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02.07.2009 - 22:51

Pequena, mas charmosa.

Na carona do período de realização de mais uma Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), a revista EXAME desta quinzena (ed. 946) dedica seu painel Grande Números ao mercado editorial.

A revista aponta que, em número de visitantes, a maior feira de livros do Brasil é a FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE (RS), evento que recebeu 1,7 milhão de visitantes na edição mais recente. O segundo lugar é da Bienal de São Paulo (728 mil) e o terceiro da Bienal do Rio (645 mil). Pernambuco, com sua Bienal, fica em quarto lugar (550 mil).

Mesmo se realizando no mês de julho e sendo mais antiga, por exemplo, que a Bienal de Pernambuco, a edição anterior da FLIP recebeu apenas 20 mil visitantes. A diferença gigante é explicada pelo fato da FLIP não ser um evento de “pavilhão” como os quatro primeiros lugares. O conceito de “festa” a transforma em atrativo turístico para a cidade e em roteiro de charme, além de posicioná-la como uma celebração mais refinada do produto “literatura”.

02.07.2009 - 17:35

Agricultura orgânica e mercado de nicho

Há cerca de duas semanas, trabalhei na produção de duas reportagens com uma equipe de TV da Rússia, mais exatamente do canal Russia Today, que transmite em inglês e árabe. A equipe veio para cá com o objetivo de retratar o Brasil de modo geral,  especialmente por causa do maior interesse despertado pela sigla BRICS, criada por um economista da Goldman Sachs e que reúne os principais emergentes econômicos, Brasil, Rússia, Índia e China. Fizeram matérias em São Paulo, Rio de Janeiro e acompanhei o trabalho em Pernambuco, onde vieram abordar a violência no Recife e programas sociais, como o Bolsa-Família.

Na parte de violência, conversamos com Eduardo Machado, do PE Body Count e Demetrius Demétrio, do Comunidade dos Pequenos Profetas. Para a matéria de políticas sociais, viajamos até Pombos, mais exatamente o Assentamento Chico Mendes. Lá, e essa é a razão deste post, nos encontramos com uma figura maravilhosa, chamada Mariano da Silva. É um pequeno agricultor, com 10 hectares, que há sete anos mudou o cultivo das suas terras para agricultura orgânica. Isso significa deixar de utilizar agrotóxicos e adotar toda uma técnica para que as pragas não avancem sobre as hortaliças. Para tanto, é necessário criar um tapete verde sobre as culturas, de forma que as pragas ataquem outras gramas e preservem a cultura principal. Dá mais trabalho, mas se tem a certeza de comer algo mais saudável, que não foi empoçado de veneno.

Produtos orgânicos chegam às gôndolas dos supermercados com preço, pelo menos, 30% mais caro. Mas comprando direto do produtor na feira sai ainda mais barato do que uma hortaliça tradicional em uma grande rede. Seu Mariano vende os alfaces – liso, americano ou francês – por R$ 0,70, enquanto um alface americano pode custar o dobro disso num ponto de venda tradicional. Ao migrar para a produção orgânica, Mariano teve um considerável ganho econômico – ele hoje consegue vender com preços até 50% mais caros do que antes – e também de consciência. Dizia o pequeno produtor que agora sabe tratar melhor da sua própria terra, rotacionando culturas, deixando o solo descansar e tratando de forma natural, sem veneno.

Os orgânicos atendem um nicho de mercado em crescimento. E o sucesso de Mariano como produtor veio de atender a essa demanda, e não fruto de um plano mirabolante surgido de um técnico governamental. E o Bolsa-Família, na sua casa, é bem empregado. “Não deixo a menina pegar na terra. É para ela estudar, pois recebe o Bolsa-Família”, disse.

Ah, e quem quiser comprar a produção de seu Mariano ou de outros produtores similares é só visitar a feira de orgânicos próximo à Praça de Casa Forte. Mas tem que chegar cedo. A feirinha começa às 5h da manhã e em poucas horas toda a produção se esgota.

Como diria Tyler Cowen, a força dos mercados (que estão em toda parte). Ou, como Bastiat muitos anos antes, é a forma como Paris é alimentada.

(Renato Lima)

02.07.2009 - 11:41

Marcus Accioly e os bastidores da Academia Pernambucana de Letras (APL)

A pretexto de fazer uma homenagem ao jurista Pinto Ferreira, recentemente falecido, o poeta Marcus Accioly aproveita artigo ao JC de hoje para contar os bastidores de uma concorrida eleição para a Academia Pernambucana de Letras (APL). Segundo ele, apesar da pressão por parte de Silvio Neves Baptista, quem deve ocupar a vaga é o escritor Cyl Gallindo (foto).

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Pinto Ferreira e a APL
Publicado em 02.07.2009

Marcus Accioly

marcusaccioly@terra.com.br

Pernambuco não deu, enquanto vivo, nem sei se vai dar, depois de morto, o devido valor a Luiz Pinto Ferreira. Aliás, não dar valor aos seus valores, tem sido da província o desvalor. Se os de formação em direito e letras (como é o meu caso) reconhecem o nome de Pinto Ferreira, talvez não aconteça o mesmo nas demais profissões. Infelizmente, distante do Recife quando ele partiu, deixei de levar o meu abraço à sua esposa, Ozita (minha parenta) e aos seus filhos. Em nosso último encontro, há algum tempo, Pinto Ferreira estava tão bem disposto que, durante a visita, fez até exercícios para que eu o soubesse em forma. Assim é que ele vai permanecer na minha memória. E, para quem quiser melhor sabê-lo, existe o livro Pinto Ferreira – vida e obra de Manoel Neto Teixeira que, na Academia Pernambucana de Letras (APL), a convite do presidente Waldênio Pôrto, fez a oração da saudade ao professor, jurista, ambientalista, sociólogo, filósofo, senador e, principalmente, escritor Pinto Ferreira. Deixou-nos o mestre inúmeras obras, sobre múltiplos assuntos, publicadas em português, francês, inglês, espanhol e russo.

A morte de Pinto Ferreira é impreenchível em nossa vida: seu vácuo aumentará nosso vazio e seu espaço ficará no tempo. Contudo, pelo menos em um canto, ele terá alguém no seu lugar: na cadeira que ocupou durante 35 anos na Academia Pernambucana de Letras. Portanto, era presumível que muitos escritores quisessem se candidatar à honrosa sucessão. Aberta oficialmente a sua vaga acadêmica, em 13 abril último, Cyl Gallindo, poeta e prosador da minha geração, autor de 17 livros publicados, antologista, representante internacional da revista Francachela, aconselhado por vários acadêmicos (inclusive por mim) fez a sua inscrição. A vaga permaneceu aberta por dois meses, como de praxe. Nomes, como o do meu professor Roque de Brito Alves, foram cogitados. Em 28 de maio, saiu publicada no DP, na coluna do jornalista João Alberto, uma notícia acadêmica com QP de quiproquó: “QPP na academia – sobre nota desta coluna, o advogado e professor Silvio Neves Baptista diz que vai aguardar que a Academia Pernambucana de Letras estabeleça critérios objetivos para decidir se vai concorrer à vaga deixada pelo professor Pinto Ferreira. Para ele, por ora existem apenas especulações na base do QPP – quem pede primeiro”. Ora, a APL, com uma tradição de 100 anos, só agora iria estabelecer “critérios objetivos” para uma candidatura? Por acaso, Gilberto Freyre e João Cabral de Melo Neto, para citar um prosador e um poeta, não passaram pelos mesmos critérios? O fato é que o poeta Cyl Gallindo, com humilde obstinação, já tinha 20 cartas (leiam-se votos) quando o professor Silvio Neves Baptista, em 1º de junho de 2009, inscreveu-se na APL. O tempo era hábil, pois ainda faltavam 12 dias para findar o prazo de inscrição, embora soubesse o professor que, pela palavra e assinatura dos acadêmicos, a escolha já estaria definida, pois com 20 votos se entra na APL.

De repente, começaram os pedidos importantes, cartas, telegramas, artigos e até um abaixo-assinado em favor do professor Silvio Neves Baptista, o que não é de se estranhar em uma concorrência acadêmica. O estranhável (que não partiu do professor e jurista) foi a absurda novidade de que a vaga deixada por Pinto Ferreira era uma “cadeira jurídica” e, como tal, deveria ser ocupada por um jurista. Segundo os Estatutos da APL (exceto se já vigem novos critérios) não há cadeiras específicas para juristas, médicos, professores, datilógrafos, mas, para escritores. Logo, a cadeira de nº 6, cujo patrono é o monge beneditino, político e jornalista, Miguel do Sacramento Lopes Gama - o Carapuceiro – não é uma exceção. Admiro o professor Silvio Neves Baptista e admito que, em outra circunstância, votaria no seu nome, por se tratar de um intelectual.

Não obstante, face à reviravolta dos pedidos, o processo eleitoral da APL passou de QPP - quem pede primeiro – para QPPU: quem pede por último. Crendo que os últimos serão os primeiros no reino dos céus e que, no reino da terra, um poeta não desmereça um jurista e vice-versa, com todo respeito ao jurista, continuo com o poeta Cyl Gallindo, a quem dei o meu voto desde o início, não porque ele pediu primeiro, mas (em se tratando de uma disputa para uma Academia de Letras) por outro QPP: Quero o Poeta e o Prosador – Quero Prosa e Poesia.

» Marcus Accioly é poeta


01.07.2009 - 16:16

O prazo das políticas brasileiras

Do meu artigo para o Ordem Livre:

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O prazo das políticas brasileiras
30 de Junho de 2009
por Renato Lima

O ministro Mangabeira Unger está de saída do governo Lula. Voltará para Harvard após comandar a estranhíssima Secretaria de Longo Prazo, criada apenas para abrigá-lo, não para fazer qualquer coisa. Mais do que um fato isolado, é revelador do Estado brasileiro, pleno de anúncios e raso de avaliações.

Entrevistei três vezes Mangabeira como ministro. Na última acompanhei uma palestra sua para integrantes de um governo estadual. Após ouvir pacientemente as perorações de Mangabeira, foi aberto um debate para diversos secretários comentarem as propostas do ministro. Após ouvir alguns elogios protocolares, também recebeu críticas pertinentes ao que havia falado, à sua interpretação do desenvolvimento do Nordeste. Anotei umas dez perguntas/críticas que ele teria de responder, algumas delas interessantes, que poderiam dar um lead para a minha matéria. Pois bem, Mangabeira retoma o microfone e diz: “Envieeem por e-mail essas observaçõeees”. Obviamente, uma frustração geral. Mangabeira veio para falar e não para ouvir. E ainda impondo ao contribuinte o custo das passagens aéreas, dele e da equipe, hotel, e o tempo de todos os presentes.

Antes de assumir o poder, o presidente Lula dizia que o Ministério do Planejamento seria muito mais forte do que o da Fazenda, justamente uma demonstração da retomada do “Estado desenvolvimentista e planejador”. O que se viu é que forte mesmo ficou a Casa Civil, por motivos meramente eleitorais. O histórico da Ministra Dilma Rousseff no governo é de ter criado um modelo energético que poluiu e encareceu a matriz brasileira - ao estimular as térmicas de óleo combustível no sistema elétrico -, quase levou a um apagão em 2007 e depois foi comandar um pacote de obras que… não sai do canto. Para ficar em apenas duas, Transposição e Transnordestina, são dois projetos estruturadores do primeiro mandato de Lula que não ficaram prontos nem no segundo. De 50 anos em 5 adotamos o 2 em 8.

Esse mesmo governo lançou, por duas vezes, uma Nova Política Industrial. A primeira, em 2004, elegeu “atividades portadoras de futuro”, como fármacos, semicondutores, software e bens de capital. Na época, o ministro de Ciência e Tecnologia era Eduardo Campos, atualmente governador de Pernambuco. Ele propagava uma meta de que em 2007 o Brasil estaria exportando US$ 2 bilhões em softwares - o que já se dizia ser muito difícil. Perguntado, Eduardo Campos dizia que era uma meta “ousada”, mas que seria cumprida. Pois bem, segundo o que apurei com fontes do setor, não chegamos nem a US$ 500 milhões; na melhor das alternativas, tivemos US$ 450 milhões. Dá para depreender que quando um ministro fala em meta “ousada” quer dizer mesmo virtual.

Em todos esses casos, vê-se que improvisam soluções, fazem grandes anúncios e esquecem o plano de trabalho. Nem a mais básica ferramenta de administração, a metodologia PDCA (Plan, Do, Check, Act) é utilizada. Paramos no PD… ou só no P. Por que as tais novas políticas industriais não atingiram seus objetivos? Por que se criou uma dispendiosa TV estatal (TV Brasil) que é assistida por quase ninguém? São exemplos de atividades que deveriam passar por avaliação e correção. Como não avaliamos os erros do passado, estamos sempre os cometendo novamente, pois são embalados em marketing e esperança, não em realidade e mérito.

Dificilmente uma empresa teria sucesso com tantos gastos de recursos de forma ineficiente, como o caso de ter mais de 40 diretores/ministros. Mas nosso governo vive de popularidade - conseguido com propaganda e apoios políticos como os amigões de Lula José Sarney e Renan Calheiros - e não de gastar bem o dinheiro extraído do nosso trabalho. Esse dinheiro todo jogado fora é péssimo para o país, mas beneficia aqueles que só pensam verdadeiramente num único prazo: o da próxima eleição.


30.06.2009 - 13:43

Crítica literária às cegas ou “de quem são estes versos”?

Crítica literária às cegas ou “de quem são estes versos”?
por Renato Lima

No mais recente programa Sexta Cultura da TVU de Pernambuco, propus um desafio aos presentes: fazer uma crítica literária às cegas, como se faz degustação de vinho. A partir da leitura de alguns versos, dizer se são bons, a que remetem e quem seria o autor dono daquele estilo.

Na mesa estavam Raimundo Carrero, Paulo Paiva e Marcelo Sandes, também deste Café Colombo. Carrero arriscou vários palpites. Seria um autor pernambucano, da geração 45 e muito viajado. Depois, ele aproveita para falar mal de um outro político que também é metido a escrever. Confiram:

Já se aproximando do final do programa, li outros versos e revelei a identidade do “livro-charada”. Uma grande surpresa para o amigo Carreirão e os demais integrantes da mesa! Vejam vocês mesmo neste segundo trecho:

29.06.2009 - 16:30

O encontro de Michael Jackson e Ariano Suassuna em Taperoá

Em novembro de 2003, o Café Colombo entrevistou o poeta pernambucano Domingos Alexandre. Ele estava lançando o cordel “O dia em que Michael Jackson fez Ariano Suassuna dançar rock na cidade de Taperoá”, pela Editora Bagaço. Domingos contou que o cordel surgiu numa conversa com os boêmios José Teles e Paulo caldas. E pensaram num inusitado encontro entre Jackson e Ariano – famoso pela ojeriza ao rock.

“De repente Ariano é o anti-Michael Jackson”, brincava. Na história, depois que Antônio Carlos Nóbrega dança rock com Michael Jackson, Ariano encara uns passos da dança americana. De acordo com Domingos Alexandre, o cordel foi lido e “aprovado” pelo secretário de Cultura de Pernambuco.

A multidão curiosa
Ia seguindo o cortejo,
O gringo desenrolado,
Dançava e soltava beijo
E pra quebrar o tabu,
Em vez de “how do you do”,
Falou como sertanejo

Mas Ariano ladino,
Disse com ar meio zen:
Você não é o pretinho
Que um dia cantava “Ben”?
A sua pele era escura
Porque toda essa brancura?
Me diga de onde ela vem.

Aí Michael respondeu,
Com a maior singeleza,
Que seu pai era francês
E sua mãe holandesa.
Ele nasceu bem pretinho,
Mas foi ficando branquinho,
Por obra da natureza.

Antônio Nobrega olhava,
Um pé na frente outro atrás,
Aquele gringo dançando
Virado no Satanás,
Mas ria da aplicação
Com que ele passava a mão
Pelas “partes genitais” .

Outro trecho:

E Taperoá inteira parou para ver a folia
O gringo arrastava os pés, se rebolava e gemia
Mas não perdia o trejeito de passar a mão com jeito
Onde o pinto se escondia

Antônio Nóbrega olhava um pé na frente e outro atrás
Aquele gringo dançando virado no satanás
Mas ria com aplicação de como ele passava as mãos
Nas partes genitais

Confira a entrevista completa!


 
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28.06.2009 - 14:20

Sobre vermes, maçãs e Extirpadores - crônica de Wellington de Melo

Wellington de Melo, que já esteve aqui no Café para falar do seu livro Desvirtual Provisório, faz uma dura crônica sobre a cultura em Pernambuco. Confiram um trecho:

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Sobre vermes, maçãs e Extirpadores

Por Wellington de Melo • 23 de junho de 2009

Não aceitar apoios em troca de favorecer os interesses dos poderosos, contra as verdades em que acredito.

Isso deveria ser um mandamento quando se trata de artistas, de gente que veio ao mundo para arranhar a realidade, para abrir pupilas. Mas não é.  E quando se fala de província, onde o fisiologismo impera, onde todas as classes - sem exceção! - possuem indivíduos contaminados, parece que a coisa piora.  Há uma parte da classe artística que vive dessas esmolas governamentais, que vive grudada na soleira do poder como um lodo renitente, governo após governo, geração após geração. Tem um cargo? É meu. Uma verbinha pra desenvolver meu projeto engavetado por décadas porque é simplesmente… medíocre? Eu quero. São como aquele verme na maçã que se prolifera por todas as outras maçãs da feira.

Vermes.

Ficam ali se alimentando da maçã, depois da podridão da maçã, depois do que restar das outras maçãs, depois da podridão de tudo. Assim é melhor: quanto mais podre tudo, mais difícil de você identificar a podridão do verme, a mediocridade do verme entre as maçãs.

É assim por aqui em Recife, a maior província do Brasil. Todas as classes têm seus vermes. Eu disse todas. Não se choque, não se doa: gente envolvida com “arte” também. Também ou principalmente, não sei mais. A arte é algo tão sagrado pra mim, algo tão sério, pelo poder que tem, pelo poder que confere, que me fere ver uma corja (colônia) de vermes devorando-a. É gente que vive de favorezinhos, de trocas indecentes, batendo de porta em porta nas repartições com seus projetinhos, repetindo as mesmas ladainhas por anos a fio para ter verba pública.

TEXTO COMPLETO NO BLOG DE WELLINGTON DE MELO

28.06.2009 - 13:56

O Bolsa Ditadura tornou-se uma indústria

Gaspari na edição de hoje:

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ELIO GASPARI

O Bolsa Ditadura tornou-se uma indústria

O assalto à bolsa da Viúva conseguiu o que 21 anos de perseguições não conseguiram, avacalhou a velha esquerda

SE ALGUÉM QUISESSE produzir um veneno capaz de desmoralizar a esquerda sexagenária brasileira dificilmente chegaria a algo parecido com o Bolsa Ditadura.
Aquilo que em 2002 foi uma iniciativa destinada a reparar danos impostos durante 21 anos a cidadãos brasileiros transformou-se numa catedral de voracidade, privilégios e malandragens. O Bolsa Ditadura já custou R$ 2,5 bilhões à contabilidade da Viúva. Estima-se que essa conta chegue a R$ 4 bilhões no ano que vem. Em 1952, o governo alemão pagou o equivalente a R$ 11 bilhões (US$ 5,8 bilhões) ao Estado de Israel pelos crimes cometidos contra os judeus durante o nazismo.
O Bolsa Ditadura gerou uma indústria voraz de atravessadores e advogados que embolsam até 30% do que conseguem para seus clientes. No braço financeiro do pensionato há bancos comprando créditos de anistiados. O repórter Felipe Recondo revelou que Elmo Sampaio, dono da Elmo Consultoria, morderá 10% da indenização que será paga a camponeses sexagenários, arruinados, presos e torturados pela tropa do Exército durante a repressão à Guerrilha do Araguaia. Como diria Lula, são 44 “pessoas comuns” que receberão pensões de R$ 930 mensais e compensações de até R$ 142 mil. Essa turma do andar de baixo conseguiu o benefício muitos anos depois da concessão de indenizações e pensões aos militantes do PC do B envolvidos com a guerrilha.
O doutor Elmo remunera-se intermediando candidatos e advogados. Seu plantel de requerentes passa de 200. Ele integrou a Comissão da Anistia e dela obteve uma pensão de R$ 8.000 mensais, mais uma indenização superior a R$ 1 milhão, por conta de um emprego perdido na Petrobras. No primeiro grupo de milionários das reparações esteve outro petroleiro, que em 2004 chefiava o gabinete do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh na Câmara. O Bolsa Ditadura já habilitou mais de 160 milionários.
É possível que o ataque ao erário brasileiro venha a custar mais caro que todos os programas de reparações de todos os povos europeus vitimados pelo comunismo em ditaduras que duraram quase meio século. Na Alemanha, por exemplo, um projeto de 2007 dava algo como R$ 700 mensais a quem passou mais de seis meses na cadeia e tinha renda baixa (repetindo, renda baixa). Na República Tcheca, o benefício dos ex-presos não pode passar de R$ 350 mensais.
No Chile, o governo pagou indenizações de 3 milhões de pesos (R$ 11 mil) e concedeu pensões equivalentes a R$ 500 mensais. Durante 13 anos, entre 1994 e 2007, esse programa custou US$ 1,4 bilhão. No Brasil, em oito anos, o Bolsa Ditadura custará o dobro. O regime de Pinochet matou 2.279 pessoas e violou os direitos humanos de 35 mil. Somando-se os brasileiros cassados, demitidos do serviço público, indiciados ou denunciados à Justiça chega-se a um total de 20 mil pessoas. Já foram concedidas 12 mil Bolsas Ditadura e há uma fila de 7.000 requerentes.
Os camponeses do Araguaia esperaram 35 anos pela compensação. Como Lula não é “uma pessoa comum”, ficou preso 31 dias em 1979 e começou a receber sua Bolsa Ditadura oito anos depois. Desde 2003, o companheiro tem salário (R$ 11.239,24), casa, comida, avião e roupa lavada à custa da Viúva. Mesmo assim embolsa mensalmente cerca de R$ 5.000 da Bolsa Ditadura. (Se tivesse deixado o dinheiro no banco, rendendo a Bolsa Copom, seu saldo estaria em torno de R$ 1 milhão.)
O cidadão que em 1968 perdeu a parte inferior da perna num atentado a bomba ao Consulado Americano recebe pelo INSS (por invalidez), R$ 571 mensais. Um terrorista que participou da operação ganhou uma Bolsa Ditadura de R$ 1.627. Um militante do PC do B que sobreviveu à guerrilha e jamais foi preso, conseguiu uma pensão de R$ 2.532. Um jovem camponês que passou três meses encarcerado, teve o pai assassinado pelo Exército e deixou a região com pouco mais que a roupa do corpo, receberá uma pensão de R$ 930.
Nesses, e em muitos outros casos, Millôr Fernandes tem razão: “Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?”

27.06.2009 - 19:20

APL convida para palestra e homenagem

ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS - APL

CONVITE

Sessão Ordinária da APL: 29 de junho de 2009 (segunda-feira)

Tema palestra: “Mundo em crise e outros assuntos amargos”

Palestrante: Acadêmico Nelson Saldanha

Homenagem: a Larissa Oliveira – vencedora do “Soletrando 2009”

Horário: 16h

A APL convida a todos para a referida palestra e informa que estará prestando nessa tarde uma homenagem à aluna Larissa de Souza Oliveira, do Colégio Militar do Recife, vencedora do Concurso Nacional – “Soletrando – 2009”, patrocinado pela Rede Globo de Televisão.

Atenciosamente,

Waldenio Porto

Presidente

Avenida Rui Barbosa, 1596 – Graças - Recife PE

(estacionamento na rua Malaquias)

27.06.2009 - 12:54

Publicações sobre Joaquim Cardozo

Do JC de hoje:

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Cardozo em dose dupla
Publicado em 27.06.2009

José Mário Rodrigues

Humildemente, disse em versos: “Mas trago das águas a substância da claridade. Ele era a própria claridade. Tinha a imagem e o ar de um anjo que não quis subir aos céus. O país precisava de sua poesia, do seu teatro, do seu saber matemático.

Num palácio que ele calculou e Oscar Niemeyer fez o desenho o presidente dorme. Símbolo maior de Brasília, a catedral é obra de sua engenharia. Completamente ignorante em assuntos matemáticos, caí na besteira de perguntar como a rampa do Palácio da Alvorada, que parece suspensa, se sustentava? A resposta foi simples: “Existe outra do mesmo tamanho por baixo da terra”. Depois dessa, nunca mais ousei falar sobre arquitetura e cálculos.

A poesia de Joaquim Cardozo me interessou desde que a conheci e continua sendo o farol que clareia as minhas noites e “espreita as sombras inimigas no corredor deserto”. Por uma extrema coincidência, saíram publicados neste mês de junho, dois livros sobre o autor de Signo estrelado, Mundos paralelos, Poemas, Um livro aceso e Nove canções sombrias e outros. O primeiro, Bibliografia de Joaquim Cardozo, é produto do trabalho exaustivo de Maria do Carmo Pontes Lyra e Maria Valéria Baltar de Vasconcelos, revelando a vasta bibliografia do poeta. Há muitos anos que Carminha Lyra pesquisa a obra e a vida do poeta. A luta depois foi a publicação, que aconteceu pela Editora Universitária. O segundo - a tão anunciada Obras Completas de Joaquim Cardozo - organizado, com muito zelo e inteligência pelo poeta Everardo Norões e publicado por um convênio da Aguilar e Editora Massangana, com nota editorial do crítico Mário Hélio.

Temos agora a obra completa de um gênio. E como se não bastasse, a edição do livro é muito bonita. Digo gênio, sim. Cardozo foi de A a Z. Poeta, engenheiro, teatrólogo, contista e de quebra ainda escrevia em sânscrito, uma língua morta mas que ele conhecia bem.

Nunca me esquecerei de sua presença sagrada a me confessar que “o mistério maior não está na morte, como em geral pensam os sábios das ciências teológicas, e sim no aparecimento da vida, porque a morte em si mesma é menos misteriosa que a vida…” Ou falando sobre o tempo: “O tempo é firme e imóvel, foram os homens que, em torno dele, criaram a ilusão de um movimento… Desejava viver em todos os tempos passados, contrariando, assim, a afirmação de Heidegger de que os homens cogitam mais do futuro do que do passado.”

Na última visita que lhe fiz, numa casa de saúde em Olinda, não me conheceu. Já estava em conversas com anjos, arcanjos e potestades. Poucos dias depois subiu aos céus num trem de nuvens. Era autor e passageiro do Último trem subindo aos céus, pois ” os passageiros do trem viram tudo que era de ouvir,/ Tudo que era de refletir de ver,/ Todo o perceber que vem do ver,/ Todo o conhecer do sentir de ouvir”.

Sinto-me um escolhido. Ter sido amigo de Joaquim Cardozo é uma dádiva. Everardo me colocou entre os guardiões da memória do poeta. No entanto, o mérito maior é dele e de Carminha Lyra. Louvados sejam para sempre.

» José Mário Rodrigues é escritor

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