Cristiano Ramos - 05 de outubro de 2015 às 20H 19M

A liberdade possível de Renata Pimentel (1ª parte)

I

renata_cafe1Em 2012, recebi primeiro livro de poesias de Renata Pimentel. Foi também primeiro contato com o capricho editorial da Confraria do Vento. O que me fez guardar Renata como um dos principais nomes da nova poesia brasileira, no entanto, não foi o cuidado dos versos ou do livro enquanto objeto; impressionou-me, sobretudo, o feliz equilíbrio entre maturidade poética e liberdade de criação.

A cada página daquele Da arte de untar besouros, era nítido o conhecimento de técnica, histórias e teorias literárias. Contudo, era igualmente óbvio que a poeta não estava disposta a se aprisionar em lugares-comuns, a se constranger por jargões e preceitos, fossem da academia ou das ruas, de esferas mais ou menos formais, mais ou menos tradicionalizadas.

No recém-lançado Denso e leve como o voo das árvores (novamente pela Confraria do Vento), Renata traz novas provas dessa autonomia possível. Daí, por exemplo, seu destemor em realizar obra profundamente ligada às suas memórias e afetos! Pouco importa se dizem que lembranças e sentimentos devem ser tratados com desconfiança ou mesmo antipatia, pois ela não permitirá que tais clichês abortem poemas.

Talvez este seja o dado contemporâneo que a autora propõe: que não devemos esquecer as lições conquistadas, tampouco desdenhar das ambições de transgressão (formal e/ou temática), mas que também é preciso zelar para que tais fortunas e rebeliões não limitem, não se convertam em algemas ao processo criativo.  Se, por exemplo, um poema começa a nascer quase crônica, ou muito sentimental, pois então que seja vivido e trabalhado – nenhuma bula de véspera definirá seu destino enquanto poesia!

II

O título, além do “denso e leve”, traz imagem ainda mais rica em possibilidades de diálogo com a obra de Renata Pimentel: as árvores! Tratados de simbologia, antropologia e psicanálise afirmam lugar da árvore como símbolo do imanente e do transcendente, daquilo que nos define e também de nossa inconstância; árvores que estão profundamente fincadas na terra, mas que também se lançam no espaço; que nos remetem a um paraíso que nos disseram perdido, embora também nos inspirem sensação de algo por descobrir e conquistar.

As árvores são muito requisitadas por quem versa sobre paz e sabedoria. Como ressalta Bachelard, todavia, elas também surgem atormentadas, agitadas, apaixonadas, ressoando clamores de tempestade, alimentando e denunciando incêndios, atraindo raios e sucumbindo com grande estrondo e promessa de danos. São, enfim, alegorias tanto da contemplação e da prudência, quanto das paixões humanas.

A poesia de Renata é assim, enraizada e aérea, reflexiva e de ação, formal e sentimental; e suas copas, ainda que não transpareçam esforço de originalidade (preocupação que, não raro, resulta pela culatra), são sutil e elegantemente reconhecíveis.

Numa das epígrafes do livro de estreia da poeta, um Guimarães Rosa: “alguma força, nele, trabalhava por arraigar raízes, aumentar-lhe alma”. Espírito e raízes juntos, expressando unidade, identidade, permanência. Ao que a epígrafe anterior, buscada em Mia Couto, opunha-se com “Escrevo porque tenho o prazer de profanar algo que é do cotidiano”. Tomada por suas raízes e alma, exterioridades e profanações, a poeta começou com outro trecho de Rosa, em que “Seguia certa; por amor, não por acaso”.

As recordações e as dúvidas, os aprendizados e as paixões, nada é negado pela poeta, nada se impõe absolutamente, e nada resta nas hélices do acaso. Renata Pimentel toma suas matérias e sonhos, faz e também deixa fecundar, compra e paga todos os riscos dessa criação amorosíssima (de um amor nunca reacionário).  Ou, como propõe em um dos novos poemas, “sejamos / promessa viva / e sina cumprida”.

Na próxima coluna Doppio Espresso, continuaremos a tratar da poesia de Renata Pimentel. Até lá!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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