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01.03.2012 - 12:40

Paulo Henrique Amorim e a questão do racismo


Lamentável que tal coisa ainda exista (usar a expressão “negro de alma branca” para criticar um profissional) e tenha que ser resolvidas na Justiça, como acontece agora com Paulo Henrique Amorim, cada dia mais distante do que se entende de bom jornalismo e, pelo que alguns podem achar, bom caráter também. Hoje, no Estadão, Demétrio Magnoli toca no tema e no uso corrente de tal expressão:

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Heraldo, a cor e a alma
01 de março de 2012 | 3h 07

Demétrio Magnoli – O Estado de S.Paulo

A retratação, obtida por meio dos tribunais, circula na imprensa e na internet. Nela o blogueiro Paulo Henrique Amorim retira cada uma das infâmias que assacou contra o jornalista Heraldo Pereira, apresentador do Jornal Nacional e comentarista político do Jornal da Globo. No seu blog, entre outras injúrias, Amorim classificou Heraldo como “negro de alma branca” e escreveu que o jornalista “não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde”.

Confrontar o poder, dizendo verdades inconvenientes às autoridades – na síntese precisa do intelectual britânico Tony Judt, é essa a responsabilidade dos indivíduos com acesso aos meios de comunicação. Amorim sempre fez o avesso exato disso. A adulação, reservada às autoridades, e a injúria, dirigida aos oposicionistas, são suas ferramentas de trabalho. Não lhe falta coerência: ao longo das oscilações da maré da política, do governo João Figueiredo ao governo Dilma Rousseff, sem exceção, ele invariavelmente derrama elogios aos ocupantes do Palácio do Planalto e ataca os que estão fora do poder. Às vésperas da disputa presidencial de 1998, no comando do jornal da TV Bandeirantes, engajou-se numa estridente campanha de calúnias contra Lula, que retrucou com um processo judicial e obteve desculpas da emissora. Há nove anos, desde que Lula recebeu a faixa de Fernando Henrique Cardoso, o blogueiro consagra seu tempo a cantar-lhe as glórias, a ofender opositores e a clamar contra o jornalismo independente. Funciona: a estatal Correios ajuda a financiar o blog infame.

Amorim não tem importância, a não ser como sintoma de uma época, mas a natureza de sua injúria racial tem. “Negro de alma branca”, uma expressão antiga, funciona como marca de ferro em brasa na testa do “traidor da raça”. No passado serviu para traçar um círculo de desonra em torno dos negros que ofereceram seus préstimos interessados ao proprietário de escravos ou ao representante dos regimes de segregação racial. Hoje, no contexto das doutrinas racialistas, adquiriu novos significados e finalidades, que se esgueiram em ruelas sombrias, atrás da avenida iluminada da resistência contra a opressão. Brincando com a Justiça, Amorim republica no seu blog um artigo do ativista de movimentos negros Marcos Rezende que, na prática, repete a injúria dirigida contra Heraldo. Custa pouco girar os holofotes e escancarar o cenário que a infâmia almeja conservar oculto.

O líder africânder Daniel Malan, vitorioso nas eleições de 1948, instituiu o apartheid na África do Sul. Amorim e Rezende certamente não o classificariam como “branco de alma negra”, pois uma “alma negra” não seria capaz de fazer o mal e, mais obviamente, porque Malan não traiu a sua “raça”. Sob a lógica pervertida do pensamento racial, eles o designariam como “branco de alma branca”, embutindo numa única expressão sentimentos contraditórios de ódio e admiração. Como fez o mal, o africânder confirmaria que a cor de sua alma é branca. Entretanto, como promoveu os interesses de sua própria “raça”, ele figuraria na esfera dos homens respeitáveis. William Du Bois (1868-1963), “pai fundador” do movimento negro americano, congratulou Adolf Hitler, um “branco de alma branca”, pela promoção do “orgulho racial” dos arianos.

Confiando numa suposta imunidade propiciada pela cor da pele ou pelo seu cargo de conselheiro do Ministério da Justiça, Rezende converteu-se na voz substituta de Amorim. No artigo inquisitorial de retomada da campanha injuriosa, ele não condena Heraldo por algo que tenha feito, mas por um dever que não teria cumprido: o jornalista é qualificado como “um negro da Casa Grande da Rede Globo”, que “não dignifica a sua ancestralidade e origem” pois “nunca fez um comentário quando a emissora se posiciona contra as cotas”. No fim, os dois linchadores associados estão dizendo que Heraldo carrega um fardo intelectual derivado da cor de sua pele. Ele estaria obrigado, sob o tacão da injúria, a subscrever a opinião política de Rezende, que é a (atual) opinião de Amorim.

O epíteto lançado contra Heraldo é uma ferramenta destinada a policiar o pensamento, ajustando-o ao dogma da raça e eliminando simbolicamente os indivíduos “desviantes”. O economista Thomas Sowell produziu uma obra devastadora sobre as políticas contemporâneas de raça. Ward Connerly, então reitor da Universidade da Califórnia, deflagrou em 1993 uma campanha contra as preferências raciais nas universidades americanas. José Carlos Miranda, do Movimento Negro Socialista, assinou uma carta pública contra os projetos de leis de cotas raciais no Brasil. Sowell é um conservador; Connerly, um libertário; Miranda, um marxista – mas todos rejeitam a ideia de inscrever a raça na lei. Como tantos outros intelectuais e ativistas, eles já foram tachados de “negros de alma branca” pela Santa Inquisição dos novos arautos da raça.

A liberdade humana é a verdadeira vítima dos inquisidores do racialismo. Mas, e aí se encontra o dado crucial, essa forma de negação da liberdade opera sob o critério discriminatório da raça, não segundo a regra do universalismo. Se tivesse a pele branca, Heraldo conservaria o direito de se pronunciar a favor ou contra as políticas de preferências raciais – e também o de não opinar sobre o tema. Como, entretanto, tem a pele negra, Heraldo é detentor de uma gama muito menor de direitos – efetivamente, entre as três opções, só está autorizado a abraçar uma delas.

Sob o ponto de vista do racialismo, as pessoas da “raça branca” são indivíduos livres para pensar, falar e divergir, mas as pessoas da “raça negra” dispõem apenas da curiosa liberdade de se inclinar, obedientemente, diante de seus “líderes raciais”, os guardiões da “ancestralidade e origem”. Hoje, como nos tempos da segregação oficial americana ou do apartheid sul-africano, o dogma da raça prejudica principalmente os negros.

*SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP.

27.02.2012 - 23:15

Ângelo Monteiro e o livro “Arte ou desastre” pela É Realizações


Vale conferir o poeta e filósofo Ângelo Monteiro neste vídeo, falando sobre a sua mais recente obra:

21.02.2012 - 12:39

Rosângela Ferraz lança Águas de Chuva


A escritora Rosângela Ferraz lançará, no próximo 8 de março às 19h no Teatro do Sesc-Santo Amaro, Recife, o livro “Águas de Chuva”, editado pela Babecco. A obra faz parte da Trilogia Universo Líquido, que vem sendo editado pela poetisa que é natural de Floresta (PE) e inclui “Águas de Rio e Mar” e “No Raso do Poço”. O livro traz apresentações e comentários de Cloves Marques, Geraldo Ferraz, Alexandre Santos, Vital Correa de Araújo, Lucio Ferreira, Rosalia Dinelli, Cida Pedrosa e Graça Graúna.

16.02.2012 - 18:41

Thatcher


Generon Moraes Neto num texto sobre a baronesa Margareth Tatcher, agora retratada em filme.

12.02.2012 - 21:49

Wando e o jornalismo cultural


Julio Maria, no Estadão, tocando na ferida do jornalismo cultural dissociado do povo:

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Ficamos em uma calcinha justa
Se Wando foi tão genial, por que só agora falamos isso? Algo está errado

JULIO MARIA – O Estado de S.Paulo

Wando, em três dias, virou mito, cult, santo, maldito, indie… Da zona para o anfiteatro, agora, é um monstro sagrado. Jornais lhe deram páginas inteiras e o chamaram de seu. Emissoras de rádio o fizeram de raio, estrela e luar em suas programações. As redes sociais o colocaram no topo dos itens mais comentados. Gravadoras não devem perder tempo para reunir sua obra em uma caixa com duas ou três faixas inéditas de bônus. Alguém já deve estar fazendo sua biografia para o Natal. A atriz Luana Piovani, em seu twitter, não perdeu a chance de nutrir um pouco mais do amor que sente pelos jornalistas ao falar sobre a morte do cantor. Disse que Wando jamais ganharia uma página inteira de um jornal se lançasse um disco. Que só fazem isso agora motivados pelo sabor da morte. A gente de redação tende a achar que Luana Piovani nunca tem razão. Mas, desta vez, ela tem.

Viramos as costas para Wando assim como ignoramos seus pares Odair José, Amado Batista, Reginaldo Rossi, Fernando Mendes, Almir Rogério. Sabemos quem são, assistimos a documentários sobre eles, mas não nos interessam como criadores.

A lista não é exclusividade dos bregas, um gênero que também criamos em algum lugar dos anos 80 para enquadrar cantores de paletós e rimas que não ornavam com os nossos gostos.

Se identificamos sofisticação em harmonia e prosa, enquadramos o elemento na MPB. Se percebemos tradição em ritmo e verso, os alojamos na prateleira das ‘raízes’. Se não sentimos nada disso, segundo nossos registros, descartamos.

Eles não têm chance. Não vamos a seus shows, não ouvimos suas músicas e dizemos, com conhecimento de causa, que não gostamos. E pobre de quem falar bem. Especialista em música que se preze, jornalista ou não, não pode assinar embaixo do novo disco de Chitãozinho & Xororó. Ao aprová-lo, correrá o risco de ser desabonado pelos amigos do mercado. É melhor esperar que Chico ou Caetano os gravem para refletirmos sobre suas obras com mais segurança.

Ao morrer, Wando nos coloca em uma calcinha justa. Se gostamos tanto de tudo o que fez conforme escrevemos, por que não abrimos mais espaços para seus últimos discos? Se ele era tão importante, por que não íamos a seus shows? Agora, no pós-morte, reconhecemos não só a qualidade do macho que sabia dar a cantada certa com as palavras exatas como somos obrigados a reavaliar: Wando e sua turma estão mais presentes do que nunca na renovação da própria música popular brasileira da qual um dia foram divorciados.

Uma gente vibrante que dá caminhos absolutamente criativos, segundo nosso registros, a tudo que faz tem na música brega seus refletores: Ortinho, Fernando Catatau, Karina Buhr, Céu só são o que são porque um dia ouviram Fernando Mendes.

Em outra frente, na dos consagrados, o novo disco de Marisa Monte, O Que Você Quer Saber de Verdade, poderia ser todo cantado e composto por Odair José. Mas ninguém vai chamar Marisa Monte de brega. Nando Reis e Zeca Baleiro não cansam de colocar terno de grife em poesia cafona. Em música, também, o meio é a mensagem.

A ruptura que fazemos como ouvintes à música de massas nos cega não só a produções interessantes (os teclados e os sopros em arranjos que remetem aos anos 70, por exemplo), mas à compreensão de fenômenos bem peculiares. Michel Teló vai sumir em poucos meses sim porque seu público é impiedoso e não admite ouvir o mesmo artista por dois carnavais. Mas o que este rapaz fez com cinco palavras é digno de atenção. Ai se eu te pego, uma corruptela de ‘e quando tão louca me beija na boca, me ama no chão’, tem algo de genial.

É a frase certa, no momento certo, dita por quem está louco de felicidade e quer dizê-la cantando. E aí, o mundo canta e se lixa para o que dizem os acadêmicos. Aliás, os acadêmicos e os jornalistas não contam, mas eles também cantam as músicas do Wando.

08.02.2012 - 11:52

Capacitação para projetos do Funcultura


Aos interessados no programa de incentivo cultural do Estado de Pernambuco, haverá nesta sexta-feira capacitação para elaboração de projetos do Funcultura:

07.02.2012 - 09:33

Sobre incentivos estatais e a produção artística

Economista Rodrigo Constantino comenta em artigo publicado hoje na Folha de SP o papel do Estado como mecenas:

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O mecenas estatal

Rodrigo Constantino, Folha de SP

As obras de arte, a literatura, os filmes e a música – tudo aquilo que procura dar um sentido mais elevado à nossa existência, enfim – merecem especial atenção de quem estiver preocupado em evitar que a vida seja uma simples rotina pela sobrevivência material. Os homens têm (ou deveriam ter) sede por cultura, o alimento da alma. Mas surge logo a questão: qual tipo de cultura?

Muitas pessoas bem-intencionadas defendem que o Estado deve se imiscuir nessa tarefa e estimular a cultura nacional.

Sua premissa costuma ser a de que o povo consome lixo porque os grandes veículos de comunicação empurram goela abaixo dos consumidores somente porcaria. Mas, como já disse o George Stigler, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, “o mercado reage aos gostos dos consumidores com bens e serviços vendáveis, sejam os gostos refinados ou grosseiros”.

O mercado é eficiente no atendimento da demanda. A qualidade não é responsabilidade da TV, da editora, da rádio ou do estúdio de cinema. Quem culpa os produtores erra o alvo. O YouTube, por exemplo, oferece vídeos para todos os gostos. É possível encontrar excelentes concertos e documentários, e também há muita besteira. Se os vídeos idiotas recebem mais atenção, não é culpa do YouTube.

A postura de quem deseja mais intervenção estatal na cultura parece um tanto arrogante. Acredita-se que as escolhas dos consumidores deveriam ser “melhores”. Mas quem vai decidir?

Os defensores de “reservas de mercado” para produtos nacionais gostariam que o povo escolhesse filmes brasileiros em vez de “enlatados” de Hollywood. Mas os próprios consumidores querem os filmes americanos. Ninguém é obrigado a vê-los.

Os estúdios americanos são ricos justamente porque priorizam os seus consumidores. Já os filmes franceses, feitos para agradar aos próprios produtores subsidiados pelo governo, são adorados pelos intelectuais, mas desfrutam de baixa receptividade popular.

Aplaudir este modelo é acreditar que o povo, por meio de seus impostos, deve ser forçado a sustentar as preferências da elite. Isso é incompatível com a liberdade de escolha.

Além disso, há o claro risco de proselitismo nas artes. Quando os príncipes católicos eram os únicos mecenas na praça, toda a arte era voltada para satisfazer as suas crenças religiosas. Não se pode negar que obras maravilhosas nasceram assim. Tampouco se deve ignorar que a abrangência de temas foi ainda maior com o avanço da burguesia.

Em sua biografia sobre Mozart, Norbert Elias mostra como esse gênio “burguês” foi capaz de romper com a dependência exclusiva da aristocracia da corte, e como isso foi fundamental para sua obra.

A independência do artista é crucial para sua criação. O cão não morde a mão que alimenta. Quando o artista depende das verbas estatais para sobreviver, ele terá que atender a demanda de burocratas poderosos que decidem o seu futuro com uma canetada.

Quem alega que os artistas nacionais precisam da mão estatal ignoram que é justamente a livre concorrência que obriga a busca constante pela melhoria. Quando o produto é bom, as cotas e subsídios são inúteis. Basta ver o sucesso de alguns filmes brasileiros recentes. Nada como a concorrência para aprimorar a qualidade.

A cultura é algo extremamente valioso. Justamente por isso, o governo não deve interferir no assunto. A cultura não deve ser imposta de cima para baixo, mesmo que as elites condenem a preferência vulgar do povo. Deve-se preservar a liberdade de escolha. Quanto a tais escolhas, deve-se lembrar que gosto não se discute, só se lamenta.

05.02.2012 - 11:48

E os livros se divertem…


Um vídeo para quem ama o livro, tanto o objeto físico quanto o que ele representa:

02.02.2012 - 13:26

Livronauta e a compra de livros usados pela internet


Para quem gosta de usar a internet para comprar livros usados, o famoso sebo virtual, o Livronauta é uma das mais novas opções. Segue material de divulgação do site:

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Livronauta reune mais de 3 milhões de livros de sebos de todo país

Site surgiu do desejo de um jovem empreendedor em unir duas paixões

A vontade de unir a formação acadêmica em tecnologia e ao mesmo tempo dar continuidade ao negócio da família fez o analista de sistemas Giancarlo Rubio criar o portal Livronauta, no ar desde dezembro de 2010. A história do site parece sair das páginas de um antigo romance infanto-juvenil.

Quando criança, Rubio saía da escola e seguia para a Livraria Osório, sebo tradicional em Curitiba, fonte de sustento da família mantida pelos pais. Foi ali que, bem pequeno, ele entrou no universo literário, lendo os gibis da Turma da Mônica e da Disney. Aos poucos, folheando as capas coloridas de diversos autores, acabou se encantando pelo mundo das letras.
Mas o primeiro toque de modernidade naquela atmosfera de livros usados abalou a preferência do menino. Se antes as tardes eram dedicadas a descobrir escritores, subitamente, a chegada de um computador roubou toda a atenção de Rubio. Esse foi o início de uma grande e duradoura paixão.

“Passei a deixar a leitura de lado para vasculhar cada detalhe daquela tecnologia, que tanta agilidade dava ao dia a dia. Com oito anos de idade, acompanhei todas as etapas da informatização do acervo, ao mesmo tempo em que me envolvia mais e mais com as funções do PC XT, na época, uma grande inovação.”

Ao término da faculdade de Análise de Sistemas, o jovem fez especialização em Redes e Computadores. Nesse momento de decisão profissional, o amor à tradição familiar falou mais alto.

“Na hora de seguir carreira na minha área de formação e abandonar o negócio em que vivi boas recordações de infância, me bateu um pouco de angústia. Então, resolvi aliar as duas paixões e montei o projeto do Livronauta na conclusão do curso. Hoje, toda família está envolvida no site, o que me deixa muito feliz.”

Atualmente, o portal reune aproximadamente 500 sebos cadastrados em diversas regiões do país e contabiliza 3 milhões de livros dos mais variados gêneros, que podem ser adquiridos pelo meio virtual. Em média, são vendidas duas mil publicações por mês.

No portal, o usuário pode procurar a publicação desejada e saber detalhes do estado de conservação antes de efetuar a compra e receber a mercadoria em qualquer lugar do território brasileiro, mediante pagamento de frete. Também é possível tirar dúvidas com o livreiro.

O pagamento é feito com segurança, utilizando cartão de crédito ou por meio de depósito bancário. Para quem quiser conhecer o site o endereço é: www.livronauta.com.br

30.01.2012 - 22:04

William Rhodes, a crise da América Latina dos anos 80 e a crise atual da Europa


No Opinião e Notícia, escrevo sobre o livro de memórias de William Rhodes, famoso negociador da dívida externa dos países da América Latina nos anos 80.

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Lições do maior cobrador de dívidas do mundo
Em suas memórias, Bill Rhodes conta experiências como a de cobrar devedores sob a ameaça de metralhadoras de guerrilheiros na Nicarágua.
Por Renato Lima

O que a crise da dívida do Brasil, México e Argentina, nos anos 80, tem a dizer para os países da Zona do Euro como Portugal, Espanha, Itália e Grécia? Se a pergunta for feita a William (Bill) R. Rhodes, que durante 53 anos ocupou diversos cargos no Citibank à frente de reestruturação de dívidas, muito. Ele lançou recentemente o livro “Banker to the World” (Banqueiro do Mundo, em tradução livre, McGraw-Hill 2011) contando episódios de sua carreira e as lições tiradas de duros momentos de negociação, inclusive sobre o pagamento de dívidas do Brasil.

Nos anos 80, a negociação da dívida externa dos países da América Latina passava pelo FMI e por Bill Rhodes. Países de terceiro mundo, muitos deles estavam crescendo aceleradamente até que o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, a ocorrência de uma recessão mundial e desequilíbrios internos – como alta inflação – abateram em voo o desempenho de economias como a do Brasil, que há pouco tinha vivido o “milagre econômico”.

Rhodes, pelo Citibank, representava também diversos bancos privados que tinham emprestado bilhões para sustentar o crescimento de países como o Brasil, Argentina e México. Ele foi o maior cobrador de dívida do mundo. Em suas memórias, ele conta a experiência de cobrar devedores sob a ameaça de metralhadoras de guerrilheiros na Nicarágua, investigar o sumiço de um ministro da Fazenda do México e até voar secretamente para se reunir com Delfim Neto, no Brasil. “Os brasileiros disseram, e eu concordei, que não deveria haver nenhuma notícia da nossa viagem. Se aparecesse na imprensa, eles negariam. Eles receavam que qualquer vazamento fosse interpretado como um insucesso nas negociações e que as linhas de crédito de comércio e empréstimos interbancários secassem”, recorda. A equipe do Citibank viajou em avião fretado para Brasília, e se reuniu em um discreto jantar com a equipe econômica do presidente João Batista Figueiredo: Delfim Netto, Ernane Gâlveas e Carlos Langoni. “O mundo estava perdendo a confiança no Brasil. Algumas empresas aéreas estavam cancelando voos porque não conseguiam dólares pelas passagens vendidas. A Shell passou a cobrar adiantado para vender petróleo”, lembra o financista, que acabou garantindo um acordo com o Brasil e a liberação de novos empréstimos pelo FMI.

Uma diferença do tempo de Rhodes para hoje em dia é que os empréstimos estavam muito mais concentrados em bancos, enquanto atualmente as dívidas de governos estão espalhadas na carteira de diversos investidores, de indivíduos a fundos de pensão. A banca, hoje, não tem mais rosto. Só que, para ele, a lição de como sair da crise ainda continua: dar condições para que os países afetados possam voltar a crescer e pagar as suas dívidas. Esse foi o espírito do Plano Brady, que reestruturou dívidas de países da América Latina, estendendo o prazo de pagamento. Apenas no final de 1993 o Brasil regularizava as suas dívidas dos anos 80 – então sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso como Ministro da Fazenda. Do lado credor, representando 750 bancos, estava Bill Rhodes, que credita o sucesso do Plano Real à resolução da dívida pendente.

Rhodes se formou em história pela Universidade de Brown (EUA) e, para conhecer o mundo e aprender línguas, foi tripulante em navio de carga. Com amigos do navio aprendeu espanhol, o que lhe foi fundamental no seu primeiro emprego com funcionário do Citibank. Rapidamente foi designado para trabalhar numa agência em Maracaibo, na Venezuela, país onde se casou e viu o dinheiro do petróleo encher as finanças públicas. Habilidoso, subiu na hierarquia do banco e conseguiu evitar a nacionalização do Citibank na Venezuela, quando o presidente Carlos André Perez adotou políticas nacionalistas. Mas a imagem que ele mais cultua em suas memórias é a de durão, desafiador de ministros da Fazenda e de líderes autoritários como Robert Mugabe. O que não chega a surpreender para quem representou a banca internacional em tantas negociações com países cronicamente endividados.

Em entrevistas na divulgação do seu livro, Rhodes queixa-se de que os europeus estão desprezando a experiência da ampla negociação de dívidas feitas na América Latina. Segundo ele, os líderes europeus acham que são cenários incomparáveis, quando o financista vê mais semelhanças do que diferenças. O resultado de não se chegar a um acordo logo – e na América Latina acordos eram anunciados até serem descumpridos logo depois – pode implicar numa década perdida na Europa. Para ele, é necessária ampla coordenação entre credores e devedores para abrir um caminho que promova reformas econômicas e restaure o crescimento – única forma sustentável de pagar dívidas. Como, duramente, a América Latina descobriu após uma década perdida.

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