Cristiano Ramos - 05 de novembro de 2015 às 19H 25M

A liberdade possível de Renata Pimentel (2ª parte)

III

renata_cafe3Em prefácio do primeiro livro de poesias de Renata Pimentel, o também poeta Majela Colares apontou a modernidade da linguagem e o “seu imaginoso grau de consciência dos enigmas que habitam a arte de untar versos”. Comentário que remete ao texto referencial de João Alexandre Barbosa, “As ilusões da modernidade”, em que “entre e linguagem da poesia e o leitor, o poeta se instaura como o operador de enigmas” consciente do que “há de instável na condição de enigma”, pois um “novo enigma é a resolução transitória de numerosos enigmas anteriores”.

Nas tantas modernidades as quais assistimos, a poesia foi lançada em espirais de rupturas e tradições. Em parte razoável ou majoritária dos giros, tanto foi posto em cheque o sentido de autoria, quanto se requisitou do poeta essa consciência permanente e produtiva não só dos enigmas, mas também da condição crítica ocupada pelo seu fazer – ou, como sintetizou o professor e poeta Marcos Siscar, em Poesia e Crise (Editora da Unicamp, 2010), “constatar o fim dos tempos da poesia é um modo de esta realizar a modernidade poética”.

Renata Pimentel conhece tais capítulos, ela tem noção das órbitas que rejeita ou percorre em tais espirais teóricas e poéticas– podemos intuir muito de suas impressões ao ler Da arte de untar besouros. No segundo título (este recém-lançado Denso e leve como o voo das árvores), contudo, a poeta não traz para frente do palco gestos que nos apresentem aquelas rebeliões e os mecanismos de encantamento como se protagonistas dos versos; tais elementos restam basilares e presentes, mas permanecem antes das cortinas, enquanto outros temas e demandas se sobressaem. Como disse a própria Renata (ao Jornal do Commercio), o livro foi concebido “como uma dramaturgia poética, uma voz que vai se juntando em um percurso poético de uma espécie de demiurgo”.

Acontece que, nas tais modernidades que testemunhamos ou estudamos, ao mesmo tempo em que muitos poetas citam essa condição demiúrgica (ou seja, daquele transcendente que faz presente e enuncia um conhecimento ou fenômeno que está além das sombras imperfeitas), eles também costumam colocá-la em dúvida, ou mesmo desdenhar desses instantes e orbes carregados de sabedoria (podemos recordar aqui o exemplo extremado dos versos de Drummond, nos quais, ao se deparar com a reveladora “máquina do mundo”, o “eu” lírico decide rejeitá-la e seguir seu caminho pedregoso e desalentado).

IV

Creio que os grandes momentos de Renata Pimentel surgem dessa profana e paradoxal condição da poesia – de negação e demiúrgica –, enquanto os versos menos interessantes acontecem justamente quando a poeta se propõe mais nítida e resolvida – e, por conseguinte, o prato das inquietações, reaprendizagens e ventos termina frágil ou quase esvaziado.

Bem verdade que críticos literários são frequentemente péssimos conselheiros; também é certo que, na primeira parte desta resenha, defendi como méritos a coragem e a destreza de Renata em buscar toda liberdade possível. Entretanto, não deixei de registrar que, em seus depoimentos e também em alguns dos seus versos, a autora parece cônscia dos riscos que está disposta a comprar e cumprir. Na supracitada matéria de Jornal, por exemplo, ela reconhece que, “quando a gente se inventa, às vezes também se aprisiona”.

A liberdade demonstrada na maioria dos seus poemas – de ser densa e leve, permanente e frágil, reconhecível e inconstante – tornou-se virtude poética indisfarçável, fonte de textos admiráveis. No entanto, essa mesma qualidade talvez suscite no leitor uma rejeição aos versos que restam mais nostálgicos, afirmativos e pacificados – sentimento como de um desbravador que não se interessa pelas paisagens e climas mais previsíveis; de um navegador que desgosta tanto das águas calmas quanto das tempestuosas, quando restam congeladas em fotografia.

Tornei-me um desses leitores inoportunos, pois desejo sempre a Renata Pimentel que realiza textos como “cais”, “onde a fronte atraca / em interrogação”: poeta que, até ao ceder espaço para o fatídico, não o faz com versos aquiescentes, mas sim como em “desnome”, poesia na qual

 

batismo
é poder maior
não concedido
mas tiranizado
e o percurso do infante
é descascar minérios
enquanto rói as unhas
e esfola as pontas táteis
do próprio calendário

 

E, assim inoportuno, seguirei acompanhando a valorosa poesia de Renata Pimentel.

Leia também a 1ª parte desta coluna Doppio Espresso sobre Renata Pimentel.

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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