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Textos do Público

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24.04.2012 - 11:07

A verdade está no verme, por Marcos Henrique Martins


Acordou as duas da madrugada e viu os vermes a lhe degustar. Não sabia onde estava, nem como sair dali. Não sentia dor, apenas desconforto e vergonha por estar sendo comido vivo. Seu ventre aberto, não exalava odor, tentou fechá-lo, não teve êxito, tentou se levantar faltava-lhe pernas.

Pensou, pensou e pensou. Nada em sua mente. Coçou a cabeça, sentiu o oco, voltou a olhar para a mão, sentiu enjoo. Pensou – Como posso não ter mais meu cérebro? Como posso pensar isso sem ter um cérebro?

Sentiu sede, percebeu que não tinha mais língua, quis chorar, seus olhos lhe abandonara.

Depois de algum tempo, viu que não poderia sair de sua escuridão, acomodou a cabaça nas trevas e, começou a se sentir mais confortável com todos os vermes que lhe consumiam o corpo. Pensou – Como será que está o dia lá fora, será que tem crianças correndo, flores desabrochando e pessoas sentindo minha falta? – Passou a mão na cabeça novamente e ficou feliz por não ter mais seu cérebro, dessa forma, sabia que não pensaria mais em problemas fúteis.

Marcos Henrique Martins

29.02.2012 - 22:01

Perspectiva, por Ana Eliza


O senhorzinho foi chegando devagarinho, devagarinho. Chegava perto do ônibus com um fardo imenso nas costas. Na rodoviária, muitas pessoas passavam por ele. Algumas carregando apenas bolsas à tiracolo, outras malas. Mas voltemos ao nosso senhorzinho. Ele chegou perto do ônibus, e querendo entrar o motorista disse que ele só poderia embarcar e seguir viagem se seu fardo coubesse no bagageiro. O senhor tentou, e tentou, e tentou de novo. O fardo não cabia. Abriu, tentou tirar algumas coisas de dentro, mas não diminuía. A impressão que dava, é que até aumentava. O senhorzinho se desesperou, chorou, esperneou e acabou sozinho na plataforma. Ele e seu fardo.

Dentro dele, havia sonhos que não foram sonhados, risadas não ridas, palavras não ditas, atos que não foram praticados. Um passeio que ele não fez. Uma boca que ele não beijou. Um amigo que ele não perdoou. Uma confissão que ele não fez. Uma música que ele não dançou. Dentro dele antes havia uma alma colorida, feliz, risonha, sonhadora, mas que fora sufocada e perdera a cor. Monocromática agora ela pesa, incha o fardo e acompanha o senhorzinho mesmo que ele não queira.

Uma borboleta voa como arco-íris na plataforma, e ele não percebe. E você, a vê ?

Ana Eliza

23.01.2012 - 12:56

Quando o ruim pode piorar, de Edson Augusto Alves


Quando o ruim pode piorar
por Edson Augusto Alves

Estava eu lá. Primeira da fila, atrás de mim havia mais umas quinze pessoas, isto até onde eu podia ver. Duas raspadinhas e três picolés ,saldo negativo por conta da menopausa que elevara a temperatura em pelo menos uns cinco graus.
Veio vindo o sujeito, ofegante tentando colocar o jaleco.
___Bom dia? E já foi avançando a minha frente me empurrando educadamente com o braço esquerdo. Se é que se pode empurrar alguém com alguma educação.
___Meio dia e sete. Depois do meio dia já é boa tarde.
___Me desculpe. Com licença ???__Respondeu o homem agora me olhando nos olhos com certa firmeza. Que eu retruquei é claro.
___Não tem licença nenhuma vá lá atrás e pegue a fila como todo mundo.
___Por favor, eu preciso entrar. Disse agora tentando ser amigável.
___Ta bom. O resto da fila é só um monte de manequins guardando lugar para o belezão.
___Senhora; Acredito que não esta me entendendo.
___Sou pobre sim, mas não sou ignorante. Se eu estou descabelada, com as pernas inchadas e com uma puta fome é porque eu cheguei aqui às onze e meia da manhã e agora um bonitão mal educado quer ter uma consulta na minha frente. E tem mais se bater mais uma vez com esta maleta na minha bunda além de levar uns bons tapas, ainda ti processo por assedio.
A minha costa se instalou um pequeno murmúrio,uma criança chorou, pude ouvir alguns cochichos e gargalhadas espremidas por entre os dedos.
___Minha senhora esta havendo um grande erro. Estou atrasado? Sim!!!!__Sete minutos, agora quase doze minutos. Falou o homem olhando compressa para o relógio.
___Mas é que eu sou o novo médico do Posto de Saúde e me perdi foi só por isto que me atrasei.
___Agora por gentileza poderia me dar licença???
___Não. Você continua atrasado e ainda perdido, esta fila é para o Terreiro do Pai Joaquim, o Posto de Saúde é descendo a avenida entrando a primeira à esquerda e a segunda à direita.

22.12.2011 - 00:48

Primeiro poema, de Juliano Paz Dornelles

No meu primeiro poema
Reconhecido e premiado
Não usei o palavreado
Mas um desenho ilustrado

Imagem em vez de palavras
Paisagem de minha infância
O sol iluminando a praça
De mãos dadas, crianças

O vendedor de picolé
Stands de muitos livros
Leitores compulsivos
E eu mascando chicletes

Nem imaginava que aquele desenho
Ilustra o inicio de um empenho
Com lápis, papel, giz de cera
Amor e muita fé

Juliano Paz Dornelles

09.12.2011 - 11:44

Roberto Axe e o “Dosador”

DOSADOR

Bebendo só
em um bar chalaça
há de se medir
o tom da cachaça

A primeira dose
abre a mente
assim, de mansinho,
num crescente

A segunda dose
já alegra a alma
que já pensa numa terceira
com alegria e calma

A terceira traz bate-papo
com a mesa do lado
‘valeu gente fina,
falou ta falado!’

A quarta é a dos abraços
do riso alto, da alegria
que venha mais uma!
Coisa boa a euforia!

A quinta é dos infernos!
Êta que tá boa!
Fala bastante
conversa à toa

A sexta já vem um pouco azeda
té parece discussão
todo mundo fala
ninguém tem razão

A sétima tem gosto de sangue
de tapa, safanão
de gente valente
cabe uma oitava, como não?

A oitava…
A oitava…

Tem a forma de fio de faca
que bêbado tem cu na estaca!
Turma do deixa disso…
‘qualé a tua babaca!’

‘Quer toma mais uma?
Procura outro bar!’
Avisa o bodegueiro
com o dedo no ar

Eu volto
e vou matar todo mundo!
que eu sou trabalhador
não sou vagabundo!

E caminha na rua
de pé trocado
e pensa vingança
‘foi dado o recado!’

Minha faca, minha faca!
Minha faca, minha faca!
Cai duro em um canto
o resto é ressaca…

Roberto Axe

09.12.2011 - 10:55

Negativos, por Mayra Matuck Sarak

Na Rua dos Fantasmas existiu uma mansão que era conhecida pela seguinte história: uma enfermeira muito dedicada continuou a morar na mansão, mesmo após a morte do dono, que estava doente e sendo tratado por ela há anos.

A enfermeira morou lá até sua morte. A mansão era misteriosa, nebulosa, tridimensional e isso, desde sempre, foi a curiosidade dos vizinhos, cujas casas eram bem diferentes desta. A mansão existia muito antes do falecido, da enfermeira e dos vizinhos. E dava a impressão de simplesmente ter nascido naquele terreno, brotado lá. Eles a sentiam assim. E nunca ninguém soube de seu passado. O interessante é que quando esses vizinhos recebiam visitas, contavam uma história, como se fosse verdadeira: o que supunham que a mansão representava para eles.

A única parte de toda a história que realmente aconteceu foi que Márcia, a enfermeira, morreu assassinada em um assalto dentro da imensa casa, e não se soube de mais nada… Em noites de lua cheia, as crianças e adolescentes reuniam-se na calçada bem em frente ao casarão para rituais supersticiosos. Embora nunca tivessem sequer tido a coragem de entrar lá dentro, e, mesmo que a curiosidade os devorasse, o medo era ainda maior.

Carlinhos era um cara da turma dos adolescentes. Estava sozinho e resolveu observar a mansão da penumbra. Viu através da única janela que se encontrava aberta, com a madeira não tão podre, através da cortina rasgada que seguia o ritmo dos ventos – no caso, o único companheiro de dança – um vulto negro. Estremeceu…

De dia a mansão parecia serena, compacta, e a janela conservava uma certa leveza. Já à noite, era a mansão que pertencia ao clima da escuridão. Mesmo sendo algo inanimado, emanava uma alma clara no meio do escuro. E os medos aumentavam. As árvores gigantes e as folhas das bananeiras se tornavam verdadeiros túmulos na sombra da noite, juntamente com o reflexo da lua. Mesmo assim, Carlinhos quis enterrar de uma vez por todas a ilusão, e entrar na mansão.

Pegou uma lanterna e chamou seu amigo, que preferiu ficar projetando ilusões fora da casa… Passou pelo grande portão de ferro, caminhou pelo jardim pisando nas folhas secas e volumosas de anos sem limpeza, ouvindo o ruído de passarinhos e corujas…

Encontrou ao fundo uma enorme piscina com troncos de madeira e folhas boiando em cima da água suja. No momento em que se encontrava bem na frente da porta de entrada do hall, desligou a lanterna, e permaneceu ouvindo os mesmos ruídos que acabara de ouvir na presença da luz. Passou assim a enxergar a cor negra, e a enorme lua cheia distante dele. Ficou uns segundos curtindo o medo. Depois, acendeu novamente a lanterna.

Desligou novamente, fechou os olhos e lembrou de tudo o que a mansão representou e representava para ele. Pensou no que gostaria de encontrar e de não encontrar lá dentro. Foram pensamentos profundos, mergulhados em sua verdadeira ilusão, buscando uma verdade… O ponteiro dos minutos nunca bate duas vezes no relógio do destino. Abriu os olhos, ligou a lanterna, deu um passo para entrar.

Nem teve o trabalho de abrir a porta. Aliás enorme e podre. Foi tão rápido. Caiu sobre ele sessenta segundos passados, quando metade de seu corpo estava dentro da sala. Ou seja. Sua curiosidade durou apenas um passo! Foi o tempo daquele desvendar. Foi nesse momento em que a mansão admitiu estão tão velha, frágil, incapaz de suportar o peso de qualquer invasor. Ainda que podres, no último manifesto de vigor, os ferros expostos, das vigas já deterioradas da casa, ainda conseguiram atravessar os pulmões de Carlinhos. Foi assim que a mansão desmoronou como pó, em um passe de mágica, como se lá nunca tivesse morado, brotado. Não se soube mais nada. Somente do que os olhos dele alcançaram ver, e dos riscos…

Mayra Matuck Sarak

04.08.2011 - 11:05

Amor insuportável por Aline Veingartner

Amor insuporável

por Aline Veingartner

Ela tacou nele – isso mesmo: tacou, lançou, atirou, arremessou, como queira – um olhar obeso, grave, impossível. O homem não teve tempo de se esquivar e caiu contra a parede. Sentiu medo de chocar-se contra aqueles olhos trêmulos de cólera nervosa e baixou a cabeça até o chão, até que sua franja mal-cortada tocasse o tapete encardido da sala de estar. A mulher tremia, bufava, parecia uma locomotiva prestes a dar partida. Todo o apartamento vibrava com o seu furor. A mala do homem já estava pronta em cima do sofá, com suas roupas e pertences comprimidos de qualquer jeito. A porta já estava aberta para que ele se fosse pra sempre. A mulher o havia expulsado de sua vida, queria evacuar o apartamento e expurgá-lo. Afinal, aquele homem, com quem vivera por uma década, aquele homem que, ajoelhado, chorava ao lad o da parede e se pulverizava em agonia, tinha para ela um amor tão magistral, tão exato, que se lhe fez insuportável.

31.07.2011 - 21:28

O editor bonzinho, por Roberto Axe

O EDITOR BONZINHO

por Roberto Axe

Oh, sim, meu caro escritor, adorei seu livro! Puxa, de onde tirou essa estória? Que imaginação, hein? Sabe, você tem talento. Acredite, eu conheço um gênio de longe, sim, meu garoto, de longe! E você é bom, aliás, diria… muito bom! Quantos anos você tem? É quase um menino, acredito…. é a primeira vez que submete manuscritos?

- Sim. – respondeu o rapaz, sentado do outro lado da imensa mesa; mal podia disfarçar a alegria provocada pelas palavras do editor. Um riso meio tolo e impertinente lhe invadia o semblante amiúde, teimando em deixar transparecer uma felicidade pura e ruidosa. Era seu primeiro trabalho, e havia colocado ‘sua alma’ naquele livro.

- Veja, querido – prosseguiu o editor – não é da minha índole ficar massageando ego de escritor, que já é bem dilatado, hehe… mas no seu caso… bem, estou impressionado. Seu livro é profundo, bem articulado, inteligente, instigante… bem, resumindo, não vou publicá-lo!

O rapaz sentiu um soco no estômago! Como assim? Depois de tudo que foi dito? Seu mundo desmoronou em um segundo – malditas palavras aquelas do editor: ‘não vou publicá-lo’ – não encontrou palavras para rebater a impertinência. Manteve, então, sua decepção em silêncio, em venenoso silêncio…

- É que… entenda, meu jovem – continuou o carrasco – isso não vende! Pois é, fazer o quê? É o mercado, compreende? Sei que você deve estar me odiando, mas diga-me, o que posso fazer? Sou um empresário, sobrevivo das vendas de minhas publicações e… digo isto com um aperto no coração: seu livro é muito bom, logo, não vende… Ninguém quer ter de ficar quebrando a cabeça para decifrar códigos existenciais, querem sim é decifrar códigos Da Vinci, percebe? Olhe, nem tudo está perdido, quero lhe fazer um convite, quero convidá-lo a escrever para mim! Quero o seu talento, meu rapaz! Tenho cá comigo uma idéia que você poderá desenvolver com sua impressionante criatividade; é uma idéia para um livro que vende, percebe? A estória é a seguinte: uma vampira se apaixona por um fantasma, ou um morto-vivo, você escolhe, bem, o problema é que a vampira quer sugar o sangue do amado para torná-lo imortal como ela, porém, isso é impossível uma vez q ue ele é morto!Não tem sangue! Caramba! Isso vende! Entendeu?

O rapaz baixou a cabeça, estava morto por dentro.

- Não fique assim meu geniozinho…. vamos ganhar dinheiro juntos! Pare com idealismos bobos, mercado é mercado, filhote, fazer o quê! Isso que você está sentindo passa logo, é coisa de iniciante, é coisa de sangue novo, é ingenuidade. O negócio é grana, irmão. Grana! Entendeu? Olhe, vou lhe dar um pequeno adiantamento – ato contínuo, o editor puxou seu talão de cheques e rapidamente escreveu uma quantia, assinou e entregou o papel ao escritor; este pegou o cheque, examinou e sentiu o azedume de seu espírito esvaecer um pouco – Um profissional, hein? – prosseguiu o, agora, patrão – Como se sente? É bom, né? Pois é, isso é ser um autor. De que adianta todo seu romantismo se você não tiver grana? É grana que conta, irmão. Taí, trabalhe para mim, conceda-me seu talento e ganharemos muito dinheiro, você agora é um autor! – em seguida levantou-se de sua confortável cadeira, no que foi seguido pelo escritor, e dirigiu-se à porta do escritório. Cu mprimentou mais uma vez o novato e abriu a porta – Uma vampira e um fantasma. Ou morto-vivo, não esqueça…. volte quando tiver alguma coisa. – deu um tapinha nas costas do moço, que saiu silencioso e em seguida escutou a porta bater atrás de si. Caminhou pelo comprido corredor do prédio em direção à rua, estava mais tranqüilo, quem sabe não era apenas um romântico irrecuperável? Ora, estava na hora de encarar a Realidade… ‘é o mercado’ disse o editor. Sim, estava certo ele… Começou então a sentir uma sensação de bem-estar, pegou o cheque no bolso e conferiu mais uma vez, sorriu e prosseguiu caminhando rumo a porta da saída – Vampiros? Zumbis? Ora, por que não? – apaziguado, resignado, um pouco feliz até, saiu do prédio e misturou-se aos transeuntes na calçada… nem reparou nas duas profundas marcas de dentes caninos bem finos que ostentava, alheio, em seu pescoço…

19.04.2011 - 16:12

Sinopse, de Janett Morais

Por quantas situações ele passou
em toda uma vida de luta
contra a pobreza que teve
vinha de uma família matuta.

Trabalhando duro por uns trocados
foi nas sinaleiras que cresceu
misturado a garotos de índole ruim
mas mesmo assim não se corrompeu.

Teve a infância carente, de amor e afeição
criado sem mãe, longe dos seus irmãos
abusado, agredido e humilhado
por aquele em quem ele havia confiado.

Sonhava em crescer,
parecia frágil e tolo
mas tudo fazia para vencer
acreditar que um dia seria rico
era o seu maior consolo.

Conheceu o grande amor
no final da adolescência,
sua obstinação por dinheiro e status
lhe tirava a consciência.

Do grande amor foi se afastando
só pensava em dinheiro
na vida foi se acertando
e viajando o mundo inteiro.

Sua vida social chegou
bem a onde ele queria
da vida antiga de miséria não lembrava
tampouco da mulher que de fato amava.

Envolveu-se com alguém
e com ela se casou
deixando para trás
o seu verdadeiro amor.

Pela esposa foi traído
nem um filho ela lhe deu
vivia angustiado e insatisfeito
sem se dar conta do que da vida
havia feito.

Com nova mulher casou
por um filho prometido
quase enlouqueceu
quando viu que,
o recém-nascido havia morrido.

Um dia descobriu
que o seu antigo amor vivia
com uma criança linda
que tinha a sua fisionomia.

Por este filho ele buscou
como agulha no palheiro
foi muito castigado
por colocar acima de tudo
o dinheiro.

Vida rica de detalhes
teve este personagem sem tino
se quiseres conhecer está história,
leia o livro
“ As Manobras do destino “

Janett Morais?

29.12.2010 - 14:30

Pupilas e pulsação por Brenda Lee

Pupilas e pulsação

por Brenda Lee

Dentro das teorias sobre o amor há um pluralismo de idéias iniciais com um mesmo fim: felicidade. Não dá para ser feliz o tempo todo. Não se ama o tempo todo alguém, a não ser que ele te seja servido diariamente. Como regar flores, sabe? Amar alguém está muito além da matéria; da inspiração dos sentidos. Tu amas por um motivo tão íntimo quem mal consegues transformar em palavras.

Palavras e sentimentos são inversamente proporcionais, porque sentimentos deveriam ser anônimos. Nem o exterior da caverna que venda os olhos é capaz de descrevê-lo. Tu não o sabes, mas queres transformá-lo em um corpo; num rosto. Objeto. Desposá-lo até exaurir a tua quota. Tu o vês e o sentes. Nessa ordem.

Amor não tem um conceito, embora pareça fácil descrevê-lo poeticamente. Ele não existe! Nem mesmo o verbo, até que haja antônimos eficazes. Ao contrário do que a maioria pensa, o amor não nasce entre dois seres. Não! Isso é boato! O amor atormenta a solidão. Ele grita por ter sido esquecido; desconhecido. Amor não é bom. Nem ruim. É como um tornado; um gigante invisível condensado pelo o que ele arrasta consigo. É desastre. É recomeço.

Ah, os olhos erram tanto! Olhos roubam de ti a espontaneidade; a liberdade. É como um grande espião do teu cérebro — o grande senhor das escolhas —, que também ouve, toca e beija quase que concomitantemente. O cérebro espalha a novidade por todo o teu corpo acompanhando a trajetória sanguínea. Deus, taquicardia que te faz lagrimar! É sublime! E, no silêncio, ele pulsa. O pequenino coadjuvante que protagoniza só nas cartas que tu escreves. Teu coração é só um súdito guiado pelos cochichos chicoteados pelos teus olhos. O belo, a estética. Um caráter descascável. O que a epiderme acalenta.

És mesmo capaz de amar até a última gota; além do toque; além do beijo; além das cartas? Saberias descrever o outro apesar do tempo e da distância? Amas o suficiente para deixar o outro ir, como num grande efeito borboleta? Teus olhos resolutos negam. Perderias os demais sentidos fechando os teus olhos. O teu amor é uma escultura palpável; visível. Tu amas. Não vês, não tocas. Tu choras. Te enganas.

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