Mano Ferreira - 26 de agosto de 2015 às 11H 33M

A educação como um Santiago Kovadloff

mar-onda

Santiago Kovadloff é personagem de um conto de Eduardo Galeano. A história é bem curta: Kovadloff é pai de Diego, um jovem menino que ainda não conhecia o mar. Para que conhecesse, viajaram ao litoral. Ao chegar no topo das dunas altas, anteparo da paisagem, e vislumbrar a imensidão das águas, Diego fica mudo de beleza. Até conseguir, tremendo e gaguejando, fazer um pedido:

olivrodosabraços– Pai, me ajuda a olhar!

Galeano intitulou o conto A função da poesia, e o texto está presente em seu excelente O livro dos abraços, de 1991. Tomo a metáfora emprestada para o início deste Grão Seleto. Aqui, a educação é o nosso Santiago Kovadloff. Ela é o que nos ajuda a ver o mar. Ou também as dunas altas, e toda a poesia possível.

Falar da importância da educação é um lugar comum maior até que amor e dor, a antiga rima. No início do ano, o governo federal anunciou Pátria Educadora como o seu novo slogan. Dado o talento retórico presidencial, trata-se de uma evidência do vácuo de preocupações sinceras que a educação tem despertado. A troca rápida de ministros – Cid Gomes por Janine Ribeiro, em menos de seis meses – também deixou claro que a prioridade se resume ao marketing. O que também é reforçado pelos expressivos cortes no orçamento da pasta.

Sempre me impressionei com a ausência de assiduidade que a reflexão sobre educação possui na imprensa. Acho incompreensível até do ponto de vista corporativo: um público educado demanda mais notícias que um iletrado. Basta ver que os maiores jornais do mundo partem de lugares com bom número de leitores. Talvez as notícias precisassem ser um pouco mais complexas, é verdade, mas prefiro acreditar que valeria o investimento. Recupero o mote de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. Mulheres também, é claro.

Como também sou jornalista, seria muito feio simplesmente culpar a mídia. Decidi fazer um pouco a minha parte. Quando começamos a planejar a reestruturação do projeto digital do Café Colombo, o que inclui este portal de cultura sobre livros e ideias, já sabia de antemão uma parte da minha responsabilidade: construir um espaço de diálogo crítico sobre educação e formação de leitores. Temos 13 anos de Café. Se queríamos chegar aos 31, com saúde e sem grandes problemas cardíacos, era preciso ajudar a formar novos leitores. É verdade que já fazemos bastante ao conversar sobre livros, e vamos continuar fazendo, mas espero que agora façamos ainda mais direcionando o holofote ao tema.

Este espaço será alternado entre escritos e áudios. De vez em quando trarei uns pitacos e princípios, como hoje. Mas na maior parte das vezes conversaremos com professores, pesquisadores e leitores, pessoas com alguma experiência e dedicação ao universo da educação e da leitura. Vamos tratar dos processos, métodos, problemas e propostas relacionados à aprendizagem.

Creio que toda conversa precisa negociar termos. A linguagem não é absoluta. Quanto tratamos de educação invariavelmente trazemos à tona uma longa história de discussões, que atravessa toda filosofia, em torno de uma definição. Desde os sofistas, muito antes de ser entendida como um direito – tópico que pode render boas discussões futuras -, já havia uma preocupação para que a educação fomentasse uma espécie de espírito crítico, num grande conflito entre o caráter subjetivo ou objetivo do conhecimento. Há quem acredite, como Platão, em educação como o encontro com a verdade, atributo que seria autônomo, universal e aplicável a todas as circunstâncias. Mas estamos no século XXI, e essa dualidade já se coloca em outros termos, com a necessidade de problematizar a verdade. Nesse aspecto, creio que é mais próprio tratarmos de conjecturas, como propunha Karl Popper. Com isso, evidencio a pretensão exata deste espaço: não oferecemos verdades, mas conjecturas. Queremos trazer visões que dialoguem e se construam.

No Brasil, e ainda mais em Pernambuco, é bem difundida a ideia de Paulo Freire, patrono oficial do MEC, de que existem dois tipos básicos de pedagogia: a do opressor e a do oprimido. Certamente vamos conversar sobre isso, mas acho a dualidade simplória, e não é a partir dela que quero localizar essa coluna.

Penso que as pessoas são fins em si mesmas, mais do que integrantes de uma classe. Não quer dizer que as classes não sejam um dos meios de formação das pessoas. Mas que as pessoas são mais importantes que as classes. Nesse sentido, diria que educação, pra mim, tem muita relação com Bildung, conceito central para Wilhelm von Humboldt.

Estátua de Humboltd na Universidade de Berlim, da qual foi fundador e que hoje leva o seu nome

Estátua de Humboltd na Universidade de Berlim, da qual foi fundador e hoje empresta o nome

Diplomata e filósofo, Humboldt viveu na Alemanha, entre 1767 e 1835. É autor de diversas obras, inclusive o monumental Os Limites da Ação do Estado, de publicação póstuma, em 1852. Considerado por Hayek como “o maior filósofo da liberdade”, foi amigo de figuras como Goethe e Schiller, além de fundador da Universidade de Berlim, sendo considerado até hoje o pai do sistema educacional alemão.

os limites da ação do estado-humboldtBildung significa processo de aperfeiçoamento pessoal e reflete a preocupação humanista quanto a formação da personalidade e o cultivo das habilidades individuais. Educação, nessa perspectiva, trata basicamente da liberdade de ser o máximo de si mesmo, de desenvolver potencialidades e exercer a própria subjetividade. Um aspecto fundamental dessa visão está na palavra processo. A educação, pois, não termina. A nossa própria subjetividade está em contínua construção. E é bom que sejamos, cada um, até o máximo possível, mais do que os produtos, os sujeitos dessa construção, capazes de gerir as diversas influências.

Para a possibilidade de gestão do que é alheio e daquilo que nos constitui é fundamental, antes de tudo, sermos leitores. E como explicava o professor Luiz Antônio Marcuschi, da UFPE, depois incorporado nos parâmetros curriculares nacionais, ser leitor é muito mais do que decodificar signos isolados:

“A leitura é o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a linguagem etc. Não se trata de extrair informação, decodificando letra por letra, palavra por palavra.

Trata-se de uma atividade que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível proficiência. É o uso desses procedimentos que possibilita controlar o que vai sendo lido, permitindo tomar decisões diante de dificuldades de compreensão, avançar na busca de esclarecimentos, validar no texto suposições feitas”.

E assim como a leitura vai muito além do letramento, o texto vai muito além da palavra escrita. Aqui, ao pretender abordar o processo de formação de leitores, queremos tratar também da leitura de livros, mas não somente. Queremos discutir a leitura de músicas, pinturas, gestos, situações. Todas as articulações, enfim, para uma grande leitura do mundo e, sobretudo, de nós mesmos.

É a semente que imagino para colhermos o Grão Seleto que trará o melhor Café. Beberemos, claro, acompanhados, diante do mar de Kovadloff.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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