alcance da luz e descoberta da existência e do encontro de fé, com Deus.

As condições da existência de Kierkegaard eram: o compromisso e risco da escolha, a subjetividade, a angústia e o desespero. Esses temas candentes estão em todas as almas femininas – O Deus feminino de Kierkegaard, resultado de impossibilidades e sensibilidades – são desenvolvidos por Ingmar Bergman à luz de teatro, cinema em close e com scenario realmente mais simples que um Visconti em seu planejamento em Noites Brancas, por exemplo, porém mais belo que.

“Como homem de teatro, Bergman é instado a dirigir peças de outros autores. Mas como homem de cinema, ele tem que se manter no controle do cenario e ser o mestre no processo. Ao contrário de Bresson ou Visconti, que criam um ponto de partida a partir de esquemas totalmente inventivos, Bergman cria suas aventuras e personagens transcendentes fora do nada [4]“.

Em Bergman, o ser vai ser o esteio e o espelho – presente em Bergman como Deus, morte, fé, sexualidade, família – simbólico de toda a agitação da natureza que compreende o humano e o divino e suas interpenetrações. “O indivíduo, a existência e o agir é que são a verdade”, segundo Kierkegaard. E existir consciente da existência dessa existência é a verdade, infelizmente, “existir é viver a angústia e o desespero”[5], no cerne do homem e o que o define: a experiência pessoal, angústia, dor, busca da fé, amor e  as escolhas.
 


 

 

[1]  KIERKEGAARD, Sôren in Post Scriptum – 1833 
[2] BERGMAN, Ingmar. Martins Fontes. São Paulo, 2001.
[3]  ARMANDO, Carlos. Planeta Bergman, Oficina de Livros, Minas Gerais , 1988
[4] In Bergmanorama, 1950´s Years. GODARD, Jean Luc. Cahiers du Cinema 85, 1966
[5] KIERKEGAARD,  Sören, The Concept of Anxiety (Dread) – Princeton University, 1981

24.10.2006 - 14:24

Além do Mito

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

A poética de García Lorca na interação e integração do passado com o presente

Este ano de 2006 é o ano de comemoração do 70º aniversário da morte do poeta e dramaturgo Federico García Lorca. As circunstâncias dramáticas e as motivações políticas que envolveram sua trágica morte durante a Guerra Civil Espanhola contribuíram para a formação e uma certa mitologia em torno da figura do poeta. Mas a permanência e pertinência das criações artísticas de García Lorca o fazem superar essa condição de “fetiche cultural” e asseguram seu lugar privilegiado entre os grandes nomes da poesia do século 20. Seus livros, peças dramáticas, conferências, desenhos e seus arranjos musicais continuam sendo amplamente lidos e estudados e seguem despertando o interesse crítico – sua fortuna crítica já reúne milhares de artigos, livros, teses, monografias e ensaios.

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23.10.2006 - 14:23

Agonia e finitude em Unamuno

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

Conflito e vida, em oposição à harmonia e morte, são o fulcro do pensamento unamuniano

Na filosofia, na literatura e até na ciência, a morte é uma preocupação que acompanha a humanidade desde do começo das civilizações. A capacidade adquirida no processo evolutivo de elaborar raciocínios abstratos fez do homem o único animal sobre a terra que tem a capacidade (e a maldição) de reconhecer o fato inexorável de sua finitude. Grandes pensadores em todas as épocas se ocuparam do tema: em uma passagem célebre, o Sócrates platônico caracteriza a morte como um “sono sem sonhos”; o escritor argentino Jorge Luis Borges, por sua vez, comparou a morte com o sono – todas as noites morremos para renascer a cada novo dia; já Flaubert escreveu que “a morte talvez não tenha mais segredos a nos revelar que a vida”.

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22.10.2006 - 14:22

O Complexo de Hamlet

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

Harold Bloom analisa Freud como escritor e sua obra psicanalítica como literatura

Em artigo recentemente publicado no Wall Street Journal, pela ocasião dos 150 anos de nascimento de Sigmund Freud, o polêmico crítico literário norte-americano Harold Bloom reafirmou seu ponto de vista sobre o que para ele permanece atual e importante na obra do pai da psicanálise: suas qualidades literárias. A ambição freudiana de que a ciência da psicanálise algum dia traria contribuições significativas à Biologia, para Bloom, não foi e não será concretizada.

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21.10.2006 - 14:22

A possibilidade da Verdade

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

O que parece é que os filósofos atuais, em geral, encaram a Verdade com mais humildade, falando em níveis de Verdade

Para o senso comum, a questão da possibilidade humana de ter acesso a algum tipo de verdade pode parecer bastante simples: se uma informação acerca de um fato pode ser confirmada pela experiência, dizemos que tal informação satisfaz o critério de veracidade. Não obstante, dentro de uma perspectiva filosófica, essa discussão assume um caráter bem mais complexo e polêmico.

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20.10.2006 - 14:19

A linguagem do bardo

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

Frank Kermode analisa a arte de Shakespeare sem idolatrias nem pré-conceitos

Membro da British Academy, da Royal Society of Literature e da American Academy of Arts and Science, Frank Kermode é reconhecido como um dos maiores especialistas no mundo na obra do poeta e dramaturgo William Shakespeare. O livro A Linguagem de Shakespeare, lançado este ano no Brasil, com tradução de Bárbara Heliodora, atesta a pertinência e a originalidade de
Kermode ao tratar de um tema já incansavelmente debatido: a arte do bardo inglês.

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19.10.2006 - 14:18

O Pinto que Cantava de galo

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

Novo livro do pesquisador Joselito Nunes faz um resgate da vida e da obra de Pinto do Monteiro

A herança européia do Trovadorismo, que remonta à Idade Média, aclimatou-se muito bem ao sertão nordestino. Os cantadores, violeiros e repentistas fazem parte da rica tradição cultural sertaneja, marcada fortemente pela oralidade. O pesquisador Carlos Jatobá informa que a tradição da cantoria tem origem provável no século 11, em Provença, no sul da França, mas que “veio até nós, adicionada com um leve sabor mourisco, um tanto aboiado, quase islâmico”, pois teria se desenvolvido e florescido na Península Ibérica.

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19.10.2006 - 14:16

Julián Marías e o pensamento como ofício

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

No dia 15 de dezembro de 2005, faleceu em Madri, aos 91 anos de idade, o filósofo espanhol Julián Marías, um dos mais importantes pensadores do século 20

O filósofo, sociólogo e ensaísta Julián Marías, discípulo de Ortega y Gasset, autor de 60 livros, dedicou sua vida ao estudo e à filosofia, sempre com um sentido de independência e autenticidade que, por mais de uma vez, o levou a se isolar do ambiente acadêmico do seu país. “Fui deixando passar as vigências e as modas acadêmicas: escolásticas, existencialismo, estruturalismo, filosofia analítica, marxismo”, afirmou. Para Julían Marías, o seu professor Ortega y Gasset foi a grande figura intelectual do século 20 em filosofia – e não somente na Espanha.

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18.10.2006 - 14:14

A crença no estranho

por Eduardo Maia, originalmente publicado na Revista Continente Multicultural

“A principal característica da natureza humana é a de se deixar levar pelo sentimento e apresentar justificativas pseudológicas para atitudes sentimentais”. Vilfredo Pareto (1848-1923), Traité de Sociologie Générale

O ceticismo é a tendência a desconfiar daquilo que não parece suficientemente coerente com a realidade, das autoridades estabelecidas, dos argumentos sem embasamento, das explicações que carecem de provas práticas. A crítica que vem sendo feita há muito tempo aos pensadores céticos é a de que, por muita importância que tenha tal corrente, só pode ser considerada uma atividade de negação, uma eliminação de falsas afirmações.

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