Sylvio Ferreira - 03 de setembro de 2015 às 11H 55M

Alice e o seu avesso

Obra de Lewis Caroll completa 150 anos de publicação e continua representando

Obra de Lewis Caroll completa 150 anos de publicação: toca do coelho permanece como o mundo subterrâneo dos nossos desejos

Ainda que numa outra perspectiva literária, que transita da inocência à sua superação, Wladimir Nabokov é herdeiro de Lewis Carroll, sendo Lolita a imagem em negativo de Alice, refletida no espelho. Embora ambas as imagens sejam estonteantes, Alice nos fascina na medida em que ao lermos Lewis Carroll nos sentimos em paz com a nossa consciência, pelo triunfo do recalque sobre o recalcado; todos que lêem Carroll adentram o mundo mágico de Alice e, com ela, nele se permitem perder sem com isso perder o juízo.

Ao salvaguardar os nossos desejos ocultos, o criador de Alice faz emergir em cada um de nós o desejo de ser companheiro de brincadeiras da menina que descobriu o mundo ao entrar numa toca de coelho; e que ao entrar nela, nos fez conhecer o mundo subterrâneo dos nossos desejos imaginários, a partir de uma perspectiva simbólica. Não foi por menos que Alice descobriu o País das Maravilhas sem que o seu Eu se pulverizasse ou viesse a fazê-la perder a noção de si mesma.

O País de Alice é estonteante, mas não causa repulsa ou horror em quem o visita, conduzido pelas mãos de Alice, através da pena de Carroll. O País das Maravilhas é o delírio de Alice, que por sua vez é o delírio de Carroll, sendo este o imaginário de todos nós refletido no espelho simbólico dos desejos do mundo, que têm uma anterioridade sobre o mundo surreal de Carroll e o mundo imaginário de cada criança ou adulto.

Uma anterioridade que, embora primeva, organiza o que há de mais arcaico no nosso mundo imaginário-pulsional fazendo do ato de sonhar uma cena vivida em estado de vigília, sem com isso nos remeter ou fazer adentrar o mundo da desrazão. Com Carroll é possível, ao invés de sonhar num teatro à porta fechada, fazê-lo a céu aberto, pois ao adormecermos se abrem as cortinas e se desenrola grande parte dos dramas das nossas vidas, sem que saibamos a natureza do texto representado, a procedência específica da montagem do espetáculo, e muito menos quem é o diretor da peça.

Alice é a nossa aventura cotidiana desmedida num mundo de medidas, possibilita-nos a impossibilidade de tudo querermos ser e tudo querermos viver, mesmo tendo que se colocar de ponta-cabeça para descobrir a desordem da ordem do mundo.

Enquanto Alice acaricia o nosso imaginário com uma pluma feita de pena de ganso, embora o faça com a força do estímulo necessário para que, junto com ela, sejamos arrastados a correr atrás do coelho em sua toca alucinante, Lolita mira e atira na nossa consciência com uma espingarda de grosso calibre, ao fazer com que acompanhemos os seus movimentos não de fora para dentro, mas nos remetendo, exatamente, para o olho do furacão situado na mente de Humbert. Trata-se do lugar da força pulsional desmedida, da ultrapassagem dos limites, da transgressão de si mesmo, numa viagem através do mundo dos espelhos que reflete uma imagem única, e aponta em direção a um único caminho: o triunfo do imaginário sobre o simbólico, do gozo sobre o desejo, da perversão do sujeito sobre a perversa ordem coletiva.

Lolita

Lolita interpretada pela atriz Sue Lyon na clássica adaptação dirigida por Stanley Kubrick, em 1962

Lolita nos faz mais do que devanear, ela nos faz triunfar num mundo em que todo sucesso somente pode ser vivido em forma de fracasso: o fracasso do gozo diante do desejo, da plenitude em face da incompletude, da onipotência individual diante da coerção social expressa em nome do bem-comum. Pelas mãos de Nabokov, que nos introduz nos desejos de Humbert, somos levados a conhecê-la, mas é ela que nos faz conhecer o Humbert que nos habita, mesmo que ele esteja aprisionado feito uma fera enjaulada (no inconsciente) ou domesticado como um bicho de estimação (na consciência).

Para isso, Nabokov rasga a nossa pele e expõe as nervuras dos nossos ossos, sem em nenhum momento ser libertino: simplesmente é honesto com o exercício da sua escrita, escrita pulsante, vibrátil, que não se dissocia de quem a escreve (embora Nabokov não seja Humbert). Escrita que faz emergir uma outra voz, não apenas lá dentro de Nabokov, mas também de dentro de cada um de nós; não a voz sufocada do dia-a-dia que costuma sair de nossas bocas na forma dos miasmas psicológicos e sociais em que nos transformamos e que nos desintegram, quando o nosso propósito é nos manter inteiriços. Tampouco um fiapo de palavra qualquer, que mais nos afasta do que nos aproxima de nós mesmos, e que faz com que as nossas falas sejam vazias.

Lewis Carroll nos revela um mundo estonteante, de ponta-cabeça, o País de Alice, mas para nele adentrarmos não é preciso que plantemos bananeira (tal como na minha infância era chamada a posição de brincar de ponta-cabeça). Nabokov revela um mundo mais do que estonteante, revela um mundo que nos sidera mediante o horror que elicia.

Nele, ninguém pode adentrar sem subverter a si mesmo ao longo de toda leitura da obra em apreço. Subversão temporária de si, é verdade, mas o suficiente para promover uma torção simbólica em quem entra em contato com o livro, para o resto da vida.

Lolita, como foi dito, é a imagem de Alice revelada em negativo no espelho, ou o seu contrário. No mundo da literatura, tal qual no mundo dos espelhos, tudo é uma questão de ótica. Bem que, nesta perspectiva, Wladimir Nabokov poderia ser o coelho e Lewis Carroll, Lolita.

Sylvio Ferreira

Professor do Departamento de Psicologia da UFPE, Sylvio Ferreira foi fisgado pela psicanálise desde muito cedo e se fragmentou numa pluralidade de interesses que o levam do cinema, passam por candomblé e jazz, e chegam ao Santa Cruz, onde é presidente do Conselho Deliberativo.

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