Thiago Corrêa - 14 de setembro de 2015 às 10H 44M

Antecessores

Cent mille milliards de poèmes, de Raymond Queneau

Cent mille milliards de poèmes, de Raymond Queneau

Se você usa o Windows como eu, há de se convir que o processo de inicialização é lento. Enquanto aguardava que o sistema fosse carregado, comecei a esboçar mentalmente o que seria deste texto e, em protesto contra a demora do software de Bill Gates, decidi que continuaremos atrás do início. Como na coluna passada tentamos identificar o surgimento da literatura eletrônica a partir das primeiras experimentações de linguagem através do uso do computador e da internet; hoje vamos mostrar que nem tudo é novidade nesse campo.

Mesmo que os conceitos de literatura eletrônica remetam à relação de dependência entre as obras e o meio digital (cenas da próxima coluna), é importante ressaltar que boa parte dos pilares de sustentação dessas obras já vinham sendo testados no impresso. Por exemplo, no Brasil, o professor Alckmar Luiz dos Santos defende que a poesia digital é reflexo de discussões ainda mais antigas do que as primeiras experimentações concretistas em computador. Segundo ele, a poesia concreta e o poema-processo, lá nos anos 1950, vinham trabalhando conceitos importantes para a poesia digital, a exemplo de questões como as dificuldades na criação, a participação do leitor, o relacionamento com outras linguagens e suas contraposições entre o verbal e o imagético.

Outro exemplo: o hiperlink, que é tido por Pierre Lévy como o grande diferencial da linguagem digital por possibilitar a quebra de linearidade narrativa ao permitir novos acessos diretos à obra que não sejam o da primeira página. Não é preciso muito esforço ou familiaridade com o mundo dos livros para se constatar que ele não é uma invenção do meio eletrônico. O recurso é amplamente utilizado no impresso através do sumário, dos índices remissivos, do sistema de notas de rodapé ou das separações entre verbetes dos dicionários e enciclopédias que liberam a leitura da linearidade, oferecendo outras entradas rumo ao texto desejado. Algo que já está na Bíblia, no sistema de organização baseado em divisões de livros, capítulos e versículos (embora, nesse caso, não seja propriamente uma vantagem, por favorecer uma leitura descontextualizada que permite sua manipulação).

livro-maquina-e-imaginario-arlindo-machadoAinda que a Bíblia tenha lá seu viés, digamos, literário (para não dizer ficcional); no universo da literatura mais propriamente, o uso de recursos para quebrar a linearidade do texto já se faz presente em experimentações desde o século XV. No livro Máquina e imaginário (1996), o pesquisador Arlindo Machado lembra das Litanias de la Vierge, atribuídas a Jean Meschinot, que permite engendrar 36.864 litanias num jogo combinatório; do soneto Vencido está de amor, do escritor português Luís de Camões, publicado em 1595; e do 41º beijo de amor de Quirinus Kühlman, de 1660, cuja estrutura permite a troca de palavras de cada verso, gerando mais de 6 bilhões de poemas.

É o caso também do livro de poesia exponencial Cent mille milliards de poèmes (1961), do escritor francês Raymond Queneau, integrante do grupo Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), dedicado a estabelecer relações entre a literatura e a matemática, propondo desafios para a escrita. Com uma diagramação especial, cada um dos 14 versos do soneto de Cent mille milliards de poèmes é disposto em tiras, o que permite ao leitor combiná-los com outros versos de outras páginas.

Raymond Queneau

Raymond Queneau

No terreno das narrativas, temos as ideias propagadas por Jorge Luis Borges no conto O jardim de veredas que se bifurcam de 1941 (que não chega a ser uma história em hiperlink, mas sugere possibilidades de escolha por parte dos leitores), dos dois caminhos de leitura sugeridos por Julio Cortázar em seu O jogo da amarelinha (1964), da ausência de ordem de páginas propostas por Max Saporta em seu Composition n. 1 e do ingênuo Um conto à sua maneira (1967), do próprio Raymond Queneau.

Todas essas obras guardam inquietações importantes, levantando questões sobre a noção de autoria, a participação dos leitores no desenvolvimento da trama, os limites da obra, a possibilidade de combinações, a não linearidade narrativa, etc. No entanto, por mais importante que elas sejam para o surgimento da literatura eletrônica, isso não faz com que elas sejam exemplos da mesma. O que nos leva a pergunta: então, afinal, o que diabo é literatura eletrônica? Bom, isso já é assunto para um próximo Café com Leite.

Thiago Corrêa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, Thiago Corrêa é um dos fundadores do grupo Vacatussa e já foi setorista de literatura nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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