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06.09.2010 - 00:20

O vaqueiro e o coronel por Sizinho Junior

O vaqueiro e o coronel por Sizinho Junior

_Acuda filho querido
Coronel gritou mentindo
Ele é um pistoleiro
O rapaz já foi agindo
Atirou no velho homem
Que em seus braços foi caindo.

Enquanto ele agonizava
O coronel trapaceiro
Achando ter se livrado
Com um plano bem certeiro
Enterrando para sempre
O assunto verdadeiro.

Mas o velho e bom vaqueiro
Na hora de sua morte
Nos braços daquele jovem
Contou com a própria sorte
Passou a mão em seu rosto
E disse não muito forte.

_Esperei por muito tempo
Por essa oportunidade
Você é o meu filhinho
Tomado em perversidade
E o coroné criou-lhe
Escondendo a verdade.

Na mesma hora morreu
O rapaz ali chorou
Não se sabe bem ao certo
Como foi que terminou
Eu só sei que o vaqueiro
De destino traiçoeiro
Nessa hora se findou.

-08- Fim

A família do vaqueiro
Sem rumo e humilhada
Caiu no mundo afora
Em desgraça planejada
Deixando pro coronel
Sua cria abençoada.

E o tempo se passou
O menino foi crescendo
O coronel dos Furtados
Para ele ia dizendo
Você é o filho meu
A história foi fazendo.

Passado uns vinte anos
Muita coisa aconteceu
O coronel o criou
A verdade sempre escondeu
Ensinou o que sabia
O menino claro aprendeu.

Mas algo sempre fazia
O coronel se preocupar
Deu nome tudo que tinha
Sem a verdade contar
Com medo que o rapaz
Fosse lhe abandonar.

O medo passava disso
Pois ele tinha, porém
Um pavor só em pensar
Na riqueza ir também
E morrer pobre sozinho
Esmolando por um vintém.

-06-
1ª edição
Autor: Sizinho Júnior

O vaqueiro e o coronel

Seu moço peço licença
Pra contar com precisão
A saga de um vaqueiro
Que viveu La no sertão
Nascido no pé da serra
Criado por seu patrão.

Gerado meio a pobreza
Mas com destino traçado
Da presença de seus pais
Muito jovem foi levado
Pelo dono da fazenda
Coronel Mario Furtado.

O coronel da fazenda
A muito que já sofria
Pois não gerava menino
A vida se estendia
Sobre a riqueza que tinha
E a vida que vivia.

-01-

A notícia correu logo
Nas veredas do sertão
Correndo de boca em boca
Em galopes de alazão
Rastejando na caatinga
Feito cobra pelo chão.

Em menos de uma hora
O coronel ficou sabendo
A inveja lhe consumiu
Ficou todo remoendo
Trincou os dentes com força
Que o sangue foi escorrendo.

Traçou um plano macabro
Com grande perversidade
De tudo que ele fizera
Essa foi pior maldade
E chamou o pobre homem
Na sua propriedade.

O vaqueiro pobre coitado
Saiu de casa achando
O coronel ta sabendo
Por isso ta me chamando
Vai bem me dar um agrado
As coisas tão melhorando.

O coronel seu patrão
Tava todo programado
O vaqueiro vindo aqui
Do jeito que ele é lesado
Compro o menino a ele
E crio como um Furtado.

-03-
Era homem rancoroso
Por todos era temido
Se alguém discordasse dele
Ligeiro era contido
Sua palavra era lei
Tava dito resolvido

Naquela mesma fazenda
Um bom vaqueiro morava
Pois há mais de vinte anos
Ao coronel se dedicava
Lidando com muito zelo
Da fazenda que cuidava

O coronel por sua vez
Era cabra falso covarde
Não pensava duas vezes
Pra fazer qualquer maldade
Humilhava e dava fim
Ditando sua vontade

O vaqueiro que ele tinha
Morava ali bem perto
Dedicado a sua lida
Cuidando do que é certo
Recebia qualquer um
Tendo ele peito aberto

Bem cedo numa manhã
Hô! Meu Deus que alegria
A mulher do bom vaqueiro
A notícia lhe traria
Que naquela ocasião
Mas um filho lhe daria

-02-

O que ele não sabia
Que não se deve brincar
Com as coisas do divino
Que não se pode mudar
O que Deus dar com amor
Ninguém pode lhe tomar

O dinheiro e o poder
A loucura o levou
Assim que o vaqueiro chega
Ele logo lhe mostrou
Um pacote de dinheiro
E o assunto adiantou

Esse aqui é o meu preço
Espero que seja o seu
Quero comprar seu filho
O mais novo que nasceu
Pra viver aqui comigo
Pensando ser filho meu

O vaqueiro tava em pé
Segurou pra não cair
Tomado pela emoção
Do assunto a discutir
Pediu força a Deus na hora
Começou a refletir

De todas as provações
Essa foi a mais pesada
Melhor tivesse morrido
Antes daqui minha chegada
Mas Deus escreve certo
Na linha enviesada

-04-
Mas o que ele temia
Acabou acontecendo
Um dia um velho homem
Sua porta foi batendo
Chamou pelo coronel
E foi logo lhes dizendo

_Eu não sou nenhum mendigo
Nem tão pouco sou ladrão
Há muito criei coragem
Para essa ocasião
Faz tempo quero fazer
A grande revelação

O coronel interrompeu
Com forte ignorância
_Diga logo o assunto
Achando sem importância
_E continue seu caminho
Não quero importunância.

O velho foi mais além
_Tive a vida desgraçada
Nas mãos de um coroné
De família deserdada
Venho aqui trazer verdade
A história maquiada

O coronel puxou a arma
O velho o agarrou
E em luta corporal
Sob o chão continuou
Nessa hora o rapaz chega
E tudo presenciou.

-07-

_Recuso sua oferta
Não posso lhe ajudar
Meu filho não ta a venda
Pra homi nenhum comprar
Procure outra pessoa
Pro senhor negociar

O coronel trincou o queixo
O vaqueiro lacrimejou
Deixando-o pensar sozinho
Ali mesmo se ausentou
Montou-se em seu cavalo
E pra casa galopou

De toda perversidade
Que assisti até então
Nunca ei de esquecer
Aquela sem coração
Do coronel desumano
Cutucado pelo cão

O coronel planejado
Juntou a artilharia
Pra correr com o vaqueiro
A ordem dele seria
Matem se julgar preciso
Se revidar com valentia

traga o menino novo
Que ele é filho meu
O resto pode tratar
Como bicho que já morreu
E sacudam na desgraça
Que ele mesmo escolheu

-05- Fim

06.09.2010 - 00:02

Terremotos por Mayara de Paula Lazaro

Terremotos

Às vezes eu gostaria de estar em uma praia deserta.
Sem dores, sem flores, sem cores.
Olhando para o horizonte, pensando em nada, demasiadamente neutra, tranqüila com o tic tac do relógio.
Sem tempo, no vento , parado, com o corpo molhado.
Com a mente vazia, o coração alagado de tanta fantasia.
Deitada na rede encolhida e remoída, descansar. Fechar os olhos, e ver na escuridão as respostas certas, para as perguntas erradas. No caminho, deixar marcas no chão, e se eu precisar voltar?
Lugares tatuados de passagem, de escolhas, de vida. Mudada, marcada, inventada, que precisa ser lembrada, quando citada. Nem sempre tem rimas, nem sempre tem musica, nem sempre tem clima.
O tempo fechado, calado. Será o silencio que precede o esporro, o sopro cruel, das idéias diversas e das razões contrárias.
O tempo fechou, o momento acabou, a conquista de longe, vista indo embora como um barquinho no mar. Ah, o mar, sempre agitado, alagado, salgado. Já foi doce, já foi amargo. Com o passar dos dias, a tempestade vai embora deixando algo a mais, a aprendizagem, a repescagem da vida, a segunda chance para quem nada e não morre na praia.

Mayara de Paula Lazaro

05.09.2010 - 23:59

Soneto Perpétuo de Lourdes Neves Cúrcio

Soneto Perpétuo

Poetizar é dar mais cor e encanto à vida
É externar os sentimentos mais velados
Deixar o sonho em versos ser transformado
E a emoção em estrofes ser traduzida

A arte de expressar o amor é do poeta
Que das mãos divinas recebeu o dom
Da inspiração de versejar em suave tom
Que toca a alma, reconforta e aquieta…

Seja o poeta aquele que irá transmitir
O que o âmago em silêncio está dizendo
E o coração está deveras a sentir

E o ecoar dos versos vai ultrapassando
A tênue linha imaginária do horizonte
Para com o cosmos ir então se perpetuando…

Lourdes Neves Cúrcio

30.06.2010 - 12:21

Despertar por Janett Morais

Não sabia que um dia, eu desabrocharia
para esta bela arte de fazer poesias.
Nos meus momentos de solidão, navegava
na minha fértil imaginação, tentando encontrar
uma forma de ocupação para minha vida de
insatisfação.
Sem grandes pretensões, comecei um caderno
rabiscar,
todas as angustias que a minha alma inquieta
tentava sufocar.
Para mim foi uma feliz surpresa, pois eu não
entendia
ver escrito no papel, toda magoa que eu sentia
em forma de poesia.
Daí em diante não mais parei, escrever para
mim, virava lei.
Sentia de coração, que pelo menos uma frase
por dia, fazer… Era minha obrigação.
Foi então que descobri, sozinha não mais
estava…
Tinha ali dentro de mim, a companhia que me
bastava.
Anulei ansiedades libertei-me dos temores.
Aquela solidão de horrores,
eu não tinha tempo de alimentar.
Pois agora tinha comigo, um lindo Eu para me
acompanhar.
Me ensinando coisas lindas para no papel
colocar.
Foi então que surgiu a idéia , deste livro
publicar.
Dividindo com o mundo o que dentro de mim
vivia a guardar,
quando pensava que era tarde, porque não
tinha mais idade
para a alguma coisa me dedicar.
Estou apaixonada, por este meu eu profundo,
ele é verdadeiro, me mostrando um novo
mundo.
Do qual eu tinha medo, sempre me
resguardando
deixando de ser autentica, pra agradar gregos e troianos.
Hoje posso dizer, sou livre de verdade
Pois nunca mais deixarei, tirarem minha
liberdade
de ser quem eu sou
para viver uma vaidade, de mostrar para
alguem
uma falsa personalidade, tentando agradar
a quem não me ama de verdade.
Simplesmente descobri que para viver não tem
idade.

Janett Morais

19.06.2010 - 10:20

O sensualismo de “E agora” de Julie Philippe Santos

E agora?

por Julie Philippe Santos

Doces pulsos elétricos me percorrem o corpo pra não me deixar esquecer que foi muito bom. Eles também me lembram que o verbo por ora é no passado e que, por causa deles mesmos, não pude fazer muito para que volte a ser dito no presente.

Os arrepios gelados escorrem pelas pernas, braços, espinha abaixo. Entre as omoplatas, onde as mãos não chegam para espantá-los, depois dançam sobre meus cabelos onde um toque tão leve deixou uma cicatriz igualmente fria.

Mas mais do que machuca, o gelo me arranca a realidade. Errada aquela percepção de verdade, paixão e delícia, o que poderei dar por certo? Que sonho se fará possível diante de uma realidade que vi desfazer-se na neblina úmida?

As cores, os cheiros, os arrepios quentes e a luz que inundava as veias como fogo, leve como o riso, agora oscilam entre o caminho do branco e preto que alivia e o apego que me impede de esquecer. O lembrar ainda é sentir. As coisas boas primeiro, depois as últimas notícias. Me recrimino por ter dirigido tão rápido para casa. Deveria ter vindo mais devagar, saboreando aquele sonho tão frágil e tão mágico que me fazia cantar a plenos pulmões pelo caminho.

O lado ruim de provar quase todas as cores ao lado de alguém é que depois não há qualquer lugar seguro. O escuro traz os arrepios mais dolorosos, fantasmas dos abraços trocados, dos braços que se atrapalham, da vontade de dormir pra sempre, do pijama curto, do cobertor muito quente. O livro de receitas, a medalhinha de ouro no pescoço dele. O vinho, o braço do violão, o disco da Marisa Monte, o cara com a meia que não combina que vi na rua hoje.

Claudinho e Bochecha, Norah Jones, Guilherme Arantes, David Gilmour. O trabalho, o sobrenome da melhor amiga, cafuné e ovos mexidos de manhã cedo. Um SMS que chega, os sapatos baixos, os brincos de flores coloridas. Meus vestidos, o perfume que traz todas as lembranças feito gás venenoso.

O toque no pescoço e no cabelo, a lembrança de uma voz que agora machuca como um grito, a lembrança doce de um beijo na palma da mão que agora queima como uma chaga. A faixa que não consigo mais colocar no cabelo, o cardigã florido. Tanto de mim que se desfaz em saudade e lembrança, pedaços do passado e do presente que trazem consigo um sonho tão bom que chega a doer, justamente por ter sido sempre sonho.

Assim como dói olhar no espelho e procurar a beleza que teria sido suficiente.
Como dói cantar e procurar as notas que teriam completado a mágica, a doçura que teria viciado os lábios, o sorriso que apertaria o coração numa saudade que agora já sei que não existe. Doem as coisas que não disse, as bobagens que deixei escapar. Os beijos que não roubei, os segundos que desperdicei olhando para a lua.

Arde a vontade de entrar num avião e ir até Madrid pedir mais um beijo ciente de tudo isso, pra descobrir se a mágica esteve aqui dentro o tempo todo ou se chegou a cintilar entre nossos lábios. E se era de nós dois, onde está agora? Teria se perdido no mar?

17.05.2010 - 07:47

Filosofia por Valmir Viana

Filosofia

Mindi of way
house fluid,
look first.

Logos voa no canto Elísios sem ardil, compõe abstracão,sublimidade de bivias luzeiros via láctea transcendente circular sonhos etéreo.

Epigrama de uma intuição
objetivo um haicai há existir,
condores em abóbada os montes
reverência o estandarte cancioneiro.

Subjetiva voz do ínsito vate
filosofia plasmada na aura,
sabedoria, extasiaste criação
fremente orvalhar da razão cintilar.

Valmir Viana.
poeta

04.05.2010 - 09:37

Epifania por Antônio De Vitto

Epifania

por Antônio De Vitto

Eu estou sozinho. O ar que eu respiro é a única coisa que me resta. Já são três horas da madrugada, e eu estou sentado, num banco de praça, olhando ao redor, com a esperança de que ninguém me ache. A minha vida tem sido um inferno nos últimos sete dias. Eu perdi as duas únicas coisas que mais me importavam nesta vida: a minha casa e a minha namorada. E eu queria saber o por quê. Aliás, no fundo, eu devo saber, só que ainda há um sentimento dentro de mim, que não quer que a verdade se revele, um sentimento perfeccionista, um orgulho que prefere se manter intacto à revelar algo que possa ferí-lo.
O vento sopra. A árvore balança. Uma folha cai em minha cabeça. Mas eu não quero tirá-la dali. Estou poupando todos movimentos desnecessários. Aliás, estou poupando todos os movimentos. Eu nunca senti algo tão forte assim… Ser expulso de casa é horrivel. Uma terrível sensação de rejeição, ódio, raiva, amargura e amor, tudo ao mesmo tempo. É como se seu coração fosse um liquidificador, você pegasse tudo isso e batesse. Você se sente tonto, perdido. Não tem noção de onde está. Não sabe o que vai fazer, não sabe se quer viver, não sabe se quer pular da ponte mais próxima e se jogar, não sabe se quando for assaltado, gritará para o bandido: “Mate-me, por favor!”.
E aqui, eu penso…todo este tempo, o qual eu morei com os meus pais, em casa, eu fui um bom filho. Nunca tiveram do que reclamar. Eu sempre fazia o que me pediam, ainda acho que eu era muito bonzinho. Sempre brinquei, sempre fui divertido, bem-humorado, nunca causei mal algum para ninguém. Sempre permanecia quieto. No meu canto, deitado num sofá, do lado de uma lareira, que me aquecia em todas as noites frias e solitárias. A última coisa que eu fiz, antes de ouvir o julgamento final de meu pai, “Saia daqui”, e alguns empurrões em direção à rua, foi deitar do lado daquela lareira. Naquela hora, estava pensando sobre minha namorada. Ah, o meu doce amor… Como eu amava aquela cachorra. Tivemos loucas noites junto, era um amor insaciável, aventureiro… Mas, aquela cachorra me traiu. Eu não sabia se aquela porra de amor que eu sentia era recíproco. Eu não sabia se ela realmente me amava também ou estava lá só para me trair. Mas agora eu sei. Ela está lá agora, comendo do bom e do melhor, sentada num aconchegante sofá azul-piscina, pago em dez prestações, sendo confortada por dois proletariados de classe média, meus antigos pais. Eu ainda não sei porque os chamo de pais. Nunca cuidaram bem de mim. Eu não sei o que fiz para merecer isso tudo.
Sabe, pode até parecer clichê, mas é uma das frases que mais me conforta agora: “ Tempo é remédio “. E espero que assim seja. Eu digo “Foda-se”, bem alto, ecoando pelas ruas ( mesmo que ainda ninguém me entenda ), pulo daquele banco e sigo em alguma direção, a direção que, agora, é o rumo de minha vida… Ela é… o norte. O norte. Não sei o que me espera, nem o que vai acontecer. Eu aprendi que a vida é apenas uma aventura sem propósito, na qual nos fodemos o tempo todo. A felicidade é apenas algo momentâneo, por isso, tenho que aprender a conviver com a dor. Nada mais é importante para mim, além de mim mesmo.
E aqui vou eu, ó grande mundo que me aguarda! Eu vos digo, não é fácil ser um cachorro de estimação…

04.05.2010 - 09:29

A Zona Eleitoral, por Arthur Maciel

A Zona Eleitoral

por Arthur Maciel
- Povo da minha terra, que me ouve agora, aqui, neste exato momento deste dia de hoje! – grita pleonasticamente ao microfone o candidato a vereador de uma pequena cidade ao introduzir sua fala. É manhã de sábado e povo passa para a feira em meio aos cavalos, porcos e galinhas. Não àqueles que se esgoelam nos palanques, mas entre os animais de verdade, que estão à venda. Se bem que os cavalos, porcos e galinhas que falam ao povo também estão à venda. Pelo menos é o que parece. Eles se autopromovem para um pequeno grupo de gatos pingados, trazidos por eles mesmos de seus redutos, e para os transeuntes que aparentam se interessar muito mais pelos cavalos, porcos e galinhas da feira do que por aqueles que relincham, grunhem e cacarejam do alto do palco armado na praça.

O locutor diz os nomes e os números dos candidatos como quem lista os preços dos produtos do mercado: Zé do Açougue 35222, Pescoço bovino 1.99 o quilo. A carne é de terceira e os políticos, de quinta! Os discursos, se é que assim podem ser chamados, seguem um mesmo roteiro: votem em mim / sou honesto / votem em mim. Um ou outro mais falante foge à regra e faz diferente: promete coisas que até ele mesmo duvida que possa realizar! Mas ninguém questiona, só aplaude. Em política, ajoelhou tem que rezar…para que eles não sejam eleitos, suponho.

A opção de um eleitor por um candidato é de uma lógica muito simplória, quase franciscana! Por aqui, fatores econômicos e emocionais é que pesam na hora da decisão. Se o postulante dá dinheiro mas não agrada, ele torra seus bens e não vence a disputa. Do mesmo modo, se ele faz o coração feliz mas deixa o bolso triste, continua passível de derrota. Não importa se é cavalo, se é porco ou se é galinha. Sendo simpático e gastador ele tem vitória quase certa, ainda que depois o sorriso desapareça e a gastança continue, mas com o dinheiro de outros animais: das antas e dos burros que o elegeram!

A democracia, iluminada pela esperança e aquecida pela fé, como dizia o talvez ingênuo Ulysses Guimarães, é consumada com a apuração dos votos. Tarde da noite, segue uma carreata pelas ruas da cidade composta rigorosamente de um carro-de-som, uma caminhonete com o prefeito eleito em cima e o povo que, correndo eufórico na frente, mostra que foi feita a sua vontade. Onde a festa acaba? Para o candidato vitorioso, em um almoço no dia seguinte com as autoridades locais. Para o povo, em uma ressaca daquelas e numa brusca retomada da dura rotina que havia sido deixada de lado com a empolgação da campanha. As pessoas acabam esquecendo das obrigações do dia-a-dia devido ao calor da eleição e depois não lembram de cobrar as promessas da eleição por causa das agitações do dia-a-dia!

A lógica franciscana da campanha eleitoral é a mesma nos quatro anos de mandato dos eleitos. Mas a relação deles com os eleitores vai ficando cada vez menos santa, afinal eles não precisam de votos, pelos menos por enquanto, e então passam pelo que eu chamo de Síndrome da Inculpabilidade: o político começa a transferir para os outros a responsabilidade sobre sua pífia atuação. É aquela velha estória (com “e” mesmo) do Legislativo que sempre depende do Executivo para ter seus projetos executados…e assim eles vão saindo pela tangente, pelo seno e pelo cosseno com a mesma desculpa! É como se as “excelências pouco excelentes” combinassem, além das benevolências recíprocas, as justificativas furadas que vão dar à sociedade.

A cena final e mais marcante deste filme, que o leitor tem a estranha sensação de já ter visto um dia, é que aqueles que corriam eufóricos na dianteira das carreatas depois parecem continuar correndo, mas de medo do tal “sistema democrático” que descasca, usa e então joga fora. A política virou um instrumento de prostituição da cidadania. O Brasil é uma gigantesca ZONA eleitoral no seu mais lamentável sentido.

17.04.2010 - 13:01

A Feira de Trocas, por Vinícius Antunes da Silva

A Feira de Trocas

Peguei esta estória antiga na feira de trocas, se ao leitor não couber, troque-a por outra:
Seu José Pedro chegou às 4 da manhã na Praça XV, as barracas estavam de pé antes do sol. Ia o velho, levando no colo uma boneca de pano feita pela esposa há 10 anos, coisa rara e bem feita, sem valor nenhum financeiro, mas lotada de cifrões afetivos. Na primeira barraca que lhe interessou viu um lustre bonito que serviria para alumbrar todo quarto, quis trocar a boneca por ele, mas o vendedor lhe perguntou de que serviria aquela porcaria. Andou mais um pouco resfriado pelo sereno da madrugada e viu uma jaqueta feita de couro e teias de aranha. Disse ao moço das roupas que a trocasse pela boneca, mas este lhe disse que era cedo para piadas. Andou até parar pela terceira vez, ao avistar um canivete inglês, e o vendedor lhe disse que não lhe interessavam joguetes. Quando já estava a desistir, avistou uma caixa de ferramentas seminova numa tenda dum homem de barbas brancas. Zé Pedro envergonhado lhe ofereceu a boneca e, na mesma hora, o homem barbudo aceitou. Os amigos encarnaram ao feirante que se desfizera dos utensílios para tomar um brinquedo pra si. De noite, com as ferramentas, Zé Pedro dava novo jeito a sua casa, num raro momento de alegria e, Marcelinha, a filhinha do homem barbudo, tinha a noite mais feliz de sua vida, ao dormir abraçadinha com a nova boneca que um dia havia sido da filha de Zé Pedro que morrera de tuberculose.

Antunes

05.03.2010 - 18:29

Samuel Costa e o mundo de Felisberto

O mundo de Felisberto

-Vamos ‘’na’’ praia mulher? A pergunta retórica e, em tom de desespero, não abalou a mulher sentada no sofá, a tricotar uma toalhinha branca.

- “Tas’’ doido homem, ir pra praia, com um tempo desses, vê senão amola! Eulália sequer levantou os olhos para encarar o marido ao proferir essas palavras. A ‘’espanhola’’, bem sabia que os rompantes do marido, não iam parar por ali.

-Vê se cria juízo homem! Foi só comprar essa ‘’lata velha’’, pra tu ficar todo assanhado…- e de fato, após se aposentar, Felisberto enfim tirou sua ‘’carta’’ de motorista, e comprou um Fusca 68. O ‘’Fusca’’ era um sonho a muito sonhado, e só agora realizado. E o mundo de Felisberto, outrora, tão pequeno em relação de tempo e espaço, agora ganhara limites nunca antes imaginados. E esse ‘’novo mundo’’, tão vasto de possibilidades, já não cabia a espanhola. E Felisberto, de repente, pensa nas coisas que ela teve que passar para casar com ele, um simples operário, pobre e negro. E uma olhada para a decoração da casa, Felisberto se sente estranho, só agora parece notar os ‘’excessos’’ da mesma. E diz de si para si mesmo: – Droga de casa, por mim botava tudo abaixo.

-To indo pra praia mulher, se ‘’que’’ ficar, então fica…não ‘’to’’ nem ai pra ti mulher! E assim se deram as coisas, um conforto que ‘’Lola’’, a espanhola, renunciara há décadas, seu marido descobrira na velhice. E após muitas idas e vindas com o Fusca 68, Felisberto enfim pede o divórcio.

Por Samuel Costa contista em Itajaí SC

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