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21.02.2010 - 00:26

Mais uma opinião brasileira sobre o leitor digital Kindle

O economista Alexandre Schwartzman dá as suas impressões sobre o Kindle, o leitor de livros digitais da Amazon. Ele gostou e muito. Ah! Ainda é uma caixa-preta a margem de lucro da Amazon, que com o Kindle tem um custo logístico extremamente inferior do que mandar os livros pelo correio além de custo de produção perto de zero. E muito pouco, no Brasil, tem se falado do leitor da Sony e do Nook, da Barnes and Nobles (que já conta com 1 milhão de títulos).

18.02.2010 - 12:10

Subintelectualidades

Dilma, aquela que mentiu sobre o seu currículo acadêmico, andou reclamando de subintelectualidades. Clóvis Rossi escreveu na Folha de SP de hoje:

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CLÓVIS ROSSI

Subintelectualidades

SÃO PAULO – Comentários que a candidata Dilma Rousseff compartilhou com Marco Aurélio Garcia, coordenador de seu programa de governo, bem que poderiam servir de epígrafe para o congresso com que o PT comemora 30 anos.
Primeiro comentário: o suposto ou real “retraimento do pensamento crítico”. Se há alguma instituição no Brasil que abandonou o pensamento crítico esta é, sem lugar a dúvidas, o PT desde que chegou ao governo.
Antes, criticava tudo e todos, até o que estava correto (vide Plano Real). Agora, o PT é apenas a Tribo dos Adoradores de Lula, em que qualquer mínima dose de crítica, mesmo as mais de acordo com os fatos, são sufocadas.
Segundo comentário: a suposta ou real ascensão de uma “subintelectualidade de direita”. Subintelectualidades, de direita ou de esquerda, existiram sempre, no mundo todo. No Brasil, até desconfio que os subintelectuais sejam mais numerosos e estridentes do que os verdadeiramente intelectuais.
Mas, se há de fato uma subintelectualidade em ascensão, ela é hoje a da esquerda, incapaz de sair com uma ideia, uma só que seja, dos escombros do Muro de Berlim. Que já caiu faz 20 anos, é sempre bom lembrar. Ou, posto de outra forma, o PT teve dois terços do seu tempo de vida, desde a queda do Muro, para produzir alguma ideia. Produziu?
Não, segundo um de seus supostos ou reais ideólogos, Tarso Genro, para quem o partido caiu no “vazio” com a crise do mensalão.
Tão vazio que seu até agora presidente, Ricardo Berzoini, e seu sucessor, José Eduardo Dutra, tiveram a bárbara coragem de, em artigo para esta Folha, “celebrar” um “partido democrático, popular e socialista”. Democrático e popular ainda dá para passar, com qualificações que o espaço impede de explicitar. Mas socialista só pode ser exercício de “subintelectualidade”.
Ou fraude conceitual.

16.02.2010 - 02:47

João Luís da Nossa Livraria

Com enorme surpresa recebi a notícia do falecimento de João Luís, livreiro, editor, amigo. O João da Nossa Livraria, como todos conheciam. O João de fala arrastada, quase baiana, do sorriso amigo, da conversa boa em torno da sua mesa, adoçada com um café feito na hora.

Quantas vezes não passei na Rua do Riachuelo e perguntava para algum livreiro, como Isaías (que eu chamava de “Meu profeta!” ou então o gerentão Tavares): João está aí? Quase sempre só havia dois tipos de resposta: “Está em Maceió” ou “Está, pode entrar”. E, se estava, era certeza de uma conversa amigável, mesmo que estivesse recebendo alguém, pois João sempre foi bom de fazer apresentações. E reunir pessoas. No ponto da Nossa Livraria se encontrava frequentemente Gilvan Lemos, Raimundo Carrero, José Teles, Nivaldo Mulatinho, Domingos Alexandre, Paulo Caldas, entre tantos outros.

João dividia os negócios entre essas duas cidades, com igual amor. No Recife, falava sempre com brilho nos olhos de Maceió, da sua nova loja no Farol, porque você tem que visitar, se passar por Maceió não deixe de ir, por sinal, você já viu o livro de Carlito Lima?… Carlito, conhecido como Capitão e escritor alagoano. Ou de novos investimentos no Recife mesmo, como foi o caso da matriz, que fica por trás da Faculdade de Direito e, com a reforma, ele tratou logo de chamar de “A primeira megastore de livros jurídicos do Brasil”. João nunca falou mal ou teve medo da concorrência. Quando muitos livreiros da cidade ficaram em rebuliço com a entrada da Livraria Cultura, João dizia logo: “Acho ótimo! Tem mercado para todo mundo.” E ele soube trabalhar tanto num mercado de nicho, o de livros jurídicos, quanto manter uma loja diversificada na matriz. E com venda através de unidades móveis e entrega a domicílio por moto, com atendimento diferenciado por uma equipe atenciosa.

Aos poucos se transformou num dos principais editores da cidade. A Edições Nossa Livraria começou com a publicação de trabalhos acadêmicos, mas logo foi levada a publicar contos, romances, relatos e até livro de entrevistas, como foi o caso do “Conversas no Café”, deste programa. Pouco antes de eu viajar, João me pediu para escrever a apresentação de um livro de contos de Gilvan Lemos, uma seleção feita pelos amigos de Gilvan. Mandei, ele gostou muito – o que me deixou bastante alegre, claro – e foi publicado com destaque e lançado na Bienal do Livro de 2009. Aliás, a dedicação de João a Gilvan Lemos é um caso aparte e resume bem o espírito humano e cativante deste livreiro. Não só ele publicou, republicou e inventou novos livros de Gilvan. João também criou homenagens e reuniu amigos em torno do escritor de São Bento do Una, que está numa idade em que o que mais vale é ter boas companhias. Pois João dava isso e também reconhecimento à sua obra.

João foi assim uma espécie de José Olympio das letras em Pernambuco. Reunia escritores, vendia e editava livros. Nesse momento de perda, é também hora de reconhecer o privilégio de poder ter convivido com ele. Pena que tão pouco, por ter partido tão cedo. Mas deixou um exemplo que devemos nos lembrar.

(Renato Lima)

11.02.2010 - 11:37

João Pereira Coutinho e o Estado de bem-estar social da Europa

Esse artigo me fez lembrar o mestre Dacier de Barros, doutor em sociologia pela Alemanha, que criticava em suas aulas o “auxílio vagabundagem” (sic), que deixava inúmeras pessoas nas ruas sustentada pelo Estado europeu, muitas das quais combinavam o ócio com o álcool. Esse é um dos principais problemas para fazer funcionar um Estado de bem-estar social: saber como controlar o que em economia chamam de free rider, o caroneiro. É aquele que se beneficia do trabalho dos outros sem mexer um dedo de esforço e acaba, com isso, diminuindo o próprio incentivo para os outros trabalharem.

(Renato Lima)

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JOÃO PEREIRA COUTINHO

Vender a alma

TIVERAM um bom fim de semana? O meu foi perfeito. Só exercício físico. No sábado de manhã, aspirei a casa. Depois, limpei o pó. Lavei a louça, passei a ferro -e entretanto era domingo à noite. Existem trabalhos duros, eu sei. Mas alguém tem de os fazer.
Pena que seja eu. Há várias semanas que procuro empregada, depois das três últimas que passaram por aqui. Elas vêm, ficam alguns meses e depois partem. Não por culpa minha. Sou patrão generoso no salário, no horário, até nas exigências laborais. A culpa é da natureza humana: entre trabalhar em minha casa ou não trabalhar em nenhuma casa, qualquer ser pensante não hesita.
Claro que, por essa altura, o leitor inteligente já formulou uma questão cruel: mas, se as donzelas preferem não trabalhar, como podem viver? O leitor inteligente, apesar da inteligência, desconhece um pormenor básico: na Europa do século 21, existe um generoso “modelo social” que, apesar de estar a caminho da falência, ainda proporciona algum espetáculo terminal. Esse modelo permite que um adulto possa viver grande parte da existência sem mexer um dedo para trabalhar.
Em teoria, o subsídio de desemprego implica um compromisso do trabalhador para encontrar o dito cujo. As agências do Estado, aliás, costumam sugerir ocupações, de acordo com as competências do trabalhador potencial. Mas, na prática, tudo depende da inclinação de cada um. E a inclinação é conhecida.
As três últimas empregadas trabalharam afincadamente enquanto aguardavam pelos “papéis”. Os “papéis” são os documentos de naturalização, que concedem ao novo cidadão da República vários direitos (mas, curiosamente, poucos deveres). Um dos direitos é apoio no desemprego, na doença e na velhice.
Como a doença e a velhice só costumam aparecer na fase última da vida, melhor aproveitar o desemprego na idade jovem. E elas aproveitam. Roteiro conhecido: avisam que deixarão o serviço.
Eu pergunto por quê. Ingenuamente, imagino que encontraram trabalho melhor. Ou mais bem pago. Razões válidas e meritórias. Com esperança escolástica, antecipo o dia em que uma delas dirá: “Estudar sempre foi um sonho adiado!”.
Nenhuma resposta. Quando as reencontro no bairro, tempos depois, a confissão: estão no desemprego. Melhor: com o subsídio de desemprego. E qual o valor do subsídio? Um pouco melhor do que os meus salários, dizem elas, com leve reprovação. Engulo em seco. Elementar, meu caro Watson: eu não posso competir com o Estado. Concorrência desleal.
Escuto tudo com uma mistura de indignação e divertimento. E depois ainda sugiro uma ilegalidade conhecida: é possível acumular o subsídio de desemprego com o salário do emprego. Elas riem. A questão não é o dinheiro. É o trabalho. Para que trabalhar quando é possível não o fazer, ganhando na mesma?
Regresso a casa e sinto-me o último otário do mundo. Serei caso único? Não sou. Mark Steyn, na última “The New Criterion”, fornece alguns números que amaciam minha solidão. Conta Steyn, em texto sobre o assustador crescimento do Estado nas sociedades ocidentais, que só no Reino Unido, desde o momento em que o New Labour conquistou o poder (1997), 5 milhões de pessoas não voltaram mais a trabalhar.
Por outras palavras: um décimo da população vive há 12 anos do cheque estatal. Um quinto das crianças britânicas cresce em casas onde nenhum adulto trabalha -um belo exemplo que se perpetuará pela descendência. No Estado de bem-estar social, é possível que um ser humano nasça, cresça, envelheça e morra sem saber o que significa trabalhar e ganhar um salário. Leio essa última frase e sinto uma vibração de simpatia e inveja na minha costela ociosa. Mas ócio com dinheiro dos outros tem um nome feio.
Diz Mark Steyn que o modelo social europeu é um caso de despesa brutal que a economia do continente não poderá suportar pelos próximos anos. Fato. Salvífico fato.
Mas o modelo não é apenas economicamente inviável; é também moralmente trágico ao condenar milhões de criaturas a vidas desérticas e bovinas, sem nenhum objetivo que possamos reconhecer como humano. Sem querer abusar de metáforas mefistofélicas, o modelo social europeu é uma tentação capital.
Uma forma de o Estado dizer: “Terás dinheiro em troca da tua alma”. Terás dinheiro sem o mereceres; e, por isso, terás também uma vida de tédio e repetição. Uma sucessão de dias habitados por nada até o dia em que serás nada também.

jpcoutinho@folha.com.br

10.02.2010 - 00:50

O grande irmão

Da agência EFE:

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Chávez aumenta sua presença midiática com novo programa de rádio

Caracas, 9 fev (EFE).- O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem agora mais um programa de rádio, que será transmitido a qualquer hora, ampliando sua presença midiática, em um começo de ano eleitoral marcado por crises e polêmicas que podem abalar a sua popularidade.

“De repente com Chávez” será transmitido, como indica o nome, sem aviso prévio e, segundo disse o próprio líder, a qualquer momento do dia ou da noite, pelas emissoras estatais “Rádio Nacional” e “YVKE Mundial”, embora não tenha descartado redes nacionais.

Com esse programa, que estreou de surpresa na segunda-feira, o governante acrescenta um novo cenário além de seu dominical “Alô Presidente”, cuja duração habitual é de seis horas, e aos seus inúmeros discursos ao vivo pela televisão, às vezes superiores a uma hora por dia, alguns em cadeia obrigatória de rádio e TV.

Em sua estreia na segunda-feira, Chávez repassou diversas questões da atualidade venezuelana, entre estas a crise energética no país, quinto exportador mundial de petróleo, o que levou a anunciar um decreto de emergência elétrica nacional.

08.02.2010 - 22:53

A briga esquentou

Com a chegada do Ipad, da Apple, e os preparativos para o lançamento do e-reader da Google, o mercado editorial “tradicional” está prestes a sentir os primeiros impactos do livro digital e, diante disso, começa a se articular para um novo modelo de negócios. Abaixo, matéria do Financial Times (www.ft.com) que trata da pressão da editora Macmillan sobre a Amazon, detentora do já popular Kindle, e da movimentação iniciada por outros players. Um trecho é fundamental para compreender o momento: “With physical sales under threat, the bookseller stands to lose unless it has a foot in the new world”.

(Marcelo Sandes).

Ps: Caro Paulo, para não ficar devendo (já que o texto está em inglês), sugiro este link para matéria do Valor, que aborda o mesmo assunto, reproduzida no Blog do Carvalho.

Electronic commerce: A page is turned

By David Gelles and Andrew Edgecliffe-Johnson

Published: February 8 2010 23:00 | Last updated: February 8 2010 23:00

It was the day after Apple unveiled its iPad and Macmillan’s John Sargent was heading for the Amazon.com headquarters in Seattle on a hastily arranged visit. The chief executive of the venerable publisher arrived with an ultimatum for the world’s largest bookseller – either let Macmillan charge more for its electronic books or wait a painful six months after it made new titles available through other outlets, including on the iPad.

Amazon balked. By the time Mr Sargent returned to New York that evening, it had begun removing all Macmillan titles – both e-books and physical books – from its website. If Macmillan wanted to play hardball, it seemed Amazon was game.

But just a day later, Amazon capitulated, agreeing in principle to raise the prices for Macmillan’s e-books. The iPad launch had underscored the increasingly stiff competition it faced in the fast-growing digital books business and Amazon simply could not afford to lose Macmillan’s titles, which include bestsellers such as Wolf Hall, The Politician and The Checklist Manifesto. Continua aqui .

05.02.2010 - 23:14

Traducido al brasileño…

Estou lendo o livro “Los girasoles ciegos” de Alberto Méndez. São quatro contos que se passam durante a Guerra Civil Espanhola e reflete, de um ponto de vista bem humanístico, as derrotas de republicanos. É uma obra que já vai traduzida para muitas línguas, a começar pelo brasileño – que é citado antes do al alemán, o que significa dizer que não optaram por ordem alfabética e nem colocaram como português do Brasil. E a obra também foi traduzido para o português, o que se supõe que seja aquele que se fala e escreve em Portugal…

(Renato Lima)

04.02.2010 - 16:33

E lá se foi a língua Bo

O último falante da língua Bo morreu e levou junto consigo uma das línguas de uma cultura de 65 mil anos localizada no sudeste asiático. Da BBC:

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Ancient tribal language becomes extinct as last speaker dies

Death of Boa Sr, last person fluent in the Bo language of the Andaman Islands, breaks link with 65,000-year-old culture

The last speaker of an ancient tribal language has died in the Andaman Islands, breaking a 65,000-year link to one of the world’s oldest cultures.

Boa Sr, who lived through the 2004 tsunami, the Japanese occupation and diseases brought by British settlers, was the last native of the island chain who was fluent in Bo.

Taking its name from a now-extinct tribe, Bo is one of the 10 Great Andamanese languages, which are thought to date back to pre-Neolithic human settlement of south-east Asia.

Though the language has been closely studied by researchers of linguistic history, Boa Sr spent the last few years of her life unable to converse with anyone in her mother tongue.

Even members of inter-related tribes were unable to comprehend the repertoire of Bo songs and stories uttered by the woman in her 80s, who also spoke Hindi and another local language.

“Her loss is not just the loss of the Great Andamanese community, it is a loss of several disciplines of studies put together, including anthropology, linguistics, history, psychology, and biology,” Narayan Choudhary, a linguist of Jawaharlal Nehru University who was part of an Andaman research team, wrote on his webpage. “To me, Boa Sr epitomised a totality of humanity in all its hues and with a richness that is not to be found anywhere else.”

The Andaman Islands, in the Bay of Bengal, are governed by India. The indigenous population has steadily collapsed since the island chain was colonised by British settlers in 1858 and used for most of the following 100 years as a colonial penal colony.

Tribes on some islands retained their distinct culture by dwelling deep in the forests and rebuffing would-be colonisers, missionaries and documentary makers with volleys of arrows. But the last vestiges of remoteness ended with the construction of trunk roads from the 1970s.

According to the NGO Survival International, the number of Great Andamanese has declined in the past 150 years from about 5,000 to 52. Alcoholism is rife among the survivors.

“The Great Andamanese were first massacred, then all but wiped out by paternalistic policies which left them ravaged by epidemics of disease, and robbed of their land and independence,” said Survival International’s director, Stephen Corry. “With the death of Boa Sr and the extinction of the Bo language, a unique part of human society is now just a memory. Boa’s loss is a bleak reminder that we must not allow this to happen to the other tribes of the Andaman Islands.”

Boa Sr appears to have been in good health until recently. During the Indian Ocean tsunami, she reportedly climbed a tree to escape the waves.

She told linguists afterwards that she had been forewarned. “We were all there when the earthquake came. The eldest told us the Earth would part, don’t run away or move.”

01.02.2010 - 09:42

Diagnóstico Roberto Piva

Aos 73 anos de idade, internado na enfermaria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, o poeta Roberto Piva sofre do Mal de Parkinson, uma doença que atinge hoje cerca de 200 mil brasileiros.
Nos últimos anos, Piva teve suas obras completas reunidas pela editora Globo em três volumes: Um Estrangeiro na Legião, Mala na Mão & e Asas Pretas e Estranhos Sinais de Saturno.
Porém, o escritor não tem condições financeiras para comprar todos os remédios que precisa.
O escritor Bruno Piffardini, estudioso da obra de Piva, realizou um ensaio sobre o poeta especialmente para o Blog do Café.

O poeta-xamã: Roberto Piva
Por Bruno Piffardini*

A força do xamã
Provém do nada
Do êxtase
Do Eros
Tambor-gavião
Estrela fiel na chama do coração
Garoto vestido
De menina
Dervixe da Lua
(Roberto Piva, “BR 116”, in Ciclones)

Ainda que sofrendo atentados da ordem (política e intelectual) vigente para que se forçasse seu silêncio, sendo relegada ao benfazejo caminho do underground literário, é inegável a importância que teve a década de sessenta, do começo até o fim, na formação da nova literatura, presente seja na academia, seja nas ruas. Ora, justiça seja feita ao poeta paulista Roberto Piva, que contribuiu em grande parte com os alicerces dessa nova maneira de encarar a arte poética.

Com seu livro de estréia, Paranóia, lançado em 1962 pelo
editor Massao Ohno, responsável pela publicação de nomes como Hilda Hilst, Piva foi, junto com seus companheiros de geração Sérgio Lima (Amore, 1963) e Claudio Willer (Anotações para um apocalipse, 1964), o lançador da pedra fundamental do primeiro momento declaradamente surrealista na literatura brasileira. Não que tentativas surrealistas não tenham ocorrido antes – e aí estão Jorge de Lima e Murilo Mendes (guardadas as devidas proporções) que não nos deixam mentir – , mas o fato é que todas as tentativas feitas para que sua proposta “colasse” foram sumariamente rechaçadas, tanto pela classe artística quanto a acadêmica, viciada num racionalismo que “afastou” do Brasil o carinho das imagens, tão tradicionalmente cara a nossos irmãos de Latino-América.

Roberto Piva e seus contemporâneos não apenas assumiram seu surrealismo, doa a quem doer, como também abriram as fronteiras do Brasil para o que havia de mais novo na produção literária internacional, como a geração beat de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso: além do íntimo diálogo entre Piva e Ginsberg em Paranóia, é importante lembrar que a primeira tradução de Uivo, do mesmo Ginsberg, foi realizada por Claudio Willer. A troca de ideias com esses poetas norte-americanos, aliado ao estudo do surrealismo de além-mar, também estava imerso em uma paisagem de “atividades coletivas, panfletagens e provocações que incentivamos e promovemos com certos arroubos e até entuasiasmos”, como diz Sérgio Lima em seu livro A aventura surrealista. Posso dizer, com toda a alegria do mundo, que o espírito permanece and the song remains the same.

Roberto Piva é um meteoro. Dos grandes, dos que não se esfarelam na atmosfera. Dos que quando batem na superfície genocidam todos os dinossauros. A leitura de sua obra, para aqueles que já têm no peito a centelha da loucura e da cura, não é o buraco de Alice, nem uma estrada de tijolos amarelos, com pedras no meio do caminho (por melhores que esses caminhos sejam, e de fato são) – é o sonho iniciático do xamã, que seleciona seus discípulos, ensina-lhes a dor e a cura, e lhes entrega a asa e o tambor para cruzar inferno e céu.
A poesia de Roberto Piva se constrói a partir de uma delicada e ao mesmo tempo densa tessitura de êxtase e intertextualidade. Pegue “Um supermercado na Califórnia”, do Uivo de Allen Ginsberg e “No Parque Ibirapuera” do Paranóia de Piva, e a conversa está feita. Ainda em Paranóia encontram-se o método paranóico-crítico de Salvador Dalí em sua composição. Estão Mário de Andrade e Jorge de Lima, e também está a fúria de Lautréamont e os indefectíveis anjos de Rainer Maria Rilke.

Ao longo de sua obra, dividida em três grandes “surtos”, para usar a expressão de Alcir Pécora, está disseminado o misticismo xamânico, muito caro a Piva, para quem a cidade é um cemitério, grama de parque e tigre na jaula não são natureza, e para quem todo eco-chato é um eco-chato. O período relativo a Paranóia e Piazzas é permeado por um onirismo que aponta para o estado do sonho iniciático; em seguida, a fase que comprrende Quizumba e Coxas acena para um erotismo quase ritual que busca o êxtae (palavra-chave do xamanismo). Por último, a fase de Ciclones, quando Piva se consagra como o Grande Xamã-Poeta, finalmente residindo no coração da natureza e se distancia do inferno na metrópole-necrópole, realizando a cura e viajando entre o mundo visível e invisível. “Para mim, a poesia é sempre xamânica, e o poeta é sempre um xamã”, diz Piva em entrevista à revista “Coyote”.

Agradeçamos a Alcir Pécora pelo grato esforço de reunir recentemente a obra completa de Piva, em três volumes: Um estrangeiro na legião, Mala na mão e asas pretas e Estranhos sinais de Saturno, através dos quais Roberto Piva conseguiu atravessar o nevoeiro. Ainda que não o suficiente. Não é possível dizer que Roberto Piva seja um poeta invisível, mas também seria miopia acreditar que o merecido reconhecimento de sua obra esteja bem-estabelecido. A academia tem se arejado, já não é mais aquela dos tempos do ensaio “O surrealismo no Brasil”, de Antonio Candido (publicado em 1945 e que está no volume Brigada ligeira), que relegou ao limbo Rosário Fusco, autor de O agressor, primeira obra brasileira declaradamente surrealista; entretanto, permanece uma certa resistência dos estudos literários a tudo aquilo que de certa forma desvia e se safa de enquadramentos que se estabelecem para definir o “canônico” – palavra de alta periculosidade em bocas mal-preparadas. Existem poucos trabalhos realmente profundos da obra (devidamente profunda) de Roberto Piva, sendo os melhores escritos por seus amigos e companheiros, como os ensaios de Claudio Willer. A partir disso, a visão corre o risco de se embaçar definitivamente. Quanto tempo foi preciso para que sua obra fosse reeditada?

E quantos outros invisíveis não estão por aí, e que contribuíram para a diversidade que existe na produção atual, também “invisível”? Campos de Carvalho, autor de A lua vem da Ásia e O púcaro búlgaro (cuja montagem teatral por Aderbal Freire Filho deu uma passada cá por Recife), deixou uma obra poderosíssima e totalmente mal-divulgada. Tomemos um exemplo fresco na memória de todos nós: lembre de seus tempos no colégio. Lembre de quantas aulas você teve sobre a carta de Pero Vaz de Caminha. Quantas aulas seguidas lendo Marília de Dirceu em voz alta. Quantas aulas tivemos sobre a literatura pós-Geração de 1945? Ouvimos falar (sussurrado) em Ferreira Gullar, aprendemos o “Beba coca-cola” e que tinha um cara chamado Cacaso, cuja maior informação foi saber que sua professora o achava gostoso. Torquato Neto? Ana Cristina César? Caio Fernando Abreu? Ignácio de Loyola Brandão? Ninguém sabe, ninguém viu. Mas sabíamos (ou éramos forçados a saber) os pseudônimos dos arcadistas mais obscuros – e que continuaram obscuros…

Existe ainda a mania constante de coroar e entronizar o artista em seu leito de morte ou sobre sua cova. É quando todo o obscurantismo lançado sobre ele em vida, quando estava em atividade e acessível (ou seja, quando de fato vale a pena respeitá-lo) se dissipa como que por uma luz divina, fazendo com que todos pensem “por onde você andou esse tempo todo?”. Completa ignorância ou total covardia? A única certeza é que é um vício execrável. A morte canoniza quem sempre foi subterrâneo, talvez porque só assim um subterrâneo não revide à bajulação. Ou talvez porque isso renda matéria pra jornal. Nos últimos dias, Roberto Piva esteve muito doente. Troca de e-mails entre os amigos e entusiastas, atualizações constantes em blogs amigos. Situação grave, condições precárias.

Mas então eis que a mídia se aproxima, como um chacal voraz. Um frio na espinha. Todos têm seus necrológios prontos nos jornais, a qualquer sinal de morbidez os jornalistas duelam para ver quem saca a notícia primeiro, pronta há trinta anos. João Gordo um dia foi mencionado por William Bonner – uma pré-homenagem póstuma no Jornal Nacional. Até o João Gordo. O pavor da apoteose batendo asas fétidas: notícia na TV, três homenagens, duas comunicações na faculdade. E de volta ao silêncio tumular.

Não, senhores, Roberto Piva não merece isso. Sua obra e sua pessoa são importantes demais para serem dobradas por convenções catedráticas miopemente ortodoxas, e imensa demais para uma retratação póstuma. Celebremos o poeta-xamã Roberto Piva, como devemos respeitar todos os poetas-xamãs. Celebremos enquanto eles perambulam pela Canuto do Val, pela Conde da Boa Vista, enquanto o pulso pulsa.
P.S.: tomem um pouco de Piva aí:
watch?v=hS7nYQ0_WfM&feature=related

*Bruno Piffardini da Rocha Brito é escritor e crítico literário. Defendeu no começo de 2009 uma dissertação de mestrado sobre a poesia de Roberto Piva, pelo depto. De Pós-Graduação em Letras de UFPE.

(Renata Santana)

31.01.2010 - 14:31

Carandiru vira biblioteca. E pensada para o gosto do público

Olha aí uma boa notícia. Da Folha de Sp de hoje:

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Pavilhão das letras

por Maria Eugênia de Menezes
INSTALADA NA ÁREA DO ANTIGO CARANDIRU, A BIBLIOTECA DE SÃO PAULO TERÁ ESTRUTURA ADAPTADA PARA TODOS OS TIPOS DE DEFICIENTES E SE APROXIMA DO CONCEITO DE ESPAÇO DE LAZER DAS GRANDES LIVRARIAS

Uma nova categoria de livrarias mudou o cenário cultural de São Paulo nos últimos anos. São lojas acolhedoras, que nasceram com a ambição de ser mais que simples locais de venda de livros, e, rapidamente, foram adotadas pelos paulistanos como pontos de encontro.

Fazem parte desse grupo a Livraria Cultura, que ocupou com uma loja de três andares o espaço do antigo cine Astor no Conjunto Nacional; e a Livraria da Vila da alameda Lorena, na qual o afamado arquiteto Isay Weinfeld criou um ambiente sofisticado, com café, auditório e uma área dedicada às crianças.

Na segunda (dia 8), a cidade ganha outro endereço do gênero: a Biblioteca de São Paulo. Só que, desta vez, trata-se de um equipamento público. Instalada no parque da Juventude, na área da antiga Casa de Detenção do Carandiru, a nova biblioteca se inspirou no conceito das grandes livrarias da cidade para conquistar seus leitores. “A ideia é que ela pareça uma ‘megastore’ pública”, diz o secretário de Cultura do Estado, João Sayad. “Ela deve ter tudo aquilo que essas lojas oferecem, mas estará aberta para atender a todos.”

A biblioteca custou cerca de R$ 12,5 milhões (R$ 10 milhões do Estado e R$ 2,5 milhões do Ministério da Cultura). E, para atrair seus futuros usuários, não investiu apenas na compra de novos livros. Além de dispor de outras mídias, como CDs e DVDs, o projeto centrou esforços na decoração do prédio, na oferta de tecnologia e em uma estrutura completamente acessível e preparada para atender aos deficientes físicos.

Iguais, mas diferentes
Os serviços especiais para deficientes incluem mesas reguláveis, que se adaptam a qualquer tamanho de cadeira de rodas, folheadores automáticos de páginas, para aqueles que perderam os movimentos das mãos, e também computadores com telas, teclados e mouses adaptados.

Usuários cegos terão ainda mil títulos de “audiobooks” e um equipamento que, instantaneamente, é capaz de transpor obras literárias convencionais para faixas de áudio ou placas em braile. “Isso deve ampliar muito as opções de livros para cegos”, afirma Adriana Ferrari, gestora do projeto e assessora da secretaria de Cultura.

Uma equipe de atendentes também está sendo treinada para recepcioná-los. “Não dá para ser um atendimento padrão. Não pode ser invasivo nem muito distante”, diz ela. “Temos que tratar a diferença para que eles sejam incluídos.” A tentativa de satisfazer necessidades e predileções de todos os públicos levou o projeto a abarcar itens normalmente deixados de lado. Em uma sala reservada, o visitante terá acesso a um material proibido para menores de 18 anos. São livros e periódicos com conteúdo violento ou de teor erótico. “Não queremos censurar nada. As pessoas devem encontrar aqui tudo o que estão buscando”, afirma Adriana. “Por isso, tem que ter a ‘Playboy’ também.” A inspiração para este e muitos outros serviços oferecidos pela instituição, ela explica, veio da Biblioteca de Santiago, no Chile.

Assim como na congênere sul-americana, a Biblioteca de São Paulo dedica grande parte de seus 4.200 m2 aos mais jovens. Todo o andar térreo está dividido em alas para três faixas etárias: até três anos, de quatro a 11 anos e de 12 a 17 anos. Ali, poltronas coloridas e pufes se misturam a estantes baixas -projetadas sob medida- nas quais livros, discos e filmes ficam misturados e expostos diretamente ao público.

Também estarão à disposição cem computadores, com livre acesso à internet, dezenas de jogos eletrônicos e um aparelho Kindle, o livro digital da Amazon. “É uma tentativa de atrair o não leitor”, afirma Sayad. “Se o hábito de ler voltar a ser moda algum dia, podemos fazer uma biblioteca escura, austera. Hoje, para conquistar o público de não leitores, ela precisa ser assim.”

(matéria completa aqui)

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