Ode ao Egberto Gismonti
“Hão-de chegar-me pouco a pouco os bens do mundo”
Antes que sopre o rexio,
Haverá um viajante que cansado
Do mundo inteiro, em pedaços
De nada,
Pedirá um pouco mais de descanso,
Um pouco mais de além, um pouco mais
De caminho, margem onde as águas
Gastas das jornadas das suas nuvens
Acrobáticas,
Descansam de seu longo transbordo
Da sua via líquida e láctea, dizem os transeuntes
Do lugar leucoceleste
Límpido e fugaz,
De estrelas que se escondem nos
Telescópios do cansado navegante
Viajante do atalho cansado,
Caminho arredado
De luares e luares de luas cheias,
Quase vazias,
Quartos crescentes e fogos simples,
Pertença unívoca
Do caminhante viajante cansado,
Devoluto caminho da
Primeira e última matiz da anacruse,
A nota, a intermédia nota e pertença
Da coronária celeste, que ao cismontano
Encantador de estrelas e romances,
Adormecem, descansam
Na noite antes da madrugada.
E se espalham espelham vagam
Num sítio longe além, no espaço
Duma noite antes da madrugada,
Dum dia e noite, espaço constante
Onde habitam os pedaços de gelo
Coronários, cadentes, primordiais.
Nos arredores do caminho das estrelas.
Das estrelas e do seu rasto risco no céu
Descrição breve, não resta nada
Que olho humano veja
Nesta noite de carregada nuvem negra
De negra escuridão, o céu inteiro abóbada
Um tecto em vão, que
Nos apontamentos vagos e quase
Invisíveis, senso ou sorte ou destino
Restos do pó de sonhos de quem
Caminha entre o luminoso plasma,
Que de há tanto terem adormecido
Se adormeceram na noite cerrada.
Rectas e riscos e céu sem fronteira
Celeste
Adormecem nas margens do mais
Atlântico ribeiro, que dista daqui
Um pouco mais de nada
Um pouco mais de espaço nado
No sonho do viajante
Arquitecto, sedutor amante das estrelas
E das notas que a compõem,
Da esfera harmonia madrugada de noite infinda
Infindo dia.
“O resto foi o que eu não quis
Perseguição, procura, enlace
Esse retrato feito a giz
Pra que não mais eu me encontrasse.”
Descansa
Na pulsão nocturna do dia
Descansa nesse retrato de giz
Intemporal, nessa nascente que alimenta
A nuvem interior dos ribeiros regatos,
Descansa
No pulmão perene da poesia
Nota e harmonia, quase infinita
Quanto infinda a letra mais breve.
O resto é giz
O resto é rasgo
O resto é poeira na estrela,
Que brilha no expoente
À hora do meio-dia.
O resto é cruz
O resto é mundo, o resto
Infindo, descansa
Enquanto a casula sacerdotisa
Rebola-se no ar do caos
Que o sonho de homem comum alimenta.
Descansa adormece vence
Inventa esta matriz do vento
Que sopra nas cordas duma viola,
Que lamenta e corre o giz nesse ventre
Desta esfera armilar, irmã gémea
Da estrela mais longínqua do sistema solar.
Tudo é grande
Tudo é nada,
Tudo é estrada de sonho
Que adormece no colo terreno
Do homem giesta, retama
Amarela e branca, que dança
No homem vigilante nocturno,
Vigia vigilante de sonhos do mundo
E encantador das estrelas
Que o espantam.
“Era uma folha pousada
No cotovelo do vento”
Do vento
Que adormecia adormecendo
Debaixo da abóbada de céu furado
De ponto branco,
De ponto cardeal e cruz,
De ponto morto, de partida
De ponto de vista e solstício,
Que não se não pertencesse a um deus abandonado,
Haveria de navegar no timbre
Da viola do arco do céu, que o homem
No seu descanso tomaria
Por ponto apenas, signo breve da jornada.
Do interior dos tempos, o nada
Do interior do nada, a estrela que procura
Aquele que sonha, o seu encantador, não
De serpentes, não
De encantamentos, nada!
O viajante adormece no dia
Que sobrou da madrugada.
O viajante adormece na luz
Luzidia duma viola que aguarda o dedo
Em supinação, em pronação feliz,
Que toca no mais distante e distinto
Arco do universo, aquele, além
O interior da maternidade das estrelas
Dos céus. Dos altos
Mares e oceanos estelares
Dos ribeiros cadinhos, torre sineira
Dos ventos que arcam o mundo inteiro,
Em pedaços
Interiores de cristais e cristais baços,
De vento rexio, um vento gelado
Que se abandona no dia e noite
Do viajante que à luz das velas
Dum mundo suspenso no dedo feliz
Que amansa um piano e guitarra.
E como tudo é grande,
O finito e infinito trespassa,
Na mais árdua tarefa, depois da que coube ser deus:
Acendam as estrelas,
Está a acordar o seu mestre
Está a acordar o seu encantador.
E contudo, tudo se move
E para o homem que sonha,
O tudo, é possível!
Castelo Rodrigo, 10 de Novembro
Leonardo B.
|aparte breve: as citações intermédias pertencem a David Mourão-Ferreira|