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25.12.2011 - 11:02

O 2011 do governo federal


Historiador e professor universitário Marco Antônio Villa, autor de um excelente livro sobre Canudos, faz a sua análise da administração Dilma em seu primeiro ano, do Congresso e da oposição no artigo “Um ano para ser esquecido”. Um trecho: “É um governo sem agenda. Administra o varejo. Vê o futuro do Brasil, no máximo, até o mês seguinte. Não consegue planejar nada, mesmo tendo um Ministério do Planejamento e uma Secretaria de Assuntos Estratégicos. Inexiste uma política industrial. Ignora que o agronegócio dá demostrações evidentes de que o modelo montado nos últimos 20 anos precisa ser remodelado. Proclama que a crise internacional não atingirá o Brasil. Em suma: é um governo sem ideias, irresponsável e que não pensa. Ou melhor, tem um só pensamento: manter-se, a qualquer custo, indefinidamente no poder”.

22.12.2011 - 20:48

Feliz 2012!


O Café Colombo deseja a todos os nossos ouvintes e parceiros um feliz Natal e excelente ano novo. Em 2012, o Seu Programa de Livros e Ideias completa 10 anos no ar! Toda a nossa equipe tem muito a comemorar. E para celebrar tão importante data, o artista Manassés Borges, um dos mestres de Bezerros, preparou para o Café uma xilogravura do programa.

Feliz 2012!

22.12.2011 - 14:55

A chegada do ditador ao inferno


Miguel, do JC, faz a sua homenagem a um evento recente na Coréia do Norte…


21.12.2011 - 17:47

Cartão de Natal do MIT

Bem interessante o cartão de final de ano do MIT. Em 2011, a instituição comemorou os 150 anos de funcionamento. Várias atividades foram realizadas para marcar essa data. Na web, é possível conferir uma exposição virtual da tecnologia através do tempo nestes 150 anos. E para fechar 2011 trazendo os votos de feliz natal e próspero ano novo, segue o vídeo abaixo.
MIT Tech TV

(Renato Lima)

18.12.2011 - 23:48

“Habitante irreal” de Paulo Scott e a decepção de um esquerdista


Diogo Guedes, do JC, escreve sobre o que considera “um dos melhores lançamentos do ano”, o livro “Habitante irreal” de Paulo Scott.

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Autocrítica e decepção de um esquerdista

REVELAÇÃO Livro do gaúcho Paulo Scott está entre os melhores lançamentos de 2011, narrando o cotidiano de um estudante de direito desiludido com a militância petista

Diogo Guedes

Em tempos de política polarizada em dois partidos, cabe a outros espectros da sociedade – como a literatura – fazer um balanço do que ficou esquecido no processo de desenvolvimento do País. É exatamente isso que acontece em Habitante irreal (Alfaguara, R$ 40, 262 páginas), livro do gaúcho Paulo Scott. Funcionando como uma autocrítica geracional da atuação da esquerda brasileira, a obra é dos melhores lançamentos do ano, equilibrando com precisão as referências ao contexto histórico e as questões subjetivas de seus personagens.

Nome atuante da produção contemporânea, Paulo Scott estreou na poesia em 2001, com o alternativo Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Editora Sulina). Depois disso, publicou outros dois volumes de versos, um romance, Voláteis (Objetiva, 2005), um livro de contos e um texto teatral. Habitante irreal, sua sétima obra, ganhadora da bolsa de criação literária da Petrobras, demandou seis anos de trabalho, com quatro versões e “mais de uma centenas de aberturas”.

Em um ritmo tenso e veloz, como se descrevesse uma tragédia inevitável, a narrativa traz o cotidiano desiludido do estudante de direito Paulo. No ano de 1989, ele está abertamente decepcionado com a militância do Partido dos Trabalhadores (PT). Voltando de um encontro político clandestino, vê uma jovem índia debaixo da chuva segurando algumas revistas e jornais e, depois de alguma hesitação, oferece carona a ela. O relacionamento que surge entre ele e a menina de 14 anos, Maína, desvia o rumo dos dois, desencadeando uma reação em cadeia que vai interferir na vida do casal Henrique e Luísa e do seu misterioso filho Donato, o Habitante Irreal do título.

“Embora angustiado, escrevi sem pressa, não tive medo de recomeçar praticamente do zero quando me pareceu necessário”, conta o autor, em entrevista por e-mail. Nesse processo, um dos seus desafios foi encadear sem perdas a ampla gama de assuntos do livro: além do retrato político da juventude dos anos 1980 e 1990, estão presentes o abandono dos indígenas, a vida ilegal dos brasileiros em Londres e o incesto.

São retratos pesados, desesperançados e realistas do que foi esquecido pela lógica do desenvolvimento econômico. “Se há denúncia contundente nesse romance, ela gira em torno do tratamento desumano aplicado sem medida e limite às nações indígenas”, explica o gaúcho. “O índio é uma espécie de animal para o homem civilizado, é uma espécie de estorvo”. Nesse ponto, segundo ele, “a esquerda brasileira é tão perversa quanto todos os outros que a antecederam no poder”.

Para o autor, o livro é um romance de geração, uma forma de mostrar a história de uma juventude que falhou. Habitante irreal traz o ambiente do PT durante a campanha presidencial de 1989, quando, para Paulo, os debates utópicos foram abandonados para dar espaço às questões práticas e a um projeto de poder. “Os melhores quadros, os melhores militantes foram praticamente expulsos do partido porque pensavam demais, se posicionavam demais, exigiam uma coerência que não deveria existir só no discurso”, defende.

A saída para a desesperança política que emana do livro é a busca de uma identidade, indígena, política ou pessoal. O Habitante Irreal, um homem vestido com uma máscara e uma armadura de madeira e que canta músicas em guarani, é a forma performática encontrada por Donato, já nos anos 2000, de dar visibilidade ao invisível. Para enfrentar o descaso da sociedade com os índios, é preciso desafiar o esquecimento, desfilar nos ambientes urbanos no papel de um ente estranho. “Foi esse o modo que escolhi para contar a história: remontar a tragédia de um para tentar mostrar a tragédia de muitos”, conta o escritor.

AUTOBIOGRAFIA?

Mesmo com a semelhança dos nomes, da formação em Direito e do histórico de militância política, o autor diz que Paulo não é inspirado diretamente na sua vivência pessoal. “O Paulo do livro ocupou vários espaços e circunstâncias (ideológicas inclusive) que eu também ocupei, mas a semelhança acaba aí”, explica. Ainda faz outra ressalva: nesses ambientes, nunca foi nem tão ingênuo nem tão corajoso como ele.

Escritor que começou nos versos, ele ainda revela uma relação de experiência e aprendizado com aquela linguagem – já chegou a dizer que perdeu “tudo o que poderia perder com a poesia”. “Com a poesia percebi que queria ser escritor, com a poesia perdi o medo”, revela Paulo. “Até num romance como o Habitante irreal, quando a narrativa sobressai, a linguagem está ali, pensada, calculada, mesmo quando é simples ao extremo, mesmo quando desaparece”.

Ainda que seja graduado e mestre em Direito, o gaúcho é escritor em tempo integral, não se dedicando atualmente à crítica, à tradução ou ao jornalismo, como muitos fazem – e, claro, sem ser um best-seller. O prêmio da Petrobras, portanto, foi uma grande ajuda na viabilização da obra. “Parece loucura optar por uma vida assim, e não sei até onde conseguirei mantê-la, mas sei que a bolsa me ajudou bastante a continuar teimando”, comenta.

Atualmente, ele prepara um novo romance, parte da coleção Amores Expressos, que enviou escritores para diferentes cidades do mundo para criarem narrativas em cima da experiência. Paulo foi para Sydney, na Austrália, terminando por produzir Ithaca Road. O livro deve sair no final do ano que vem pela Companhia das Letras.

Romance de uma geração

“Companheiras, companheiros, esse documento que acabo de entregar nas mão do companheiro Alfredo é a comunicação do meu desligamento da tendência. (…) Estou assustado (…) mesmo sendo um militante, que sempre precisou da compreensão de quem trabalha comigo, por ser vaidoso, admito, apressado, admito, por não ser o melhor exemplo de determinação e disciplina, estou realmente muito preocupado com a forma irracional com que as tendências que hegemonizam a direção do partido vêm desprezando o debate democrático, reproduzindo as práticas stalinistas mais odiosas. (…) Não vejo democracia, a democracia que deveria ser o básico, a base. Estou preocupado, envergonhado, com as alianças, concessões e vistas grossas que estamos instituindo como prática padrão do Partido dos Trabalhadores. (…) Tenho vergonha do que estamos nos tornando. Sinceramente, penso que alguns de nós, alguns companheiros nesta sala, estão se sentindo donos do partido, senhores iluminados do partido, se portando como grandes suseranos, como verdadeiros chefes de gangue. Nosso partido não nasceu para isso. (…) Olho para os lados e vejo gente que não era pra estar no PT, e não apenas está no PE, como é quem está dando as cartas desde que vencemos a eleição municipal. Éramos melhores quatro anos atrás. Desculpem, mas é o que vejo”.

18.12.2011 - 10:00

Belo artigo sobre a origem do estilo “Barcelona” de jogar

O jornalista argentino Juan Pablo Varsky mostra como, de uma derrota, surgiu uma filosofia de jogo que hoje dá a impressão de ser o ápice do jogo coletivo, mas que valoriza o talento individual…

Leiam em:

www.canchallena.com/1402155-barcelona-es-patrimonio-futbolero-de-la-hu manidad

17.12.2011 - 11:46

Dica de leitura: A nova indústria de energia em “The Quest”, de Daniel Yiergin



Daniel Yiergin é considerado uma das maiores autoridades em energia. Ele é autor, entre outros livros, do clássico “The Prize: The Epic Quest for Oil, Money, and Power”, que conta o surgimento da indústria de petróleo, bem como é co-autor de “The Commanding Heights: The Battle for the World Economy”, que trata da batalha de ideias do século XX entre Keynes e Hayek. Yiergin agora acaba de lançar “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” e esteve essa semana no MIT para palestras e lançamento do livro.

O foco de “The Quest” é mais em inventores e tecnologias que estão sendo adotadas tanto para aumentar a oferta de hidrocarbonetos como para expandir as energias renováveis. Para ele, três fatores foram fundamentais no recente aumento da oferta de petróleo, o que afastou (mais uma vez) os pessimistas da teoria do pico do petróleo: as areias betuminosas do Canadá; o petróleo offshore do Brasil; e o gás natural encontrado em pedras porosas (shale gas). Todas essas fontes são consideradas ainda como de óleo não convencional, mas rapidamente estão se incorporando no business as usual da indústria de petróleo (especialmente se o preço do petróleo continuar próximo a US$ 100).

Além disso, há uma nova dinâmica na pesquisa de alternativas energéticas. A indústria de energia é muito intensiva em capital e as pesquisas eram realizadas, em sua maioria, dentro das grandes empresas. Pouco capital de risco (venture capital) foi aplicado em financiar empresas emergentes (start-up) que tentassem aplicar um método inovador de produção de energia. Só que também essa realidade está mudando, com intensas pesquisas em laboratórios de universidades para aumentar a eficiência de motores, geração de etanol a base de biomassa (etanol de segunda geração), painéis solares de maior eficiência e baterias de lítio com maior densidade energética. Só aqui no MIT, o Clube de Energia reúne mais de mil alunos e realiza cerca de 100 eventos por ano.

Conversei com Yiergin sobre petróleo no Brasil e ele mostrou um otimismo reticente. Existe essa tentação de achar que por ter encontrado um recurso de muito valor todos os problemas estão acabados. A experiência internacional mostra que, pelo contrário, os problemas (políticos e econômicos) podem apenas estar começando, pela imposição de desafios de outra natureza (um tema que eu também exploro no meu trabalho “Dealing with plenty: Brazil in the era of surplus oil”. E isso passa por esse debate, ainda não acabado, de como distribuir os royalties de petróleo e como ser equânime nas decisões regulatórias e judiciais (vide o caso Chevron). Sobre as expectativas de nacionalização de petróleo que depois foram seguidas de frustrações (o que levou o venezuelano fundador da OPEP Juan Pablo Perez Alfonzo a comentar que “O petróleo é o excremento do diabo”), aí o leitor pode voltar ao “The Prize”.

(Renato Lima)

17.12.2011 - 10:50

II Seminário Internacional de Crítica Literária do Itaú Cultural


Quem não esteve lá em São Paulo entre os dias 7 e 9 de dezembro no II Seminário Internacional de Crítica Literária pode agora conferir as conversas através dos vídeos disponibilizados pelo Itaú Cultural. Como nos informa Claudiney Ferreira: “Saiu o playlist dos sete vídeos das mesas do encontro de literatura e crítica literária do Itaú Cultural. Com muitos momentos ontológicos. O time é dos bons, com José Castello, Marisa Lajolo, Andre Vallias, Paulo Henriques Brito, Italo Moriconi, Luiz Ruffato, Lourival Holanda, Luiz Costa Lima, Marjorie Perloff, Berthold Zilly, entre outros. Curadoria de Selma Caetano e Maria Esther Maciel.”

Os temas (e links para os vídeos) são: “Crítica e Interdisciplinidade”, “Crítica Literária Hoje: Impasses e Desafios”, “A Crítica Literária como Intercâmbio Cultural”, “A Crítica de Poesia em Tempos Digitais”, “A Tradução como Crítica”, “A Crítica Biográfica e os Desafios da Ficção” e “O Papel da Crítica no Jogo entre Realidade e Ficção”.

12.12.2011 - 14:15

Lançamento Dicta & Contradicta número 08


Hoje, na Vila Madalena em São Paulo, é lançada mais uma edição da Dicta & Contradicta, com artigos sobre Dostoievsky, Kierkegaard, Tom Stoppard entre vários outros. Nas resenha de livros, eu analiso o “Bourgeois Dignity” de Deirdre McCloskey. O índice completo está disponível aqui.

(Renato Lima)

11.12.2011 - 18:33

Pensando sobre a palavra


Eduardo Maia, em artigo ao Suplemento Pernambuco, faz um passeio por correntes filosóficas e como importantes pensadores abordaram a palavra:

Delas “vivem” poetas, filósofos e a nossa razão
Eduardo Cesar Maia

Uma maneira interessante e elucidativa de abordar a história da filosofia no Ocidente é tentar compreender as diferenças fundamentais entre escolas e tradições filosóficas distintas a partir do problema da palavra ou de como cada uma das várias correntes teóricas entendia o funcionamento da linguagem e seu papel no ato de conhecer. Desde suas origens na antiguidade, o projeto maior da filosofia, seu fim último – pelo menos em seu viés racionalista –, relacionava-se com a ideia de que a natureza essencial de tudo que existe podia ser apreendida intelectualmente pela razão e pela linguagem humanas. O termo logos, que entre os muitos significados, abarcava, no pensamento grego, as concepções de palavra e razão ao mesmo tempo, transmitia a ideia de que, de alguma forma, a lei e a lógica que regiam o universo estavam em harmonia com a razão humana e podiam ser captadas por esta. Era meta do filósofo, pois, ultrapassar o uso cotidiano e pragmático das palavras e chegar a uma espécie de idioma transcendental (ou uma linguagem ideal, como diriam os positivistas lógicos do século passado) que apresentasse a verdadeira natureza das coisas, da realidade, independentemente de pontos de vista individuais e subjetivos. As famosas críticas de Platão – representante maior dessa tradição racionalista – aos poetas e, também, aos retóricos sofistas, fundamentavam-se justamente nesse projeto de atingir uma forma de conhecimento superior, universal, através do emprego “exato” das palavras. Para chegar a esse grau de conhecimento (episteme) de uma totalidade inteligível e coerentemente organizada, era necessário abandonar a esfera do meramente sensível, do transitório e contingente. As palavras do verdadeiro filósofo deveriam, portanto, abandonar o âmbito da simples opinião (doxa). Platão, seguindo as indicações de antecessores como Parmênides e Heráclito, assume como empreendimento autêntico da filosofia a fundação de uma linguagem abstrata e formal, independente de fatores temporais e históricos. Tal tradição entende filosofia como ontologia, quer dizer, como busca de uma totalidade – um pensamento orientado à reflexão sobre o ser de tudo o que há e suas causas últimas.

Pode-se dizer que, na Modernidade, os métodos foram modificados, mas os fins não se distanciaram tanto da visão racionalista clássica. O emblema filosófico de um dos principais pensadores modernos, Baruch Espinosa, não deixa dúvidas: o conhecimento deve ser buscado sub specie aeternitatis (sob a perspectiva da eternidade). O foco da filosofia se volta para a mente e o conhecimento racionalista do mundo, baseado na noção cartesiana de que a razão é nossa única e exclusiva via de acesso a um mundo que, de outro modo, seria inacessível, e que a realidade não é senão aquilo que nossas ideias podem representar desse mundo em nosso pensamento. “Não há outra realidade que a de nosso pensamento”, declarou Berkeley; ou, em outras palavras, esse est percipi (ser é ser percebido). O filósofo, nessa concepção moderna, passa a ser definido como alguém que conhece o mundo porque domina as ideias.

Hegel localizava em Descartes a origem do pensamento moderno porque o francês assumia que toda a filosofia do Renascimento – o pensamento humanista – era somente uma forma de especulação “sensorial e figurativa”, um jogo retórico e filológico que não atingia uma claridade conceitual e que não se podia classificar como racional. Mais uma vez – recordemos a disputa entre Platão e os sofistas – a retórica, o senso comum, a poesia e o uso cotidiano e pragmático das palavras eram considerados impróprios para a verdadeira filosofia. A hegemonia da perspectiva racionalista levou a uma concepção de critério científico como rigor formal, quer dizer, o valor de verdade das proposições está na adequação lógica em relação com as premissas estabelecidas: as palavras, para serem verdadeiras, tinham que obedecer a uma dedução lógico-racional, e nenhuma forma de linguagem comum, cotidiana, pragmática ou artística, que se servisse de imagens, analogias e metáforas, poderia ter pretensões de conhecimento autêntico. A característica comum a todos essas formas de racionalismo é a ambição de chegar à palavra definitiva: substituir a opinião pelo conhecimento e acabar com essa conversação interminável sobre os mesmos temas – que é o que caracteriza a história da filosofia.

A crítica ao uso exclusivamente racionalista das palavras aparece em filósofos diversos, de épocas e correntes as mais variadas. Entre eles, Friedrich Nietzsche merece destaque pela demolição das concepções ontológica e metafísica da filosofia e da linguagem. Filólogo de formação, Nietzsche demonstrou a impossibilidade de delimitar uma fronteira clara entre o uso literal e metafórico das palavras: “falar é uma bela loucura: falando, baila o homem sobre todas as coisas”. Dado que nenhum tipo de linguagem pode abarcar a realidade que nomeia, conclui que qualquer linguagem é essencialmente metafórica, e mais: afirma que não existe nenhuma expressão real e nenhum conhecimento independente da metáfora, da analogia. As metáforas mais correntes, as mais usuais, são as que temos por verdades e as que usamos como critério para considerar aquelas não tão comuns. Para ele, pois, conhecer é trabalhar com metáforas favoritas, uma imitação que já não se experimenta como tal – conhecer, poderíamos inferir, é estabelecer convenções sobre as palavras que usamos. O ceticismo linguístico de Nietzsche surge da constatação de que as palavras não podem captar as coisas em sua essência e verdade. “Não são as coisas – escreve o jovem Nietzsche no seu Curso de retórica – que penetram na consciência, mas a maneira em que nós estamos ante elas (…). Nunca se capta a essência plena das coisas. Nossas expressões verbais nunca esperam que nossa percepção e nossa experiência tenham procurado um conhecimento exaustivo, e de qualquer modo respeitável, sobre a coisa”. A proposta de Nietzsche é tão radical e antagônica à tradição racionalista que, até hoje, muitos ainda o consideram não como filósofo, mas como uma espécie de escritor ou poeta. De fato, os poetas se deram conta antes dos filósofos da impossibilidade de uma mímeses absoluta.

Outra concepção alternativa ao racionalismo metafísico pode ser encontrada no pensamento maduro do espanhol Ortega y Gasset. Para ele, o verdadeiro sentido de uma palavra não é o que encontramos estático e imutável nos dicionários, mas aquele que ela tem no momento e nas circunstâncias em que é proferida: “após vinte e cinco séculos de adestrar a mente para contemplar a realidade sub specie aeternitatis, temos que começar de novo e forjar uma técnica intelectual que nos permita vê-la sub specie instantis!”, escreveu. De forma muito semelhante, o vienense Ludwig Wittgenstein, superando sua própria concepção inicial de linguagem como sistema lógico e o entendimento da atividade filosófica como busca dessa linguagem adequada e ideal, vai propor que “Entender uma palavra é entender seu uso”; quer dizer, compreender um conceito é ter conhecimento das complexas e variadas significações que ele assume na linguagem normal, no uso comum das pessoas, num sistema vivo e amplo de relações; a linguagem, dirá o segundo Wittgenstein, é uma forma de vida.

Em muitas correntes do pensamento contemporâneo, sobretudo a partir do giro linguístico e da hermenêutica, o enfoque da filosofia recai no estudo específico da linguagem, no uso filosófico das palavras. Antes se tratava de conhecer algo que estava fora do sujeito – uma concepção de conhecimento objetivo como espelho da natureza, na expressão crítica de Richard Rorty; ou como olho de Deus (a suposição de que somos capazes de abandonar nossa perspectiva humana individual e contemplar o mundo como realmente é, como se adotássemos o ponto de vista de um ser onisciente), na formulação de Hillary Putnam, ambos representantes de uma nova forma de pensar. O ponto de partida hoje, para filósofos como esses, é a atenção que devemos colocar a tudo que dizemos – e como o dizemos – sobre a realidade. A partir desse ponto de inflexão, o filósofo já não conduz suas reflexões com base em uma suposta certeza que lhe dá a Natureza ou a Razão: a investigação agora se centra na análise crítica da linguagem e na hermenêutica (interpretação de textos) como forma de entendimento da complexidade inesgotável do mundo. Grandes teorias explicativas do real e os complexos sistemas filosóficos passam a ser vistos com desconfiança; fica sob suspeita ainda a possibilidade de acesso a uma verdade universal, ou ao mundo em si, pois todo o conhecimento das coisas está mediado pelo necessariamente cambiante e contingente uso da linguagem, das palavras.

Eduardo Cesar Maia é mestre em Filosofia pela Universidade de Salamanca e doutorando em Letras pela UFPE.

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